sexta-feira, 14 de abril de 2023

Profissionais do racismo

Ante escrito: de maneira geral, quando sou eu que aprovo os comentários aos meus posts, são raros os que censuro e deito para o lixo, sendo o mais frequente uns comentários completamente estúpidos que ultrapassam qualquer nível aceitável de ordinarice. Neste post em concreto tenho deitado para o lixo bastantes mais comentários, por uma razão simples: comentários racistas ou próximo disso que tenham algum argumento e um nível aceitável de civilidade, vou deixando passar, comentários simplesmente racistas vão direitos para o lixo.


Cristina Roldão e João Pedro Marques estão a meio de uma conversa curiosa.


Cristina Roldão é uma europeia mulata, professora numa escola superior de educação, participando por convite em grupos nomeados pelo governo para a definição ou execução de políticas públicas, isto é, é um membro qualificado das elites e das classes dominantes em Portugal.


O mesmo se poderá dizer de João Pedro Marques, salvo não ser uma mulher e ser branco, é também um europeu, membro qualificado das elites e classes dominantes em Portugal.


Os dois escrevem sobre escravidão, mas de perspectivas muito diferentes: João Pedro Marques escreve do ponto de vista de um historiador, Cristina Roldão do ponto de vista do combate político.


João Pedro Marques, por exemplo aqui, contesta as imprecisões históricas de que Cristina Roldão se serve para defender o seu ponto de vista, que ela pretende que seja um ponto de vista africano apesar de ser menos africana que eu, nascido e criado em África até aos meus catorze anos, ao contrário de Cristina Roldão, nascida e criada na Europa.


É certo que a cultura familiar de Cristina Roldão será mais africana que a minha cultura familiar, mas o tempo em que as pessoas se definiam por serem filhas de algo é um tempo morto.


O artigo de Cristina Roldão no Público de ontem, 13 de Abril, parece-me ser, sem nunca o mencionar, uma resposta ao artigo de João Pedro Marques para que liguei acima (e o desta semana sobre Guterres) e é, sem margem para dúvidas, uma resposta ao que João Pedro Marques tem vindo a escrever sobre escravidão, tanto que se chama "A escravatura transatlântica e o (anti)racismo".


É um artigo sem grande rigor: escrever que "a forma de exploração predominante é o sistema da plantação, em que a força de trabalho é explorada numa lógica de "protoindustrialização" que daria origem ao capitalismo" já não é sequer ignorância sobre o que representou economicamente a escravatura decorrente do tráfico transatlântico, é mesmo do domínio do delírio ideológico.


O mais interessante do artigo é a recusa de Cristina Roldão nomear os interlocutores a que está de facto a tentar responder e a sua cândida assunção de que embora reconheça a validade de alguns dos argumentos dos que a contestam, isso não tem a menor importância face ao valor simbólico de usar personagens esclavagistas, como a rainha Njinga, como símbolos da luta contra a escravidão e, consequentemente, como símbolos anti-racistas: "não é raro na historiografia que se utilize uma "grande figura" para a partir dela explicar um contexto histórico".


E é interessante por tornar evidente a perspectiva utilitária dos argumentos usados por estes profissionais do racismo, em que a substância da realidade deve ceder ao valor político simbólico que se pode obter.


O lugar da fala de Cristina Roldão é o das classes dominantes instaladas, não é o lugar da fala da Isabel que trabalha umas horas cá em casa, essa sim, filha de pescadores de Cabo Verde, vinda há anos para Portugal com os filhos pequenos (as três mais velhas entretanto emigradas para França, o mais novo ainda a estudar em Portugal), a lutar para nos entendermos num português que não é a sua língua de casa.


A única coisa que permite a Cristina Roldão arvorar-se como representante "da história dos "debaixo"" é o seu tom de pele - na verdade bem mais próximo do meu do que do da Isabel que ela pretende representar - como se o teor de melanina na pele lhe definisse o lugar da fala.


Basta pensar na hipótese dos franceses filhos de pais portugueses passarem o tempo a invocar a nacionalidade dos seus pais, em França, para exigir reparações sob a forma de quotas ou conteúdos dos programas escolares, por causa das invasões francesas, para perceber a dificuldade que teria Cristina Roldão em continuar a sua luta política, ignorando a pele em que habita.


O que explica bem como é imprescindível, para os mais vocais e institucionais anti-racistas do país, garantir que se mantém vivo o conceito de raça relacionado com o tom de pele, conceito esse que para o qual uma história conveniente da escravidão é muito útil, já que lhe faltam bases científica mínimas.


Essa história conveniente é, na verdade, uma reedição das fábulas de La Fontaine, em que a moral da história é muito mais importante que o rigor dos factos com que se conta a história.

29 comentários:


  1. fabricantes de racismo:
    ao ter conhecimento de Cabo-verdiana que veio para  o Estoril tomar conta do 'menino João' (Juan Carlos) e de ela dizer que a Senhora Condessa quando vinha a Lisboa ia sempre visitá-lalembrei-me

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  2. apesar de ser menos africana que eu, nascido e criado em África até aos meus catorze anos


    Isto é basicamente a questão do "jus sanguinis" ou do "jus solis" na atribuição da nacionalidade.


    Na Europa costuma-se atribuir maior importância ao "jus sanguinis" do que ao "jus solis". Na América é o oposto. Na ótica europeia, o Henrique é europeu apesar de ter nascido em África, e a Cristina é africana apesar de ter vivido a vida toda na Europa.


    Enfim, são pontos de vista.

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  3. a moral da história é muito mais importante que o rigor dos factos com que se conta a história


    Mas é sempre assim que se tece a história das nações. Cria-se personagens como D. Afonso Henriques, o Santo Condestável ou o Infante D. Henrique e com eles se tece uma "moral da história [que] é muito mais importante que o rigor dos factos com que se conta a história".

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  4. O teor de melanina na pele, Henrique Pereira dos Santos, definiu quem era português na altura da descolonização. O maior manifestação de racismo e segregação racial pela cor da pele. Quem era branco, era português e regressava. Quem era preto ficava sem direito de escolha da nacionalidade portuguesa com a qual muitos africanos definiam a sua identidade. Sentiam-se portugueses e queriam vir para Portugal na mesma leva quase imposta aos outros portugueses (brancos). A cor da pele _ e só a cor da pele_  impediu-o.

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  5. Que disparate de comentário: Cristina Roldão é europeia, seja qual for o critério, nunca viveu em África, não nasceu em África, não tem qualquer ligação com África.

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  6. Essa dos qualificados e da elite tuga é mesmo para rir.
    A maior parte dos Europeus riem-se de nós.
    Esses "pensantes" se têm saudades da escravatura podem muito bem partir para África e trabalhar lá numa mina por exemplo para ver o que é bom para a tosse.

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  7. Não conheço Cristina Roldão nem faço ideia de quem seja, mas suponho que ela seja filha ou neta de africanos e que seja com base nisso que se afirma como africana.
    Mas talvez eu esteja errado e ela não seja filha e nem sequer neta de africanos.

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  8. Excelente comentário.
    O facto é que o Henrique Pereira dos Santos viveu em África até aos 14 anos mas, se hoje é português e está vivo, em vez de ser africano e/ou estar morto, isso se deve provavelmente (não sei a história da vida do Henrique, estou a presumir) a um ato de racismo: separou-se os africanos em dois grupos, e trouxe-se para Portugal aqueles africanos que eram filhos de naturais de Portugal continental.
    (Ato de racismo esse que, diga-se, se deveu em boa parte a motivações políticas: os EUA, que foram quem pagou os aviões e navios que trouxeram para Portugal os refugiados, estimavam que esses refugiados seriam mais "de direita" do que os portugueses, e esperavam com a sua presença "apagar" a revolução que se estava a desenvolver em Portugal.)

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  9. Exactamente: o processo de "descolonização" foi um processo fundamentalmente racista, em que nuns casos entregaram o poder a movimentos cuja base e liderança pertencia a etnias ou povos que ali tinham chegado depois de outros africanos e, até, brancos; noutros casos, territórios que à época da descoberta pelos brancos eram desabitados foram entregues a africanos. Isto é, o critério foi entregar África aos pretos apenas porque consideraram que um ovimbundo, um ambundo ou congo, por exemplo, é tudo igual, ou um papel, balanta ou fula é a mesma coisa - e daí também a razão para guerras civis de dezenas de anos e rivalidades insanáveis.

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  10. São modos de vida,bem ou boaventurados,importados de onde há problemas mal resolvidos. A Europa aboliu há muito a escravatura,assumiu-o então abertamente tanto no plano jurídico como no pensamento e costumes.Por cá houve debates abertos sobre isso.
    Para ressuscitar o debate armou-se uma "armação" teórica cada vez mais arrevesada e esotérica em que só penetram os convertidos.

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  11. os marroquinos também são Africanos.

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  12. converteu-se ao Catolicismo


    ler « 

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  13. Balio, não se fique por meias palavras. A senhora é africana, na sua óptica, porque descende de negros, pois é isso que entende como "africanos".

    Um caucasiano que tenha nascido em África e tenha ascendentes nascidos no Continente até à 10ª geração nunca será para si um "africano".

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  14. Aprecio o activismo "africano", como se África fosse um território homogéneo, e não ele próprio um caldeirão de racismo entre as diferentes etnias.
    A neo-história do racismo é uma exportação gringa, porque para eles a História do Mundo iniciou-se lá por 1500.

    Depois temos o sentimento de culpa do Homem branco, claro que podemos esquecer que 99% (um exagero enquanto figura de estilo) da população europeia nunca sequer viu o mar, quanto mais se meteu num barco para ir traficar escravos. Sendo que esses bons caucasianos eram quasi-escravos, pois dependiam da boa vontade da nobreza e derivados.

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  15. Vamos ser sérios, ninguém na Europa pode acusar Portugal de ser racista. 
    Que outro país no nosso continente tem um 1º ministro preto.

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  16. Ninguém gosta ser de segunda classe. Mesmo para os asiáticos preto é preto. Não é africano, como os egípcios. O cerne da dúvida é quem é preto por dentro. Conheci muitos pretos por fora e brancos por dentro. Ainda há demasiados pretos por dentro. O resto é conversa para adormecer boi.


    Cumps
    ao

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  17. Africano é alguma nacionalidade que se atribua?
    Ou é uma característica que se mantenha através das gerações, mesmo que vivam em Pequim?

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  18. Acrescento, ainda, que os  pretos (porque de facto o eram antes da descolonização) a quem lhes foi foi bloqueada a possibilidade de escolha!!! Automaticamente deixavam de ser  portugueses unicamente pelo teor de melanina e por isso foram obrigados a ficar para trás. 
    O Balio deve conhecer também o destino trágico que tiveram os nossos muitos soldados de cor, que combatiam por Portugal, patriotas de 1ªágua. Vale a pena sublinhar que se sentiram totalmente abandonados e traídos pelo Portugal do pós 25 de Abril. Os sobreviventes ainda hoje clamam pelo direito à sua nacionalidade portuguesa.
    A nossa descolonização, repito, foi vergonhosa em muitos sentidos. 

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  19. Quem está mal, muda-se. Há idiotas de todas as cores. Quem ri por fim, ri melhor.

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  20. https://www.youtube.com/watch?v=46vcDMIX3iY



    (Para ouvir com tenção)

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  21. Agora que se aproximam as comemorações dos 50 anos da Democracia, há uma pergunta da História recente que se impunha fazerO que se passou verdadeiramente durante os encontros entre as mais altas instâncias políticas e militares durante o período de transição para a descolonização? 
    Eis uma tese de doutoramento que revela detalhadamente como decorreram as negociações e o que «de facto» se passou nos bastidores da descolonização. 
    De sublinhar que o relato desses acontecimentos teve como suporte factual a consulta exaustiva  extraídas dos Arquivos militares, documentos,  actas, gravações, depoimentos etc. que falam por si. 
    E aí está o que o documentos nos dizem: há uma História por saber e por contar.  (Pode ouvir-se muito resumidamente nestas duas entrevistas à autora da obra, a historiadora Alexandra Marques:


    https://www.youtube.com/watch?v=pWDXgy7NI5Y

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  22. Provavelmente o comentador Balio não vivia em Portugal em 1974/1975. E, certamente, não tinha mais parentes em Angola do que no Continente.
    Não sendo impossível, não há qualquer evidência de foram os EUA que pagaram a ponte aérea ou que fretaram navios. Mas uma coisa se sabe. Os sindicatos da TAP com excepção do dos pilotos estavam dominados pelo PCP pela CGTP-Intersindical. Em particular os do pessoal de manutenção.
    Meses antes, as greves eram constantes mas na ponte aérea, uma espantosa operação de aviação em que se transportaram meio milhão de pessoas em curtíssimo tempo, nada falhou. Não houve uma greve, uma avaria, fosse o que fosse.
    Muito mais importante, do que a pretensa esperança que os retornados invertessem a deriva comunista em Portugal continental - esperança de grande parte da direita e medo dos comunistas e do próprio MFA que tudo fizeram, desde alojamento, alimentação e créditos para aplacar os retornados - muito mais importante, era a necessidade de retirar de Angola quem pudesse fortalecer a oposição ao MPLA. Que isso possa ter sido cozinhado com americanos, prometida a intocabilidade do petróleo de Cabinda, é bem possível, mas atribuir aos EUA a paternidade.... bem, só do Balio.
    E, para remover dúvidas, o mesmo se fez em Cabo Verde. Cerca de 200 pessoas, predominantemente brancos e mulatos com visibilidade social - alguns meus parentes - foram metidas num navio para Lisboa. Depois o MFA desarmou a polícia e entregou as armas ao PAIGC que, apesar da forte presença militar na Guiné, tinha pouco apoio em Cabo Verde.
    É para mim curioso que um primo direito do meu pai, por via ilegítima, mulato claro e aderente do PAIGC, tivesse casado com a irmã de Aristides Pereira, primeiro presidente de Cabo Verde e que tivesse vivido no "sobrado" que fôra morada, herdada, dos meus bisavôs, e onde foi criado, estudado com os muitos primos e "de facto" adoptado por uma minha tia-avó, solteira. 

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  23. Segundo me lembro de ter lido numa das recepcções mandou os escravos prostarem-se no chão para ela passar por cima deles e não tocar no chão...

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