quinta-feira, 13 de abril de 2023

A igreja católica, o dalai lama e boaventura sousa santos

Comecemos por distinguir, de forma inequívoca, o deve ser distinguido: a sexualidade entre pessoas adultas e a sexualidade entre pessoas adultas e crianças não devem ser confundidas, por mais que haja margem para distinguir o que são pessoas adultas para este efeito (tradicionalmente, e em muitas sociedades tradicionais ainda é assim, é a puberdade que define quem é adulto ou não, nas sociedades modernas é uma convenção social que estabelece administrativamente uma idade para essa definição).


Portanto os três assuntos, abuso sexual de menores e pessoas vulneráveis na igreja, uma acção pública concreta do dalai lama e o assédio sexual entre adultos, não podem ser postas, globalmente, no mesmo pé.


Mas há alguns aspectos em que estes assuntos se aproximam.


Por um lado, na definição de pessoas vulneráveis, o que inclui relações de pessoas em que existe uma assimetria de poder, assimetria essa que é tanto maior e tanto mais rígida quanto mais hierárquicas e de dependência são as relações entre adultos.


A academia, pelo menos a portuguesa, desse ponto de vista, é extremamente vulnerável ao abuso (qualquer tipo de abuso, não apenas o que diz respeito ao abuso e assédio sexual) porque é uma academia pequena, em que as pessoas têm poucas alternativas, fortemente condicionadas por mecanismos de financiamento em que a preponderância dos elementos de topo é esmagadora face às qualidades dos que chegam e, acima disso tudo, fortemente endogâmica.


O caso de dalai lama é o mais estranho dos três que ligo neste post e sobre ele não tenho grandes opiniões de substância, visto desconhecer o enquadramento cultural do gesto do dalai lama, o que me parece é que seria sempre muito estranho que alguém, numa sessão pública que está a ser gravada (e é depois difundida pelos serviços do próprio), fizesse uma acção que fosse entendida como um abuso.


Uma das coisas mais claras que ressaltam da investigação sobre o abuso de menores e pessoas vulneráveis é exactamente o facto de ser um fenómeno intrinsecamente subterrâneo e assente em longas relações de confiança e poder entre abusador e vítima (uma das coisas mais estranhas no relatório português sobre abusos de menores e pessoas vulneráveis na igreja católica é o peso dos testemunhos que não identificam ou conhecem o agressor, ao arrepio do que acontece na generalidade dos outros relatórios semelhantes noutros países e ao arrepio do que se sabe a partir da investigação científica do fenómeno).


Suspeito que continuamos a olhar para este tipo de abusos de forma excessivamente leviana, não distinguindo comportamentos inapropriados e dignos de censura social, de comportamentos graves com efeitos reais durdouros sobre as vítimas, aqueles com que verdadeiramente nos deveríamos preocupar.


O que de mais relevante ressalta do barulho à volta destes três assuntos é a forma pacífica como parece aceitar-se que uma denúncia deste tipo de comportamentos é suficiente para uma condenação moral e social (ainda que temporária, tanto quanto uma acusação deste tipo gera uma condenação temporária).


É verdade que é preciso ter muita atenção às denúncias neste tipo de situações, exactamente porque a natureza subterrânea destes comportamentos dificulta enormente a discussão dos factos com base em elementos objectivos (que podem incluir testemunhos de terceiros), o que é especialmente delicado quando as vítimas por um lado estão numa posição de fragilidade, como são escolhidas pelos agressores exactamente por causa dessa fragilidade.


Por isso mesmo é fundamental trabalhar os mecanismos que facilitem a denúncia e se passe a considerar como credível qualquer denúncia à partida, evitando descartar denúncias liminarmente.


O que não é aceitável numa sociedade civilizada é o linchamento público das pessoas denunciadas que, como em qualquer outro crime, têm direito a um processo justo, à defesa do seu bom nome e à aplicação do princípio de que in dubio pro reu, por mais que nos pareça que disso resultará muitas vezes considerar-se inocente quem de facto é culpado.


Esse risco, no entanto, do ponto de vista do funcionamento civilizado das comunidades, é imensamente menor que o que resulta de uma sociedade que condena inocentes de forma leviana.

4 comentários:

  1. nas qualidade de Anarca e investigador por conta própria, o relatório da comissão sobre os abusos na Igreja veio mostrar a incapacidade dos seus membros (inferiores) para fazer uma investigação e exibir a sua incivilidade de denunciantes.
    como se observa na sociedade familiar e na UC e Lxa a republiqueta será sempre «LOCAL MAL FREQUENTADO»

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  2. Eu acho que há aqui imenso campo para confusão, porque não se sabe bem o que são crianças em matéria de sexualidade.


    Soube recentemente que um enorme artista como Pablo Picasso, e um enorme físico como Erwin Schroedinger, estão a ser "cancelados" por alegada pedofilia. Isto porque Picasso seduziu uma rapariga de 17 anos  quando era uns 30 anos mais velho, e Schroedinger seduziu uma outra de 15 anos quando também era uns 30 anos mais velho. Nenhuma das duas raparigas jamais se queixou de ter sido seduzida, aliás mantiveram durante muitos anos excelentes relações com os seus sedutores.


    Isto já para não falar do profeta Maomé, que também tem sido cancelado por pedofilia, por se ter casado com Aicha quando esta era ainda criança - e por sinal Aicha nunca se queixou do casamento, de facto viria a ser uma das melhores intérpretes de Maomé após a morte dele.


    Tem que se ter muito cuidado com as alegadas crianças que de facto já não o são.

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  3. Tu lês os posts inteiros, ou tiras frases ao calha para fazer comentários?
    "p

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  4. Não vale a pena... Homens são homens e animais são bichos.
    Leiam, antes, o que foi publicado a 12 de Abril no blogue "Dalai LIma".


    Cumps

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