sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Chega e eu

Não é que seja muito de espantar, mas o meu post anterior, sendo sobre o que me parece ser o efeito prático do voto no Chega e os objectivos dos seus dirigentes, suscitou dois tipos de comentários frequentes sobre o Chega: os que se escandalizam porque acham o Chega um partido diferente dos outros, perigoso, ameaçador, boçal, infrequentável, etc., e os que se escandalizam porque acham o Chega um partido diferente dos outros, que vai acabar com a casta, a corrupção, os esquemas, etc..


Ora o post que fiz parte de um pressuposto diferente, o pressuposto de que o Chega é um partido como os outros e deve ser avaliado pelo que é normal avaliar qualquer partido.


Para mim, o Chega não tem interesse nenhum.


No médio/ longo prazo, é um partido que essencialmente quer mudar políticos e não tanto políticas, ou seja, um partido assente na certeza da superioridade moral dos dirigentes e militantes do Chega face aos restantes (neste sentido, é um partido muito próximo do BE).


E é exactamente por isso que me parece que o Chega não quer saber se governa o PS ou outro qualquer (prefere o PS porque é mais fácil federar votos de protesto com governos tão maus, mas tirando isso, tanto faz ser um ou outro partido, o que interessa aos dirigentes é acederem eles próprios ao poder), quer apenas ser o partido maioritário da direita para aceder ao poder em posição dominante, isto é, quer ser o PS da direita.


Ao contrário da Iniciativa Liberal, que é um partido ideológico, o Chega defenderá as políticas que lhe permitirem ganhar votos em cada momento (como tem vindo a fazer, basta olhar para a grande mudança do seu programa económico inicial, mal Ventura se apercebeu de que o liberalismo económico é pouco popular em Portugal), sejam elas quais forem, tal como faz o PS, há anos.


É verdade que o PSD não anda muito longe disto mas, neste momento, não me interessa muito discutir a qualidade das alternativas ao PS o que me interessa é parar a degradação institucional, o que só se consegue removendo o PS do poder.


Interessam-me opções mais liberais e menos estatistas, opções mais institucionais e menos cesaristas e opções mais abertas e menos opacas, o que me teria feito votar tranquilamente na Iniciativa Liberal, não se desse o caso da sua actual direcção ter optado pela predominância da eficácia partidária do centralismo democrático contra a criatividade da liberdade individual. 


Como o Chega está mais interessado em ser o partido maioritário da direita que na qualidade das instituições, o Chega não me interessa também no curto prazo.


Resumindo, focando-me neste meu objectivo de remover o PS do poder (a frase das fraldas não será de Eça de Queiroz, mas é uma frase verdadeira quando se pretende reforçar as instituições), resta-me não votar ("são todos iguais", dizem uns, "todos fazem asneiras", dizem outros), votar AD ou Iniciativa Liberal (porque no distrito em que voto a Iniciativa Liberal elege deputados, noutros distritos, nas actuais circunstâncias, apenas me restaria votar AD ou não votar, o que inclui votos brancos e nulos).


Como a Iniciativa Liberal resolveu, no meu círculo eleitoral, privilegiar a confiança política em relação à qualidade política, usando um processo vergonhoso para o fazer, não me apetece premiar essa forma de lidar com a liberdade individual, e votarei AD, onde ao menos não tenho desilusões, já sei do que a casa gasta, acho é que, apesar de tudo, o que a casa gasta é institucionalmente mais positivo que manter o PS no poder.

19 comentários:

  1. pm costa lembra Alberto Caeiro:
    «



    "Navegar é preciso; viver não é preciso".

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  2. "...o que interessa aos dirigentes é acederem eles próprios ao poder),...". 
    Exacto, "eles próprios", arrebanhando lotes de "militantes" todos com semelhantes apetites pelo poder, aliás um traço comum na natureza humana que a literatura clássica bem desenvolveu.

    Com eleições uninominais teríamos esses líders, sempre sequiosos de poder, em confronto directo na AR, entre eles, mas ao mesmo nível: um homem um voto. Com o actual sistema um deles, e só um deles, é maioria. Caricato.

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  3. Do Chega, a gente não gosta, do que a gente gostava era dos votos dos eleitores do Chega.
    Mas cá aferradíssimos em afastar os socialistas, pois ...
     

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  4. " Para mim, o Chega não tem interesse nenhum "
    NOTA-SE !!!!!!

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  5. A confiança é uma qualidade política.

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  6. Nos meus 84 já deu para ver na m$rda que isto se tornou e para mim já... Chega

    Venha a novidade, chega de velharias, pelo menos temos um Tribuno com 'eLLes' em "El Sítio"

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  7. Henrique, 
    Partilho destas suas dores. A IL está-se a revelar uma grande desilusão. Se teve o mérito de trazer para a discussão pública a necessidade de reduzir impostos, não encontrou ainda forma de dizer à custa de que é que o pode ou irá fazer. Neste aspeto, o Chega é mais direto pois como quem nos governa é corrupto subentende-se que será possível baixar impostos ou despesa porque eles (do Chega) são mais honestos. É uma forma simplista e pouco séria de apresentar as coisas mas tem adesão. Não crítico, mas eu duvido que assim seja. Com a fusão do CDS ao PSD, que em teoria apoio, fico sem possibilidade real de votar em consciencia. A AD é claramente um mal menor. Tenho de acreditar que os escolhidos da AD serão de bom nível mas isso poderá ser irrelevante se não tiverem maioria absoluta. E isto torna o futuro ainda mais sombrio pois do outro lado estará um bloco de extrema esquerda com cerca de 35% dos votos (provavelmente terá mais). Qualquer país é inviável assim. Apesar dos meus 41 anos, família já constituida e muito bons rendimentos, sinto que estas serão as últimas eleições em que votarei para este país. É muito provável que faça as malas e saia daqui.

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  8. O Chega não me interessa para nada.
    Parece o meu vizinho, não quer saber da ex mulher para nada, mas segue-a no facebook e instagram


    A racionalização do voto é coisa bonita. 

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  9. Só fico admirado como é que pessoas minimamente inteligentes acreditam piamente na linguagem do chega.
    Não há dúvida porque é que tantas pessoas caem no conto do vigário. 
    Por aqui se vê porque é que as eleições são o que são. 

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  10. Caro Henrique,
    Concordo plenamente com a sua visão da situação do país, da urgência em mudar de governo e da descrição que faz das alternativas à direita.
    Mas deixe-me que lhe diga porque é que, também votando num distrito suficientemente grande para poder escolher entre IL e AD e concordando com a sua avaliação do mau comportamento da IL ao "afastar" a oposição interna nas listas de Lisboa, ainda assim votarei IL:
    1º Porque o sistema de segmentação dos deputados por distritos muito pequenos é injusto e leva a um desperdicio de votos enorme. Parece-me que o eleitorado da IL é especialmente sensível a esta situação e todos os seus potenciais eleitores que conheço (tanto no interior como na emigração) vão votar "útil" na AD. Isto aumenta a "responsabilidade" dos eleitores nos círculos grandes, já que são os únicos cujo voto pode ter consequências na representação na AR. Para além disso um dos grandes responsáveis e beneficiário desta situação injusta é precisamente o PSD.
    2º Porque depois de uma vida adulta a votar em males menores, em partidos com que muitas vezes não concordava nem com metade do que defendiam e que frequentemente me desapontavam quando chegavam ao poder, quero aproveitar os poucos anos que possa ter a votar em alguém com quem concordo na maioria dos assuntos. Bem sei que a IL está provavelmente a um grande erro de acabar, mas enquanto puder votar no Carlos Guimarães Pinto em vez de num boy (ou girl) do PSD acho que vou ter uma decisão fácil.

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  11. Fica?
    Conheço uns que votam, ou dizem votar. Porque têm "problemas" que as Entidades competentes não resolvem. Ao fim de anos, muitos anos, aparece um que diz que faz. Pode ser mentira, mas há que tentar. 


    Tem no razão em cair no conto do vígaro, o PS lá vai tendo muitos votos.

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  12. Nada contra, se votasse no Porto e não em Lisboa, provavelmente votava na IL.

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  13. Ouvi hoje que alguns elementos do IL estão a passar para o Chega, devido ao facto do IL estar tomado pela agenda woke-lgbt (ou pelo menos será uma das razões). Portanto, o IL está a concorrer com PSD nas questões da economia e afins, e com o bloco de esquerda nas liberalidades sociais e culturais. 

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  14. Ora aí está um voto esclarecido de um eleitor inteligente.

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  15. Comentei o "post" anterior e não me revejo em nenhuma das duas categorias por que HPS distribuiu os comentários. Continuo indeciso sobre a abstenção e o Chega mas é possível que até 10 de Março mude de ideia.
    Fiquei algo esperançado com a abertura do inquérito da PGR a Montenegro. Se isso o fizer resignar - o que eu esperava de um mau resultado nas europeias - e for rapidamente substituído por alguém que desloque as linhas vermelhas da direita para a esquerda, até votaria AD e mesmo PSD.
    Mas HPS é demasiado preconceituoso sobre o Chega. Governantes só se revelam quando exercem, mas entendo que Gabriel Mithá Ribeiro na Educação e Ventura na Justiça seriam boas apostas. Também acredito em Diogo Pacheco do Amorim, não tanto pelo que (não) fez na vida mas pelo extraordinário "background" familiar. Depois temos Rita Matias que será muito jovem mas a comparar com as actuais ministras da Agricultura, Defesa e Habitação seria certamente muito melhor. Não falo doutros do grupo parlamentar porque os desconheço mas, a olho, parecem-me superiores em média a ambos os grupos parlamentares do PS e do PSD.

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