"Ter centros de investigação com 70/80% de precários (como é normal até nos centros de maior excelência que teoricamente teriam as melhores condições financeiras, como o centro onde trabalho) é problemático pela própria ciência: como fazer escolhas estratégicas de longo prazo se não podemos saber que recursos humanos teremos daqui a poucos anos?", Simone Tulumello, neste artigo do Observador.
A pergunta é muito interessante.
Para o autor parece ser apenas retórica, dado ser evidente que só se podem fazer escolhas estratégicas depois de saber com que recursos se conta, mas para mim é interessante exactamente porque o autor dá como óbvio o que para mim não é nada óbvio (demonstrando, mais uma vez, que o óbvio é uma coisa muito subjectiva).
Imaginemos que não estamos a falar de ciência, mas de sabonetes: como pode uma empresa de sabonetes fazer escolhas estratégicas se não sabe qual o valor de vendas que vai ter daqui a poucos anos?
Posta a pergunta assim, parece-me evidente para mim (repito-me, o óbvio é uma coisa muito subjectiva) que a principal escolha estratégica a fazer é concentrar-se nas vendas, visto ser a partir daí que se conseguem obter os recursos para tudo o resto.
Ora, aparentemente, considera-se que a produção científica é substancialmente diferente da produção de sabonetes, em primeiro lugar porque o seu financiamento não depende das vendas, mas do financiamento público (para mim é evidente, ver acima a nota sobre o óbvio, que continuam a ser vendas, a diferença é apenas o facto de serem vendas a clientes especiais cujas decisões não decorrem do benefício directo para os decisores, em teoria, no caso do sistema científico fortemente endogâmico e assente no escrutínio cruzado entre pares, na prática a teoria pode ser outra).
Para quem, como eu, admite que produção é produção, seja do for (nisso sou um bocado marxista), a resposta à pergunta formulada no princípio deste texto parece-me evidente: as escolhas estratégicas devem concentrar-se no que permite garantir os recursos que fazem falta, sabendo que o financiamento público é como a decisão de compra de um sabonete: varia com milhares de factores que actuam sobre milhares de pessoas.
O que não faz sentido, para mim (ver nota sobre o óbvio acima) é pretender que primeiro se definem os recursos existentes no longo prazo, e depois se fazem escolhas estratégicas compatíveis com esses recursos.
Todo esse raciocínio assente no pressuposto de que o objectivo da empresa é produzir sabonetes, e não dar emprego a pessoas licenciadas e doutoradas (ou doutorandas) em produção de sabonetes.
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ResponderEliminarAquilo a que a investigadora se estava a referir era a recursos humanos, não a vendas.
O problema análogo seria qualquer coisa como "como pode uma empresa de sabonetes decidir se se poderá vir a dedicar à produção de lâminas de barbear se não sabe se conseguirá contratar engenheiros especializados nesse setor?"
É um problema nada fácil, e não somente no setor da investigação científica - atualmente Portugal sofre de uma brutal escassez de mão-de-obra (minimamente especializada) em praticamente todos os setores.
ResponderEliminarHenrique Pereira dos Santos,
... que o óbvio é uma coisa muito subjectiva...
Um sentir seu que está na senda da Verdade. Haverá tantos óbvios como os que se colam a pessoas inteligentes ou estúpidas.
Abraço
ResponderEliminar"como fazer escolhas estratégicas de longo prazo se não podemos saber que recursos humanos teremos daqui a poucos anos?"
A questão devia ser exactamente a oposta. Como escolher recursos humanos se não sabemos quais as escolhas daqui a poucos anos.
com socialismo acaba-se a independência
ResponderEliminarSim, sim, o que os investigadores instalados conseguem fazer aproveitável, interessa pouco; o que interessa é que o pilim não falte, mesmo que o investigador faça pouco mais do que escrever em blogues.
ResponderEliminar"brutal escassez de mão-de-obra [...] em todos os setores"
ResponderEliminarÓbvio.
Como os setores, principalmente, os do ensino público passam o tempo em greves e em manifestações, esses setores não estão a trabalhar.
Os setores do meu tempo trabalhavam, acompanhavam os alunos e isso era recompensado com boas notas para os alunos que se esforçavam.
Enfim, há setores e há os tarefeiros do ensino.
ResponderEliminar"como fazer escolhas estratégicas de longo prazo se não podemos saber que recursos humanos teremos daqui a poucos anos?"
e, sobretudo não sabendo de que recursos tecnológicos disporão dentro de uns anos com a IA, que vai tornar redundantes os cientistas de mediana inteligência. aconselho vivamente que continuem com precários...
ResponderEliminarCaro Pedro Oliveira
Excelente resposta dada ao balio!
Aqui para nós, não percebo porque razão o tipo escreve «balio». Devia ser coerente e escrever «baliu». A não ser que ele diga «balió»...
Boas pedaladas.
ResponderEliminar"uma brutal escassez de mão-de-obra (minimamente especializada) em praticamente todos os setores."
Havendo possibilidade de imigração de gente qualificada, e após décadas a formar a geração mais qualificada de sempre, quais as razões?
ResponderEliminarNão há muita possibilidade de imigração de gente minimamente qualificada.
É preciso obter canalizadores especializados, mecânicos de automóveis, eletricistas, assentadores de ladrilhos, operários têxteis, empregados de mesa, e 1001 outras variedades de trabalhadores qualificados no mercado internacional. Para a maior parte dessas especializações, é difícil encontrar esses trabalhadores no estrangeiro.
E depois, muito mais difícil ainda é trazê-los para Portugal, dado o estado de entupimento generalizado dos serviços de estrangeiros e fronteiras.