sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Chega de disparates

Em 1893, num período de grande agitação política subsequente ao Ultimato, à revolta republicana no Porto em plena ascensão do republicanismo em Lisboa, o meu bisavô homónimo João de Lancastre e Távora envolvia-se publicamente numa polémica, através duma carta publicada no jornal “Novidades”, com o presidente do partido Legitimista de que era destacado membro, o Conde de Redinha. Acontece que este tinha publicado dias antes um artigo de fundo no jornal “A Nação” em que defendia existirem “afinidades espirituais” entre “Tradicionalistas” e “Republicanos”, uma “solidariedade moral que a ambos estes partidos assiste para demolirem o sistema que nos rege”. Nesse artigo, entre outras opiniões o conde justificava o 31 de Janeiro como “uma reacção natural contra a decadência que nos atrofia a alma dos portugueses”. Retorquia-lhe o meu bisavô: “Por mim, meu caro conde, além da dedicação inabalável pela pessoa do Senhor Dom Miguel, que na minha família é tradicional, a principal razão que eu encontro de ser legitimista é precisamente por achar nos ideais políticos deste partido a forma mais oposta à republicana, e também por me parecer que os meios de alcançar os fins dum e de outro partido devem ser absolutamente diferentes. Sendo este o meu modo de pensar, resolvo provocar de V. Exa. uma aprovação ou reprovação pública d’estes princípios para justificação do meu procedimento ulterior.” Parecia que se tinha atingido o fundo mais lodoso da baixa política


Escrito isto, não surpreende, portanto, encontrar 17 anos mais tarde o meu bisavô tradicionalista, perante a república implantada na sequência do regicídio, defender as tréguas entre as duas linhagens desavindas: “solução única era refazermos o que a revolução tinha desfeito e repormos tudo como estava, mesmo porque se me afigurava tão mais fácil restaurar um regime caído havia meses do que irmos reatar uma tradição de havia quase um século”. A luta pelas boas causas, a política na sua mais nobre acepção, requer abnegados interpretes com inteligência e sofisticação. Antes perder uma boa causa que a honradez.  


Natal do Chega.jpg


Vem isto a propósito duma pavorosa imagem alusiva ao Natal com que me cruzei há dias no Facebook dum militante do Chega, que hesitei aqui mostrar, não pela reactividade que irei causar a gente que me é próxima e que sofreu uma vida inteira de humilhação praticada pelos progressistas donos disto tudo, mas pelo profundo mau gosto que ela representa. Esta imagem, suponho que desenvolvida por algum programa de Inteligência Artificial, resulta numa bela metáfora do que é o partido de André Ventura, produto elaborado por um oportunista que teve a genial ideia de trazer para a direita os mesmos métodos que nos habituámos a tolerar nos partidos da extrema esquerda – o aproveitamento dos sentimentos mais básicos da populaça ou simplesmente de gente revoltada com as (muitas) agruras da vida, sem limites de demagogia ou escrúpulos; o aproveitamento “duma reacção natural contra a decadência que nos atrofia a alma dos portugueses”. Não precisamos de atender ao mais gritante no despautério da imagem, a mistura da celebração do nascimento de Cristo com o nacionalismo primário (uma contradição insanável) ou no protagonismo dado à bandeira que foi estabelecida e empunhada pelos mais ferozes anticlericais de 1910 na sua luta encarniçada contra a Igreja Católica. A labreguice da santimónia acentua-se com as cores e a falta de nexo nas figuras presentes: um Jesus Cristo adulto a adorar-se a si próprio em bebé, e uma estranha figura, um pastor com patas de ovelha. Atrás, encavalitam-se figuras angelicais e terrenas de olhos em alvo dirigido ao tecto. Esta estética não surge apenas por causa duma estratégia de comunicação fundada no escândalo, é porque as três cabeças pensadoras que decidem a acção do partido não controlam nada, criaram um monstro macrocéfalo.


Muitos países europeus, bastante mais desenvolvidos que nós, debatem-se nos dias de hoje com o aparecimento de novos partidos que vêm baralhar o sistema fragilizado, e que são fruto de democracias doentes, comunidades deslaçadas. Em Portugal, incapaz de atrair as verdadeiras elites para as causas públicas, com coragem e autoridade para reformar o país, vemos crescer este fenómeno de vulgaridade que é o Chega. A Pátria não se salva com murros na mesa nem tiros na nuca, desenvolve-se com diálogo e consensos que é o que caracteriza uma nação evoluída e próspera.

12 comentários:

  1. Todas as imagens geradas por computador, não sei que têm, há qualquer coisa nelas que lhe dá sempre um aspecto tenebroso. Isto além de incongruências grosseiras, como caras desfiguradas ou, no caso, a cabeça de ovelha a fundir-se com uma personagem humana.
    Este mundo novo torna-se cada vez mais pavoroso!

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  2. «...que é o partido de André Ventura...»



    O Partido Chega (CH) é uma fraude, uma força política liberal/maçónica criada em desespero para confundir os Portugueses e manter o ilegítimo, criminoso, corrupto, e anti-democrático, regime liberal/maçónico imposto pelo golpe de Estado da OTAN em 25 de Abril de 1974 e o seu sistema político-constitucional ainda em vigor.


    São os herdeiros (assim como são PS, CDS, BE, L, PAN, IL, PCP, e a facção liberal/maçónica do PSD representada por Pedro Coelho e seu bando) dos traidores à Pátria, medíocres, e escroques, que executaram o golpe de Estado de 1820 ao serviço dos Ingleses que impôs em Portugal - contra a vontade do Povo Português - uma tirania liberal/maçónica de décadas que destruiu o País, o Estado, a economia, as suas Instituições, as liberdades civis e individuais, promoveu o sub-desenvolvimento, perseguiu o Cristianismo e a Igreja, e quase extinguiu a Identidade, Tradições, e Costumes, da Nação e dos Portugueses.
     

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  3. "100 mil euros. PGR abre inquérito a benefícios fiscais atribuídos à casa de Luís Montenegro"


    Palavras para quê? É um artista português que tem a mania que é mais sério que os outros.

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  4. Continuo deliciado com o tempo dedicado ao Chega. Não param de falar nele.
    Nada mais interessa: 8 anos de descalabro socialista, uns sociais democratas sem ideias nem talento,  que fingem ser oposição, uns liberais refens de uma agenda woke que os confunde com a metastase chamada BE, um líder socialista que torrou 3.6 mil milhões de euros a brincar aos aviões e que promete continuar, um SNS de rastos cortesia do socialismo e das viúvas de Lenine...nada. Só existe o Chega, qual papão, Belzebu de "oportunistas" "Charlatães" e demais adjectivos. Só se "esquecem" que os alegados oportunistas existem por falência dos mesmíssimos que eles apoiam e não sabem(ou não querem) responder aos anseios da sociedade.
    Por mim votarei no Chega. Não por convicção, mas por ser o mal menor. Farto dos mesmos que prometem sempre o mesmo e que nos trouxeram até aqui: ultrapassados pelas Roménias da vida. O Chega é oportunista? Talvez. Tem o meu benefício da dúvida. Se o fôr, nas próximas eleições votarei noutra proposta. Simples. Chama-se democracia e não as linhas vermelhas que o socialismo traça por manha e conveniência e esta direita dos salões de festas fofinha e bem comportada adopta infantilmente. Para mim o que interessa é enxotar este socialismo que só arrasou o país. Nem que tenha de fazer pactos com o diabo. O resto é conversa fofinha como esta para boi dormir. Com o devido respeito.

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  5. O seu comentário demonstra que não conhece e não segue este blog. Acontece que quase quase diariamente aqui se escreve sobre a triste sina do nosso socialismo e dos seus protagonistas. Pela minha parte, tenho a certeza que foi a primeira vez que fiz referência ao Chega em mais de um ano. 
    A propósito, leu o que eu escrevi? 

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  6. https://en.wikipedia.org/wiki/Uncanny_valley



    O vale monstruoso do quase-humano que fica entre o manequim óbviamente artificial e o ser completamente natural.

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  7. Não fiquei particularmente chocado. Uma das razões de ser monárquico - e talvez não a menor - é porque é mais bonito. Serei por isso sensível à beleza e sinto-lhe a falta há quase cinquenta anos. Desde a cara do general Costa Gomes às dos actuais membros da A.R., tudo me preparou para coexistir com a fealdade.
    Repito, não fiquei particularmente chocado. Certamente não pela falta da vaca e pelo protagonismo da ovelha e da cabra. E também não pela bandeira, que é um ícone de mau gosto com que convivo desde que nasci. E encarando pela positiva, será mais confortável para o Menino Jesus, estar deitado sobre um trapo (Pessoa "dixit") do que sobre umas ásperas palhas.

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  8. A interpretação do texto parece indicar uma leitura nacional. De que jornais, tv, e quiçá algumas redes, estão focadas no Chega, e se esquecem do resto. Foi assim que li,  mas realmente posso ter sido o único, e estar equivocado (até porque letrado sou pouco).
     Não levai tão a peito.

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  9. Os sinais de desespero chegam cedo, quando até isto serve para bater no Chega. 
    O autor não parece entender que um texto fundamentado contra o Chega vale muito mais que partir de um pretexto da imagem que um militante criou e que poderia ter sido criado em qualquer partido excepto o PPM ou outro monárquico.


    É bizarro que alguém pense que esta imagem vem do Chega...

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  10. O autor é peculiar, não fiquem chocado com a reacção, fiquei com a extrapolação.
     O que mostra  toda esta  guerra da direita de classe contra o Chega é a ausência de ideias dessa direita. 

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  11. Essa da "direita de classe" cheira a conversa dos anos vinte do século passado sobre os regimes caducos e a revolução nacional em movimento.


    Não terem ideias não é bem assim: é porque rejeitam certas ideias. Apenas alguns exemplos históricos: o Papa Pio XI com a Action française e Otto de Habsburgo com o nazismo. A resposta deles foi simples: vade retro Satanás.


    Quanto ao garfo de peixe coisa fina, em Inglaterra até dá mau aspecto. Se receber algum bife em casa é melhor guardá-los na gaveta, não vá o visitante perguntar-se onde foi parar.

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