quarta-feira, 1 de março de 2023

Indigência intelectual

pedro filipe soares.jpg


O boneco acima poderia ser comentado de muitas maneiras.


Por exemplo, pelo lapso de imigram (acontece a qualquer um, é sempre tentador fazer uma piada fácil, mas não acrescenta nada), por se considerar que quem ganha 2000 brutos por mês é rico, pela evidente demagogia de evitar a discussão da fiscalidade sobre o trabalho, desviando a conversa para outro lado, e provavelmente ainda mais.


A mim só me interessa comentar um aspecto, porque o comentário é feito por um deputado e não por mim ou qualquer outro borra-botas.


Carlos Guimarães Pinto fala em ordenados brutos de 2000 mil euros (correspondendo a 1 362 líquidos, diz ele) e Pedro Filipe Soares responde com uma notícia que, embora no título refira que apenas 3% dos jovens ganham acima de 1600 euros, facilmente se verifica que se refere a ordenados líquidos.


Se o nível da discussão é este entre deputados, se o desprezo pelos factos é este entre deputados, se a procura de dados verificáveis em que assentar uma discussão racional entre deputados é esta, como podemos esperar que o nível da discussão pública não seja intelectualmente indigente?


Seria bom que fosse um caso isolado, mas ainda ontem, no Contra-corrente do Observador em que estive, fiquei a saber que Luís Vicente (com uma longuíssima carreira que inclui ter sido dirigente de uma área protegida, não é propriamente um estagiário que cresceu a ver documentários sobre vida selvagem, a menos que haja outro Luís Vicente, biólogo), Liliana Vieira e Ana Pereira, em nome do PAN, acham que uma das soluções possíveis para a gestão das populações de javali passa por "proceder-se à proibição de caça dos potenciais predadores naturais como Saca-rabos e Raposas e eventualmente à reintrodução do Lince e do Lobo, conforme estudos científicos, e monitorização das espécies."


Defender a proibição da caça à raposa ou a introdução de linces como formas de controlo das populações de javalis está, intelectualmente, ao mesmo nível de responder com ordenados líquidos a argumentos que usam ordenados brutos, isto é, é de uma indigência intelectual confrangedora pela desonestidade e fé absoluta na ignorância dos outros.


E o mais inquietante é que provavelmente é eficaz.

25 comentários:

  1. O Henrique Pereira dos Santos explique-me, que eu sou totalmente ignorante disto: é ou não verdade que, se houver raposas e linces, eles atacarão os javalis? É ou não verdade que esses animais (raposas e linces) são predadores dos javalis? E, se fôr verdade, porque não se há de incentivar a presença de raposas e de linces como forma de combater os javalis?

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  2. Tenho a ideia que raposas e linces são predadores pequenos, que só caçam animais também pequenos como galinhas e coelhos, e que jamais se abalançariam a atacar um animal grande e maciço (e bem defendido, com dois valentes dentes) como um javali. Essa é a minha ideia, mas não estou certo dela. Conviria que o Henrique Pereira dos Santos esclarecesse.
    (Mesmo os lobos, só caçam javalis porque o fazem em grupo. Os lobos caçam em grupo. As raposas e os linces caçam isolados, creio.)

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  3. Relembro a adolescência, o início do secundário. Disciplina nova e a matéria, as lições, incidiram sobre o amor da sabedoria. Nessa altura foi dada pelo professor uma grande importância aos sofistas. Estão sempre presentes. Tenho gosto em ouvi-los, encantam os seus discursos, que maravilha.

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  4. Percebo perfeitamente a primeira parte. Já na segunda confesso-me ignorante: porque é que a introdução de mais predadores naturais dos javalis não é uma solução? Ou o tema é  a proibição da caça à raposa? E neste caso porquê?
    É mesmo ignorância de minha parte. 

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  5. Não e não. Quanto à terceira pergunta, fica prejudicada pelas respostas às duas primeiras.

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  6. Porque, em primeiro lugar, se está a falar de animais que não predam, de forma relevante, não sei se existe algum caso documentado de predação de crias, mas não é habitual linces ou raposas predarem javalis.
    Em segundo lugar, porque essa introdução, no caso do lince, é bastante difícil em zonas que não correspondem aos seu óptimo de habitat, com abundância da sua presa base, o coelho (é difícil, ao mesmo tempo, ter uma grande abundância de coelho e javali no mesmo local e mais difícil ainda que um lince se entretenha a predar javalis quando existem coelhos, sendo ainda mais difícil que populações de lince se alimentem primordialmente de javalis (nunca vi nenhum estudo sobre alimentação de linces que indicasse algum consumo relevante de suínos).
    Em terceiro lugar, porque existem raposas em todo o lado e a caça à raposa não tem qualquer importância na sua dinâmica actual, portanto proibir, ou não, a caça à raposa é irrelevante para a sua dinâmica populacional.
    Por fim, mesmo nos locais onde existem hoje predadores de javalis, como o lobo (que preda sobretudo crias, mas nem sequer é a base da alimentação de nenhuma alcateia, que eu saiba), pode haver alguma diminuição da densidade de javalis, mas não ao ponto de evitar os problemas reais que existem.
    É natural que eu escreva mais um post sobre este assunto.

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  7. Só nos resta sonhar e imaginar como seria _ não uma utopia_ mas pelo menos uma sociedade feliz. 


    https://observador.pt/opiniao/uma-sociedade-infeliz/

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  8. Bastaria uma página tamanho A10 (e sobrava), para exemplificar os "altares" que estes indigentes idolatram: Cuba, Venezuela... Que, como é sabido, são os destinos dos tais jovens que emigram...

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  9. "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros. " ------------ George Orwell 

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  10. As raposas nem com porcos domésticos se metem, quanto mais com javalis. Desde pequeno que os meus pais tinham uns animais, nomeadamente galinhas, mas também porcos. Um vizinho nosso também tinha galinhas mas não porcos. Ora o pobre homem fartou-se de ter problemas com as "zorras" como se diz na minha terra mas no caso dos meus pais nunca. Basicamente o galinheiro ficava mesmo no meio dos currais dos porcos e as "zorras" não punham lá os pés. Não sou biólogo nem especialista na área mas desde pequeno que aprendi com "provincianos" que raposas não se dão lá muito bem com porcos ou javalis e então se forem "navalheiros" então coitaditas das raposas à primeira trincadela ficavam logo com as tripas à vista.
    Enfim, não é preciso ser-se expert, apenas saber minimamente o que é o campo para se saber que isto é um disparate, raposas predadores de javalis, ahahaha! Quanto aos linces não conheço o a não ser do zoo e dos livros. 

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  11. Se alguém aqui acha que receber 2000€ por mês é pouco, esteja à vontade para tocar comigo. E interessante que não vejo ninguém a receber 2000€ em Portugal a mudar para um desses países para receber o mesmo, normalmente fazem-no para receber o dobro ou o triplo.
    Mas é claro que esta escumalha, burra como tudo, acha que a culpa é dos impostos. Já para não falar de serem de tal forma mórbidos que querem provocar a extinção de espécies. Escumalha!

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  12. Se notar, ninguém disse que 2000 euros (brutos, portanto, 1362 líquidos é pouco, embora os sindicatos passem o tempo todo a dizer que é pouquíssimo), o que foi dito é que ter um ordenado de 2000 euros brutos qualifica qualquer pessoa como rico (foi dito por um deputado que ganha, pelo menos, 3600 euros brutos, um milionário, portanto).
    Sim, claro que as pessoas não emigram para ganhar o mesmo, emigram para ganhar mais, o que é possível nesses países, mas é mais difícil em Portugal (em parte, como explica Carlos Guimarães Pinto, porque o Estado cobra uma comissão maior em Portugal por deixar trabalhar as pessoas).
    A minha experiência de vida diz-me que quando se abusa dos adjectivos, normalmente é porque faltam substância que possa ser descrita apenas com substantivos.
    Parece ser o caso.

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  13. 1362€ euros líquidos por mês é pouco? Vá dizer isso à grande maioria da população que ganha menos que isso. Aliás, a grande maioria da população nem sequer ganha esse valor bruto.

    E espere até saber quanto é a carga fiscal na França ou na Bélgica... O que é curioso porque vejo portugueses a emigrar para esses países mas não ao contrário.
    Querer caçar raposas dá nisso...

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  14. Aparentemente está com um problema de leitura: ninguém disse que era pouco, o que se passa é que um senhor, que por acaso ganha quase o dobro, disse que esse ordenado é de uma pessoa rica.
    Entre um ordenado ser baixo e uma pessoa ser rica, há muitas variações.
    Não sei se reparou, ou se não conhece as bandeiras, mas a comparação com França está no boneco.

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  15. Reli o tweet e diz "os mais ricos". É verdade que quem ganha 2000 euros brutos em Portugal por mês faz parte dos mais ricos. Por muito que essa verdade possa doer a quem tem agendas específicas.

    Qual bandeira de França? Vejo as bandeiras de Portugal, Espanha, Países Baixos e Irlanda. A direitalha é tão burra que não conhece a bandeira de França. Estão sempre a fantasiar com a Irlanda e a Estónia que no final nem sabem qual é a bandeira do país que tem mais portugueses no mundo (sem contar com Portugal, obviamente).

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  16. Tem razão, o tweet fala em mais ricos, ou seja, desde que a pessoa ganhe mais de 1362 euros líquidos por mês, está nos mais ricos (o que é verdade, a mediana anda por menos de mil euros, líquidos), portanto, não há problema em o Estado cobrar um grande comissão por deixar trabalhar essas pessoas.
    Também tem razão em relação às bandeiras, mas isso não é burrice, é ignorância, que é uma coisa que se resolve, como resolveu, ao contrário da burrice.
    Pegando no exemplo, e para resolver o problema da ignorância, fui ao primeiro simulador que encontrei de ordenados líquidos e vi que, nas constas deles, 2000 euros brutos em França são 1725 líquidos.
    Como achei que os números para França não me pareciam razoáveis (eu esperaria uma maior taxação), fui a um segundo simulador que me permitisse calcular a taxação para os dois países, Portugal e França, tendo chegado à conclusão de que a taxação em França, para um ordenado de 2000 brutos, era cerca de 300 euros menos, ou seja, a comissão que o Estado francês cobra para deixar as pessoas trabalhar é 300 euros mais baixa, portanto se a empresa quiser pagar 2000 euros em Portugal e em França, o trabalhador fica com mais 300 euros líquidos em França que em Portugal.
    Espero que tenha percebido a diferença entre ignorância, que era o meu caso, como muito bem referiu, e burrice.

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  17. O artigo da Salomé Leal refere-se a salários líquidos? 
    Tenho muitas dúvidas. 

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  18. Retiro o que disse

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  19. Isso não pode ser visto desaa maneira. Claro que 2000€ em França serão muito menos tributados que em Portugal. 2000€ em França é um salário de miséria. O Salário mínimo lá é de 1.539,42€.
    Isso tem que ser visto, no mínimo,  em termos de Paridade do Poderes de Compra.

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  20. Resumindo o seu argumento, os salários em Portugal chegam para o custo de vida em Portugal, não são baixos

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  21. Não. Nada disso. São mais baixos do que em França. Mas não tão baixos como uma análise direta faz crer. 
    Se o SMN em França ultrapassa os 1500€, vamos fazer uma comparação entre os impostos pagos em França sobre 1500€ e os que são pagos em Portugal sobre o mesmo valor? É isto honesto? Não me parece.
    Vamos comparar com a Bulgaria que tem um SMN de 312€? Provavelmente aos 760€ já estão a pagar imposto. Conclusão: na Bulgária pagam-se mais impostos que em Portugal? Péssima conclusão.

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  22. Vamos a questões práticas: quanto paga de imposto, na Bulgária, um ordenado de 2000 euros?

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  23. Não faço ideia. 

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  24. Fui a um simulador qualquer na net, e diz-me que o trabalhador recebe 1580, mais coisa, menos coisa.
    Ou seja, o seu argumento reforça o que diz Carlos Guimarães Pinto.

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  25. A Bulgária tem uma taxa de imposto fixa de 10%. Os milionários pagam 10%, os remediados pagam 10%, ...
    Se é esse o país que querem,... ok.
    Porque não regressar à Idade Média e isentar os milionários e bilionários do pagamento de impostos. Há bons argumentos para isso. Há sempre bons argumentos para tudo. 
    Já agora: durante os 30 dourados, que foi um dos períodos de maior crescimento no Ocidente, a taxa marginal de IRS nos EUA foi de 80%.

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