A Montis é uma associação de conservação da natureza de que sou sócio.
Isso custa-me 25 euros por ano.
As pessoas que fundaram a Montis (em que me incluo) sabiam que a leninização das organizações é o destino natural das organizações burocráticas, isto é, aquelas em que os decisores não podem apropriar-se dos resultados económicos da sua gestão, como acontece com as administrações públicas, mas também com os partidos e muitas organizações sem fins lucrativos.
Por isso tentaram definir estatutos que defendessem a organização da natureza humana, isto é, são estatutos que impedem a eternização no poder (não se pode exercer mais de dois mandatos seguidos no mesmo orgão social), que tentam impedir a apropriação indirecta dos recursos da associação pelos seus dirigentes (há uma separação estatutária entre eleitos e funcionários, não podendo a associação ter negócio jurídico com os primeiros, salvo em condições muito estritas, transparentes e de pequena escala) e que procuram garantir que todos os sócios valem o mesmo numa assembleia geral.
Nada disto, evidentemente, impede que a associação seja usada para fins diferentes daqueles para que foi criada, apenas se dificulta que isso aconteça e, porque é uma associação de muito poucos recursos, até hoje não tem havido grandes tentativas de desvio da associação para o benefício de alguns (quando for rica e poderosa, será mais complicado, claro, daí a importância das regras, incluindo algumas que ainda não existem, por exemplo, do orçamento da associação ser proveniente das quotas dos sócios, em pelo menos um quinto).
Quer isto dizer que sou sócio porque estou sempre de acordo com tudo e me revejo totalmente nas opções das suas direcções?
De maneira nenhuma, nem quando eu era presidente da Montis me revia em todas as decisões tomadas, quer porque aqui e ali a minha opinião era minoritária, quer porque as circunstâncias me levavam a tomar ou apoiar decisões que não eram as que eu gostaria.
Por exemplo, este post que aqui está, relativamente recente, não me deixa totalmente satisfeito.
Por um lado, vejo um peso excessivo, sobretudo na comunicação da associação (mais até que na substância, como explicarei mais à frente sobre este post), das plantações em detrimento de outros instrumentos de gestão (sementeiras, fogo controlado, engenharia natural, condução da regeneração natural, etc.). Eu sei que parte resulta de acordos favoráveis para a associação com terceiros que insistem em usar os recursos que disponibilizam para a gestão do território em plantações. À associação não restam muitas alternativas, ou recusa o acordo, e não acede a recursos de gestão relevantes, ou aceita dedicar-se a mais plantações que as que acharia adequadas (por entender que com os mesmos recursos se poderiam fazer outras acções de gestão com maior potencial de conservação no longo prazo), procurando integrá-las, o melhor possível, nas suas estratégias de gestão. Aceitando o resultado final, desagrada-me, mas as coisas são o que são, e não o que eu acho que deveriam ser.
Também tenho as maiores dúvidas no uso de protectores nestas plantações com o objectivo de aumentar a taxa de sobrevivência das plantações. Mais uma vez, percebo que se queira apresentar aos parceiros taxas de sobrevivência maiores que os 5 a 10% que acho perfeitamente razoáveis, mas desagrada-me a desproporção entre o gasto no aumento dessa taxa de sobrevivência e o verdadeiro retorno em conservação da natureza (a mim interessar-ia-a muito mais investir na regeneração do solo que em maiores taxas de sobrevivência de plantações, que me parecem de interesse marginal, do ponto de vista da conservação).
Mas o próprio post fala de outras coisas que a mim me interessam muito mais, como o uso da engenharia natural para favorecer a retenção do solo e, neste caso concreto, o seu parágrafo final sobre a gestão da rebentação do eucaliptal que foi cortado.
Nesta propriedade, que a Montis comprou com recurso a crowdfunding, havia um eucaliptal sem interesse e que se decidiu reconverter noutra coisa com mais conteúdo de conservação.
Há várias maneiras de fazer essa reconversão, sendo a mais eficaz o corte seguido de aplicação de glifosato sobre a rebentação, na Primavera seguinte.
A Montis não queria usar glifosato porque a aplicação de fito-fármacos é uma operação técnica relativamente sofisticada, o que obriga a que fosse feita profissionalmente, e a Montis queria envolver qualquer pessoa nessa reconversão do eucaliptal e, ao mesmo tempo, demonstrar que qualquer pessoa, sem formação, pode reconverter um eucaliptal, sem grande dificuldade (exige tempo e persistência, sim, mas não envolve grandes custos nem capacidade técnica).
Por isso a opção foi fazer um corte e depois testar a hipótese de partir a rebentação das varolas.
Em princípio, este método seria simples (o corte é feito de forma profissional, bem entendido, partir as varolas na base, no sítio em que sai da toiça é que é fácil e eficiente), teria a vantagem de aumentar a mobilização de nutrientes em profundidade pelas raízes para os integrar na camada superficial do solo, com a deposição das varolas partidas, ao mesmo tempo que se exauriam as reservas da raiz, levando à sua morte e à criação de pontos bastante favoráveis de enraizamento de outras plantas.
Ora o que o post faz é descrever a primeira experiência nesse sentido e diz que foi fácil e eficaz (esqueçamos a insistência em falar de arranque, como se o que estivesse em causa fosse germinação por semente, em vez de se falar em retirada, ou em partir as varolas, ou a rebentação de toiça, que é o que está em causa).
E isso, meus caros, já paga os meus 25 euros por ano, fora tudo o resto que a Montis tem vindo a fazer, sem dar grandes saltos como as rãs, mas andando no passo lento, firme e pesado dos elefantes (a imagem é de Chicco Testa no "Elogio della crescita felice", e é uma boa imagem, mais bem usada por ele no livro a propósito da descarbonificação, mesmo sabendo eu que os elefantes também correm a velocidades bastante razoáveis, apesar do peso e do tamanho).
E era disto que eu queria falar, de uma organização que procura defender-se da natureza humana, que procura assentar o que faz em pessoas concretas e que lhes pede, em troca, 25 euros por ano para gerir terrenos com objectivos de conservação da natureza.
Eu acho muito em conta e com uma relação qualidade/ preço e investimento/ retorno, muito acima da média das organizações com que me relaciono.
pode no tronco do eucalipto recém cortado colocar
ResponderEliminarTenho pena que pessoas válidas, que percebem da "poda", não sejam aproveitadas para o bem comum, bem sei que trabalha no ICNF, mas os Boys não deixam ninguém fazer o que tem que ser feito.
ResponderEliminarUm bem haja.
Para mim não há nada como glifosato para as ervas daninhas, passados 15 dias estão todas secas. Não sei se há alguma proibição das Juntas de Freguesia o usarem pois na minha terra os passeios são daquelas lajetas de cimento em forma de S e estão sempre cheios de ervas daninhas nas juntas. Uma ou 2 vezes por ano a Junta lá limpa os passeios com as roçadoras mas passadas 2 semanas já estão as ervas a crescer outra vez...
ResponderEliminargosto mesmo muito do João Zilhão. a minha costela nearthendal tem muito peso em mim
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