segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

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Fui buscar o boneco acima a uma publicação de um colega meu do Algarve, que perguntava ironicamente onde é que já se tinha visto floração de amendoeiras no Inverno.


Que o Público não tenha ninguém com sensibilidade suficiente para ter ouvido falar da auto-fecundação das amendoeiras (e, por isso, da relativamente baixa importância dos polinizadores nesta cultura, pelo menos nalgumas variedades), acho normal, eu só soube disso porque Carlos Aguiar fez um comentário nesse sentido na dita publicação.


Que uma estagiária leia qualquer coisa sobre o assunto e não tenha capacidade crítica suficiente para se aperceber imediatamente que é melhor verificar os factos e ver quando é a época normal da floração das amendoeiras, posso perceber, é caindo que se aprende a andar de bicicleta.


Que no processo de produção da notícia, e mesmo depois da sua publicação, ninguém com responsabilidade no jornal se aperceba de que não há notícia nenhuma no facto de começar a floração das amendoeiras em Fevereiro, isso sim, já acho preocupante (noutra publicação, nos dias de frio que houve aqui a atrasado, uma pessoa de Mirandela perguntava em que país vivia a ou o jornalista que tinha feito uma notícia com o facto da roupa que tinha ficado na rua a secar, de um dia para o outro, ter congelado na corda).


Neste caso trata-se apenas de um lapso divertido, mas este desfasamento entre a realidade do mundo rural e os produtores de informação é muito mais sério do que se poderia pensar, influenciando políticas erradas de gestão de fogos, de gestão florestal, de gestão de conservação e por aí fora, o que tentarei exemplificar com outro exemplo recente, também vindo do Público.


Ontem, na primeira página, numa chamada com algum destaque, escrevia-se "Lobos Doze ministros europeus contra  redução de estatuto de protecção".


Quando vi esta chamada, disse para os meus botões: o jornalista, ou o editor, ou o jornalista e o editor, não perceberam que a notícia é serem só doze os que assinaram a carta que pretende contestar uma resolução do parlamento europeu sobre grandes carnívoros: há uns anos atrás esta resolução provavelmente nunca existiria, e praticamente todos os ministros europeus assinariam imediatamente a sua contestação, no caso, improvável, de alguém se atrever a propor uma medida neste sentido.


Afinal o que se passa?


O que se passa é com as alterações tecnológicas que nos permitem hoje criar fertilidade em fábricas, produzir muito mais trabalho com menos gente, escolher as caracteríticas de plantas e animais para obter melhores resultados, com a melhoria dos circuitos de armazenamento e comercialização (com destaque para a generalização do frio), com melhores modelos de gestão, precisamos hoje de muito menos terra para alimentar (e produzir fibras) muito mais gente.


Com isso, na velha Europa - a situação não é a mesma noutras paragens -, há uma recuperação brutal dos sistemas naturais e, com isso, o regresso dos grandes animais, que incluem predadores de topo como o lobo ou omnívoros oportunistas como o urso.


Todos os dados que existem apontam nesse sentido, de que há um conjunto de espécies que estiveram muito ameaçadas mas que hoje aumentam a taxas mais altas ou mais baixas mas, para se ter uma ideia, os ursos, na Península Ibérica, cresciam até há pouco tempo a uma taxa de 10% ao ano (digo cresciam, e não crescem, por precaução, não fui ver os últimos números). Isto quer dizer que a população de ursos duplica a cada 7 ou 8 anos, ou que triplica em 11 ou 12 anos.


Isto deveria ser motivo de regozijo dos conservacionistas, só que isto implica reconhecer que essas espécies não estão ameaçadas, ou seja, que o seu estatuto de ameaça deveria ir tendendo para não ameaçado, progressivamente, a cada revisão desse estatuto.


Ora é isso que pede a tal resolução do Parlamento Europeu, só que isso choca de frente com a convicção de que o estatuto legal de protecção das espécies é uma coisa muito importante para a sua dinâmica, um dogma de fé transversal a praticamente todo o movimento conservacionista e, consequentemente, às redacções dos jornais.


Daí a notícia do Público, que não discute os fundamentos do problema, não escrutina factos, ouve apenas uma pessoa, dirigente de uma organização directamente interessada em dramatizar as ameaças às espécies em causa, porque dessa dramatização depende o financiamento, em grande parte, da organização.


O que está em causa não é produzir informação, é combate político.


Se é assim numa matéria aparentemente tão pouco política, imagine-se o que isto quer dizer em matérias mais claramente políticas, como a habitação.


Um dia destes vi uma jornalista perguntar a um convidado como era possível que se admitisse que se poderia resolver a crise da habitação sem intervenção do Estado.


E considera-se a pergunta normal porque ninguém devolve a pergunta à jornalista: onde está a demonstração real de que a intervenção do Estado produz melhores resultados na disponibilidade de habitação que o mercado? Que exemplos existem de intervenções do Estado com bons resultados, no longo prazo, sobretudo intervenções do Estado que contrariam o mercado (que é diferente de políticas de incentivo para que o mercado funcione mais assim ou mais assado).


E assim não saímos da cepa torta.

25 comentários:

  1. Lembro-me de há mais de dez anos ter lido no Público uma reportagem sobre os Narcissus cyclamineus de Paredes de Coura (eis a ligação: Paredes de Coura aposta na preservação de flor que só existe na Península Ibérica (https://www.publico.pt/2011/02/08/jornal/paredes-de-coura-aposta-na-preservacao-de-flor-que-so-existe-na-peninsula-iberica-21246336)). O tom geral do texto oscilava entre o pessimista e o esperançoso: a planta estaria ameaçada, claro (pois qual o interesse jornalístico em escrever sobre uma espécie não ameaçada?), mas a Câmara tinha pago um estudo para conhecer e mitigar as ameaças, e estava empenhada em que ela sobrevivesse. Passados todos estes anos, posso garantir que os narcisos em Paredes de Coura estão de boa saúde e não dão sinais de diminuir. Mérito da Câmara e do estudo encomendado? Palpita-me que as coisas estariam na mesma em qualquer caso, mas há sempre vantagens em que as pessoas tenham consciência do valor e da originalidade do património natural da sua terra. Mas o que me leva a escrever este comentário é o modo caricato como terminava a referida reportagem. Publicada a 8 de Fevereiro, e portanto em plena época de floração dessa espécie, dizia aos leitores para não irem a correr a Paredes de Coura ver as plantas em flor. Que tivessem calma e esperassem pela Primavera, e que em Maio ainda iriam a tempo. Claro que quem seguisse esse conselho não veria nada, convencendo-se talvez de que a espécie, apesar do desvelo da Câmara, se teria mesmo extinguido. Nos jornalistas e na população urbana em geral, é muito arreigada a crença de que as plantas, todas as plantas, só florescem na Primavera, e que, quando algumas (como as amendoeiras, os narcisos, as azedas, as mimosas, as camélias) decidem fazê-lo noutra época do ano, é sinal de que está tudo às avessas e o mundo já não tem conserto.  

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  2. "...onde está a demonstração real de que a intervenção do Estado produz melhores resultados na disponibilidade de habitação que o mercado?"


    Pois, deve ser por isso que nos outros países é muito mais fácil comprar casa ou até mesmo arrendar.
    Basta ver os nossos emigrantes a facilidade que têm em arranjar casa. Em Londres por exemplo até fazem fila...( por um quarto ).

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  3. A tragédia de Entre os Rios ocorreu a 4 de março e o autocarro que caiu era de uma excursão que tinha ido ver as amendoeiras em flor. 

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  4. "O que está em causa não é produzir informação, é combate político.



    Se é assim numa matéria aparentemente tão pouco política, imagine-se o que isto quer dizer em matérias mais claramente políticas".


    E o tutano da coisa é isto, sem mais.

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  5. Que saudades já tinha de si.
    Tem andado fugido?
    Está tudo bem consigo?
    Pois ainda bem.


    Aproveito esta oportunidade para lhe perguntar como é que situações reais de outros países se podem comparar com declarações de intenções aqui neste.
    Agradeço antecipadamente os seus esclarecimentos.

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  6. Tem razão o comentador em cima que lembrou o acidente de Entre-os-Rios no início de Março, após uma excursão às amendoeiras em flor no Nordeste transmontano. Elas não existem só no Algarve e no sul de Espanha.
    Foi pena não terem apontado para aí o satélite :-) Nem sabem o que perdem!

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  7. Claro que enquanto formos des-governados por esta corja de desqualificados, nunca sairemos da cepa torta! Põe dúvidas do motivo por que assim estamos?! Acha que gente séria e competente _e que teria tanto para dar ao país_ se quer aproximar desta súcia?
    Se ler o artigo de hoje do Henrique Neto, no Observador, sobre a enorme perda de João Salgueiro e de Medina Carreira entre outros, fica certamente nostálgico do país que fomos e já não existe. 
    O contraste entre os des-governantes de hoje com aqueles vultos brilhantes e competentes é assombroso! Eram homens de outra "colheita" e de uma cepa que já não há : exemplares na forma isenta como serviam (é a palavra exacta) e dedicavam todo o seu saber ao serviço do país. Estamos entregues a carreiristas, vigaristas sedentos de poder e não sei de que mais... que é gente que não entendo, nem faço questão disso.

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  8. Espírito tuga apenas.
    Dizer mal de tudo e de todos, mas depois no fim, vendo bem as  coisas, se calhar até não é assim tão mau. 
    Alguma coisa tem de ser feita e como sempre os profetas da desgraça lá estão para dizer mal.
    É como a história da criança, do velho e do burro, nada estava bem. 

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  9. Confesso que não percebi o seu comentário.
    Qual foi o exemplo de uma intervenção do Estado no sector da habitação que tenha resolvido os problemas?

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  10. E até pode ser confirmado pela dita "inteligência artificial"  que já faz (por estar programada para tal) concorrência à estupidez natural. 

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  11. Sim, mas se for ler esses "iluminados" (financiados pelos capitalistas para promover agendas esquerdistas e afins,estranho né?) que escrevem no Público e similares a culpa será sempre dos populistas de direita os quais nunca ocuparam o poder politico em quase 50 anos de demo-parlamentarismo. 

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  12. Talvez se fizer a pergunta de outra maneira consiga a resposta.
    Qual é o país que sem a intervenção do Estado resolveu o problema da habitação, ou seja, casas acessíveis para compra e rendas baratas?

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  13. Não tenhamos dúvidas: hoje também há homens e mulheres competentes e íntegros, porventura até em maior número do que antigamente. Todavia, o sistema está montado para que os lugares do governo sejam apenas ocupados por gente fiel ao partido, e desse mundo (pequenino) as mulheres e os homens competentes e honestos andam afastados e continuarão a afastar-se enquanto o sistema não mudar. Para nosso mal e para mal dos nossos filhos.

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  14. Alguma coisa tem de ser feita é uma lapalissada.
    Mas fica sempre bem dizer banalidades em tom pomposo.


    Essa historia



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  15. Sempre brincalhão, as crianças são assim.
    Diga lá então q



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  16. No Algarve florescem mais cedo. Desde o principio de Janeiro que as vejo floridas todos os anos, mais semana menos semana

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  17. Sr. Sousa, e que tal desprogramar-se desses clichés que tem sempre à mão? Pense pela própria cabeça, seja mais independente e faça um favor a si próprio: deixe esse tom serviçal e deferente para com o Estado, para não se parecer com um desses apparatchiks avençados do regime. 

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  18. Amendoeiras desconheço, eu é mais amendoins, a acompanhar a cerveja.
    Normal, quantos artigos li, ou "opiniões" ouvi, sobre a minha área técnica, que nada mais são que chavões e jargão técnico disparado, sem qualquer sentido ou veracidade.
    provavelmente daqui a pouco tempo teremos as notícias a serem escritas pelo chatgpt, será um avanço civilizacional.

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  19. "Neste caso não está nada a acontecer, tudo isto já foi ensaiado há uns 15 anos..."


    Não me diga que não mudou nada desde a lei Cristas?

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  20. E já era assim há 100 anos.

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  21. Está a ver como estuda pouco?
    Ora vá lá ver o que eu escrevi e quem estava no governo há.15 anos.
    Assim não vai lá, este ano ainda fica chumbado.

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  22. O Estado era pessoa para resolver, já o ps...

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  23. No Algarve tem de ser, necessariamente, mais cedo, em Janeiro, porque é próprio delas desabrocharem no tempo frio; as temperaturas mais amenas de Fev./Março são inadequadas para as amendoeiras florirem.
    Claro que já era assim há 100 anos, mas não diga isso muito alto! 
    Diga o contrário, que tudo mudou e já nada é como dantes "e coiso e tal"... para não estragar o arranjinho dos financiamentos que dão um jeitão àqueles activistas  do clima! Faça coro com eles e diga em tom dramático: de cada vez que alguém nega esta ameaça global  "morre um passarinho silvestre, seca uma flor campestre" _ citar a Carmo Afonso dá um certo "toque"...

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  24. Portanto se a princesa é do norte da Europa, onde neva durante o Inverno, e tinha saudades dos campos brancos dessa estação do ano. O rei não poderia plantar uma árvore que florescesse na Primavera, porque não faria sentido para a felicidade da princesa.



    Outra versão desta lenda diz que era na Primavera que elas floriam, mas quem mora no Algarve sabe que isto não é verdade. As amendoeiras começam a sua floração a partir de Fevereiro, a meio do Inverno.

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