sábado, 6 de maio de 2023

A Coroação do Rei Carlos e o Síndrome de Estocolmo português

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A Coroação de Carlos III que ocorre hoje coincide com o 115.º aniversário da aclamação de D. Manuel II, último rei de Portugal até à data. Foi exactamente neste dia, em 1908, três meses depois do miserável assassinato do Rei Dom Carlos e do Príncipe Real Dom Luís Filipe no Terreiro do Paço, que o jovem rei se dirigiu ao palácio de São Bento para a cerimónia pública que simbolizava a comunhão entre o soberano e o seu povo, que o reconhecia como o primeiro entre iguais. Ao contrário do que acontece noutras monarquias, em Portugal, por tradição iniciada com Dom João IV, os reis deixaram de ser coroados, entregue que foi a coroa do reino de Portugal a Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa em agradecimento pela Restauração da Independência.


A solenidade da aclamação de 6 de Maio de 1908, profusamente fotografada e reportada pela imprensa da época, decorreu no hemiciclo de São Bento, perante os Deputados e Pares do Reino e do executivo liderado pelo Presidente do Conselho de Ministros Francisco Ferreira do Amaral. Dom Manuel jurou observar e fazer observar a constituição política da Nação portuguesa, promessa que cumpriu até à sua morte precoce, já no exílio em Twickenham. Teve um reinado trágico, shakespeariano.


Passados exactamente 115 anos sobre a aclamação do Patriota Desventuroso, hoje é dia de festa no Reino Unido. A coroação de Carlos III, numa cerimónia que extravasa as fronteiras dos seus Reinos e da própria Commonwealth, é um evento de âmbito global ecoará pelo mundo, em directo da Abadia de Westminster, numa Londres engalanada e disposta a viver uma gigantesca comemoração popular. É este o poder de atracção da monarquia britânica, cujo sentido de equilíbrio de um povo tão pragmático quanto zeloso da sua especificidade dignificou, fez permanecer e tornar um elemento harmónico e indispensável ao seu sistema democrático. Este vem resistindo aos mais turbulentos ventos do auto-proclamado progressismo e tem na Coroa um garante da coerência, do equilíbrio e do prestígio das instituições, simultaneamente vetustas e actualizadas, que compõem e asseguram a continuidade de uma das mais antigas democracias parlamentares do planeta. Esta democracia plural é profundamente participada, pujante e ruidosa, alicerçada numa sociedade civil dinâmica, exigente e até contestatária na defesa dos muitos interesses conflituantes, espelhados numa imprensa livre, independente e interpeladora, quantas vezes sensacionalista.


A cerimónia da Coroação, que irá mobilizar e animar o país durante três dias, contará com mais de 2 mil convidados. Entre eles, estarão chefes de Estado de vários países, políticos e representantes de outras monarquias e casas reais europeias, e contará com militares, funcionários públicos, líderes comunitários, filantropos, numerosos artistas e personalidades. O poeta e músico australiano Nick Cave participará na celebração. Segundo o próprio, a sua presença corresponde a um "apego inexplicável" à família real britânica. Este é o mistério das monarquias. Todo o planeta será testemunha deste acontecimento raro e precioso e que viverá na memória de quem o acompanhar.


Enquanto isso, em Portugal vive-se um clima de histeria insalubre que já transborda da bolha mediática para a rua e para as conversas de café: não há cigarros nem pipocas suficientes para acompanhar a deplorável telenovela que cola quase todos às televisões. O Chefe de Estado e o Governo nomeado há pouco mais de um ano encontram-se em conflito aberto, como já aconteceu, tristemente, tantas vezes nas últimas décadas. Bizarra república, a nossa, em que duas das principais instituições do Estado foram arquitectadas para se contraporem e digladiarem em guerrilha política, para regalo circense da turba. Não será essa uma das causas do nosso atraso socioeconómico, pobreza e desleixo?


Num país civilizado, a Câmara dos Deputados (dos Comuns, no Reino Unido) seria o espaço destinado ao confronto e ao conflito democrático, que é natural e desejável entre facções, podendo contar com a mediação duma Câmara Alta. Ah, e nesse país os tribunais funcionariam. Numa democracia avançada, com uma maioria parlamentar eleita há pouco mais de um ano, mesmo perante uma crise grave, o Governo ver-se-ia obrigado a corrigir os seus erros, e, estimulado pelos deputados que constituíssem o seu sustentáculo parlamentar, representantes verdadeiros dos seus eleitores, teria de regenerar-se e de trabalhar – veja-se o caso paradigmático do governo e da maioria conservadoras no Reino Unido: a sequência dos escândalos de Boris Johnson foi seguida da crise com a efémera Liz Truss, até à estabilização com Rishi Sunak.


O maior problema de Portugal é a fragilidade das suas instituições num sistema político de raiz revolucionária, estagnado, afunilado e absolutamente incapaz de se regenerar. Os portugueses, capturados pelo “progressismo” que assassinou os seus reis, destruiu as suas tradições e truncou o ensino da sua História, foram, há gerações, acometidos pelo conhecido Síndrome de Estocolmo (estado psicológico particular em que uma vítima de rapto, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade pelo seu agressor) e parecem acomodados à mediocridade a que esta apagada e triste República os acorrentou.


Eu não me conformo.


Artigo publicado originalmente no Observador

11 comentários:

  1. O problema é a memória curta, o escritor do artigo, provavelmente esqueçeu todos os escândalos que têm assolado as principais monarquias, a britânica e a espanhola.
    O custo da brincadeira de hoje, a módica quantia de 70 milhões de Euros, pagos às custas dos contribuintes, mais isso é lá com eles, agora os portugueses que nem sabem dizer o nome do último monarca português exaltarem-se com os dos outros, é muito mau.

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  2. Não deve ter lido bem o meu texto. A parte que lhe é especialmente dirigida são os últimos parágrafos 

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  3. Não é uma crítica ao seu texto, muito pelo contrário.

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  4. Estou de acordo com a última parte deste seu post, em especial com o seguinte " 

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  5. vi-o ontem na tv
    neste momento e neste país merdoso só existe 'cara (de cu) ou coroa'

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  6. João Távora,
    o senhor não prima pela clareza do que escreve. Acerca disto já lho escrevi.

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  7. A decadência lusa não está ligado à República ou à Monarquia,  quero crer que entre elites incompetentes e/ou mal intencionadas e um povo descrente e/ou conformado, não será o modelo governativo que faz a diferença. 
    Deve ser fruto da idade, mas não vejo conserto. Já concertos não faltam, dar música é o qud está a dar.

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  8. Noticiou-se ontem que os primeiros-ministros da Jamaica e das Honduras Britânicas (a.k.a. Belize) pretendem transformar os seus países em repúblicas. Carlos 3º vai ficar um pouco menos soberano.

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  9. Que pena. O João de Espanha (cognome “O fugitivo”) e o da Tailândia (também “O fugitivo” durante a pandemia) far-lhe-iam tão boa companhia!

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  10. Muito bom texto. Já com a vantagem de ter assistido, na genuína Skynews, a toda a cerimónia de entronização, concordo.

    Nos Países com elevada densidade de população, tal como o RU e o Japão, as regras de convivência, uma clara hierarquia social, são valores inestimáveis. Estes rituais frizam, inclusivé ao soberano!, qual o lugar de cada um, as respectivas competências e limitações na hierarquia social, o como contribuir para a causa comum, o nosso País.

    A alternativa, sabemos, é um fulano e umas fulanas à chapada num Ministério. Tudo com ministros a condizer. Será a transborndante, artificial, pseudo-informalidade do PR um exemplo, um bem para a Nação?. Duvido.

    Entretanto faço minhas as palavras de Joanna Lumley (tradução livre): "Quando cheguei à Abadia tudo parecia uma festa informal, tipo olá, estás bem, senta-te aqui...". Joanna L. continua: "de repente fez-se um silêncio solene...e durante todo aquele cerimonial....".

    Milhares de cidadãos, mais de 50 milhões, na Abadia e pelo País, !!!ouvindo!!! o que se afirma na cerimónia, os compromissos que se assumem, assumem-se e colaboraram com o que é uma sua sociedade civilmente organizada.
    De uma lado beijinhos e selfies nesta pseudo-democracia. Do outro a real pompa e circunstância. É só escolher.

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  11. Uma dica, pesquise os gastos da presidência da República portuguesa e compare com a casa real espanhola, por exemplo, e terá uma surpresa. Os últimos dados que vi davam conta de que a casa real de "nuestros hermanos" tinha custos de cerca de metade da nossa presidência. Ora se colocar nessa equação 4,5 vezes mais população, então o custo da casa real para um contribuinte espanhol é 9 vezes menor do que aquilo que a presidência portuguesa custa a um contribuinte luso. É completamente falso dizer que uma monarquia custa mais caro do que uma república e note bem que aqui nem sequer estão incluídas as reformas e outras benesses de que gozam todos os ex-presidentes... Para mim tanto me faz que tenhamos um presidente ou um rei desde que sejamos bem liderados, agora também não é justo plantar e propagar lengalengas falsas sobre uma ou sobre a outra tipologia.

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