segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Imigração

Ana Sá Lopes, depois de na semana passada ter deitado a toalha ao chão reconhecendo que os factos que lhe dizem directamente respeito influenciaram as suas ideias sobre a gestão que o Estado faz do sistema de saúde, volta agora (no Público de Domingo) à sua posição habitual de evitar que os factos influenciem as suas ideias.


Por outro lado, Helena Matos, com o seu habitual bom senso e sentido da realidade, demonstra neste artigo que não é por falta de factos verificáveis que não se vê o que se passa com a imigração, é mesmo "uma escolha que se faz", a de evitar que os factos possam influenciar o que se pensa e escreve.


Comecemos por factos para depois olharmos para a maneira como se resolve olhar para eles, não para tentar entender a realidade, e actuar sobre ela, mas para evitar que eles influenciem o que queremos ver.


De acordo com Ana Sá Lopes, Luís Montenegro terá dito: "Temos de arriscar, procurar pelo mundo as comunidades que possam interagir connosco, que se possam integrar melhor na nossa identidade, e que possam entrar, por via do mercado de trabalho e também por via da formação, para integrarem no mercado de trabalho mais tarde".


Pessoalmente discordo desta maneira de pôr o problema da imigração, porque não me parece que o Estado seja muito competente na procura de trabalhadores de que precisamos, mas conseguiria ter uma discussão racional sobre imigração com base neste parágrafo.


E conseguia ter essa discussão racional partindo do pressuposto de que Montenegro está de boa fé e que o parágrafo acima reconhece que precisamos de mais imigração em Portugal e que essa imigração se deve fazer por via do mercado de trabalho e da integração social dos imigrantes.


Implicitamente, reconhece que a imigração pode trazer problemas sociais sérios, quando a sua integração social é difícil e existem barreiras reais entre as comunidades organizadas em guetos mais ou menos definidos e a generalidade da sociedade, reconhecimento que, se precisasse de mais demonstração factual, bastaria dar um salto a França ou à Suécia (dou o exemplo da Suécia para evitar já a conversa da islamofobia), mas a verdade é que existe uma longa demonstração histórica deste problema, não é nada de novo.


De resto, a restrição à entrada de migrantes é a norma pelo mundo fora, qualquer que seja o regime político que vigora no país (quando duas das minhas filhas, em períodos diferentes, foram fazer voluntariado para a ilha de Moçambique, por seis meses, tiveram de sair e voltar a entrar no país, porque não podiam estar mais de dois meses no país com vistos de turista, e Moçambique era um país de muito pouca imigração porque é um país muito pobre, isto é, com poucas oportunidades de trabalho).


Pois bem, Ana Sá Lopes prefere - "é uma escolha que se faz" - não ouvir o que diz Montenegro para poder malhar na eventual aliança com o Chega, e desata a disparar ao lado "Estamos a falar de brancos? Morenos? Falantes da língua portuguesa? Europeus? Naturais dos países que durante séculos colonizámos [um parênstises para realçar aqui uma falácia histórica muito difundida, a colonização africana portuguesa não é de séculos, é de um século, no máximo, século e meio, até ao fim do século XIX a colonização portuguesa em África limitava-se a um estreito rosário de entrepostos comerciais miseráveis ao longo do litoral]? Pessoas com aspecto meio mouro como quase todos nós? Pessoas que não professem a religião muçulmana [Ana Sá Lopes nem reparou que a esmagadora maioria dos imigrantes associados às condições de vida que motivam toda esta conversa não provêem de países culturalmente muçulmanos, talvez com alguma excepção do Paquistão, pelo contrário, vêm da Índia, do Nepal e de outros países dessa região do mundo]?"


Note-se que Ana Sá Lopes tem perfeita consciência de que não foi disso, ou pelo menos não foi evidentemente disso, que falou Montenegro, e por isso pede encarecidamente "Era muito importante que Luís Montenegro esclarecesse do que estava a falar".


Não admira esta alienação da realidade que incendeia o chão comum, queimando a racionalidade da discussão que precisamos de fazer sobre imigração, porque Ana Sá Lopes só deu pelas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores rurais sazonais por causa da Covid em Odemira e do incêndio na Mouraria - como se houvesse alguma falta de notícias sobre redes de tráfico humano, condições de vida precárias, etc., associadas ao problema dos trabalhadores agrícolas sazonais ou aos estafetas urbanos -, tal como só deu pelos relatórios do tribunal de contas, e outros, sobre as PPP da saúde quando chocou com a realidade ao ser utilizadora frequente dos hospitais (provavelmente também precisará das manifestações de professores para pôr a hipótese de que o aumento da frequência do ensino privado é um sintoma fortíssimo de degradação da escola estatal, porque não quer atirar a toalha ao chão também na defesa de uma escola estatal disfuncional e crescentemente falhada como factor de integração social).


Ana Sá Lopes é só um exemplo - e um bom exemplo porque é uma pessoa séria, tem apenas a agenda das suas convicções, não é preciso invocar ligações estranhas a poderes e grupos socias para explicar a cegueira voluntária a que se entrega - do que se passa nas redacções dos jornais, que estão infestadas de gente que, aparentemente, acha que as regras da profissão - não citar anónimos, por exemplo, a não ser em casos absolutamente excepcionais de risco de vida para a fonte, procurar o contraditório de forma permanente e alargada, relatar factos verificáveis sem os misturar com opiniões, confrontar as declarações de agentes interessados com dados verificáveis, etc. - existem sobretudo para que o jornalista se defenda de si próprio e dos seus preconceitos, uma coisa intrinsecamente difícil para qualquer pessoa.


Passar o tempo a fazer interpretações possíveis, mas não plausíveis, sobre o que os outros dizem, não serve para nada a não ser para matar o chão comum de que precisamos para ter políticas públicas racionais.


E precisamos de discutir racionalmente a política de imigração, sabendo que é uma matéria em que a demagogia e os apelos emocionais têm carta de alforria.


Adenda: todos os dias, faça sol ou faça chuva, passo, por volta das sete da manhã, por uma bicha de pelo menos umas quarenta pessoas (o número vai variando) à porta de um serviço público que abre às nove da manhã. São quase todos estrangeiros à procura resolver os seus processos de nacionalização. Quem precisa da Covid ou do incêndio da Mouraria para perceber o inferno que o Estado criou para a gestão da imigração e afins, é mesmo porque sem esses acontecimentos dramáticos não quer ver o que o quotidiano lhe mostra

21 comentários:





  1. Errado!!! Grande parte dos imigrantes na Mouraria provêem do Bangladeche, um país culturalmente muçulmano. Vá o Henrique à Mouraria e o que mais vê são talhos e restaurantes halal. Há lá também uma sala de orações islâmica.

    ResponderEliminar
  2. Ora aqui está um bom post,o qual diagnostica com realismo um dos problemas mais graves do presente e do futuro próximo deste Rectângulo/ País. Mas já a seguir virão alguns "balir" contra os factos que colocam em causa a agenda politica,social e cultural em marcha já há alguns anos (ou décadas) em nome do progressismo e das portas abertas para tudo e todos sem reservas ou condições. 

    ResponderEliminar
  3. Não fui ver os dados e conheço melhor a situação dos trabalhadores rurais sazonais.
    Onde foste buscar os dados sobre a imigração para verificar qual de nós tem razão?

    ResponderEliminar

  4. Interpretei, talvez erradamente, "as condições de vida que motivam toda esta conversa" como referindo-se às condições de vida na Mouraria (mais exatamente, nalgumas ruas, não todas, da Mouraria), e não em Odemira ou noutros sítios, que não conheço.

    Ora, eu vou com alguma frequência à Mouraria (compro lá alguns produtos, em lojas de bengalis) e, tanto quanto me parece, grande parte das pessoas que lá vivem são bengalis e muçulmanas.
    Em Odemira não sei, provavelmente não será o caso.

    ResponderEliminar
  5. Fui verificar os dados, há perto de dez mil pessoas do Bangladesh, em Portugal (2020), dos quais, oito mil em Lisboa.
    Acredito que com uma população estrangeira de várias centenas de milhar, talvez não chegue para alterar o meu argumento (embora seja verdade que esteja a falar de uma categoria específica de imigrantes, em que o Bangladesh poderá ter um peso maior e por isso justificar que eu não tivesse escrito "esmagadora".

    ResponderEliminar

  6. um dos problemas mais graves do presente e do futuro próximo deste Rectângulo/ País


    A que problema se refere, exatamente? Ao problema da falta de habitação?

    ResponderEliminar
  7. Já agora, é o 17º país na lista dos países de origem da nossa imigração

    ResponderEliminar
  8. Por fim, vindos da Índia são o triplo, vindos do Nepal são o dobro.

    ResponderEliminar

  9. Sim, mas não estamos a falar de imigrantes em geral, e sim de imigrantes que têm condições de vida, ou mais exatamente de habitação, específicas. Ou seja, de imigrantes que vivem em habitações sobrelotadas, ocasionalmente no regime de "cama quente". Esses imigrantes são, suponho eu, apenas uma muito pequena parte do número total de imigrantes.
    Eu sobre os imigrantes que vivem nessas más condições e que trabalham na agricultura pouco sei, só me referi àqueles que moram nalgumas ruas da Mouraria. E desses, não tenho qualquer dúvida que muitos são muçulmanos, especificamente do Bangladeche.

    ResponderEliminar

  10. "...Implicitamente, reconhece que a imigração pode trazer problemas sociais sérios,....". Sociais e não só.

    Migrações oportunistas e/ou ingénuas dão maus resultados.



    A presente guerra no Leste da Ucrânia -com todo o horror que a caracteriza- tem basicamente como origem a migração descontrolada de populações russas, mais pobres, para as regiões ucrânianas, vizinhas, mais ricas.

    ResponderEliminar




  11. Estrangeiros ou portugueses, SEF, SS, IEFP ou centro de saúde.
    As filas são produto da má organização dos serviços, o que é irónico depois de anos de simplexes e num mundo tecnologicamente avançado quando comparado com os 80, em que a malta fazia filas de kms para tirar o BI. Muito se fala em "reformas estruturais", não seria difícil uma mente qualquer refazer o modo de acesso aos serviços públicos, já ajudava a vida do cidadão.


    Quanto ao SEF e processo de naturalização em particular, também resulta em boa parte do mau Estado, em que o pior não é a burocracia em si, mas a subjectivdade da mesma. Acredite-se ou não, 2 funcionários dão respostas diferentes à mesma questão, e não existe um, chamemos-lhe guia, documento que alguém possa inequivocamente seguir de modo a finalizar o processo. Mais uma vez, faltam as ditas reformas, não sei se por preguiça, falta de cérebro, ou simplesmente porque há forças de bloqueio que não abdicam do poder absoluto no seu pequeno feudo.

    ResponderEliminar

  12. Imigração sem apropriado critérios e rigoroso controle, irá criar drmáticos problemas com as segundas e terceiras gerações de esses imigrantes. Uma bomba relógio que, sintomaticamente, não preocupa, hoje, políticos de aviário.

    ResponderEliminar
  13. Temos milhões de pessoas que pertencem à civilização católica de Matriz portuguesa é com essas pessoas que se deve fazer grande parte do repovoamento de Portugal!!! Com Mecas, judeus, protestantes é o mesmo que promover a destruição da cultura portuguesa como se vê já em muitos bairros do centro de Lisboa!!! 

    ResponderEliminar
  14. “…Helena Matos, com o seu habitual bom senso…” a sério? a sério ?consegue escrever isto sem se rir?!

    ResponderEliminar
  15. Infelizmente há muitas Sás Lopes, pessoas que só admitem que há um problema factual, quando passam por uma experiência que as atinge directamente. Nessas alturas em que se vêem a braços com a relidade nua e crua, aí já lhes dói! 
    Fora disso, pode tudo arder à sua volta, conquanto não lhes toque, nem as incomode...  nem perturbe a sua área política.


    O episódio que se passou com a Ana Sá Lopes, num Hospital público, é o paradigma do jornalismo pouco profissional (pouco isento) destes activistas cheio de estados de alma. Certamente a outros, mais imparciais, lhes soariam imediatamente as campainhas, perante tudo o que tinham observado e presenciado dentro daquele hospital. Não é esse o métier dos jornalistas, extrapolar a observação, questionar e alagar a informação?
    Suponho que este caso concreto despertaria a curiosidade inata e o "faro" jornalístico de qualquer profissional: tudo  indicava que, provavelmente, havia ali um "furo" jornalístico, matéria de interesse, por levantar suspeitas sobre o  dos serviços públicos do país. No mínimo, o assunto pedia uma investigação.
    Mas não. Afinal a "notícia" ficou por aí, circunscrita a um episódio de dimensão pessoal _ uma espécie de desabafo, de uma grande maçada! A "agenda" não deu para mais. E ninguém se levantou. Típico! Primeiro a  ideologia.
    Por outro lado, haverá sempre As Mil e Uma Maneiras de Queimar a "direita", falseando, enviesando os assuntos, sem tentar percebê-los _ como foi o caso que refere _  torpedeando e desqualificando as intervenções, sem qualquer interesse em clarificar _ (às vezes não vá a realidade perturbar a "narrativa" estabelecida  oficialmente sobre a direita e fazer algum estrago nas "convicções" mais vacilantes...)
     Suspeito que há uma justificação para tal:  estes jornalistas de "causas" que se juntam às tendências dominantes e se colocam sempre do lado "certo" sabem, no fundo, que é preferível não se saber muito, nem aprofundar demasiado as coisas do "poder" e deixar tudo como está.  A intromissão  em certas áreas, por parte das pessoas com curiosidade excessiva, pode trazer-lhes amargos de boca  e dar-se mal. Não foi "a curiosidade que matou o gato"? Logo, a quem quiser sobreviver, não convém "espreitar" demasiado.

    ResponderEliminar
  16. Este blogue está a ficar desagradavelmente infestado de anónimos. Penso que seria boa ideia pôr-lhes cobro.

    ResponderEliminar
  17. "Em tempos de fraude universal dizer a verdade é um acto revolucionário". Frase atribuida a George Orwell  ------------ O jornalismo actual é obviamente uma parte importante dessa fraude. 

    ResponderEliminar
  18. Sem dúvida que são tempos de fraude, engano, manha, logro, trapaça, peta, ardil... 
    Por isso convém distinguir bem a gente matreira e ardilosa que "sabe levar água ao seu moinho". Parece que há uns cegos que andam a comprar-lhes  "gato por lebre".
    Partilho um pequeno vídeo (recebido por whatsapp) muito ligeiro, que "vale o que vale". Enfim, dentro do género e em  apenas 2m , não se podia exigir mais. Mas, ainda assim, diz algumas verdades inatacáveis de tão óbvias.


    https://www.youtube.com/watch?v=t08Dhcu4EfA

     

    ResponderEliminar
  19. Okay vou ver(até porque não tenho tempo e paciência para videos longos). Só convinha que usa-se um nome (qualquer um) para o distinguir de outros anónimos no futuro. Não, não sou a favor de censura contra quem vem comentar como anónimo (mesmo que esses coments não me agradem)mas convém usar um nome para não haver confusões. 

    ResponderEliminar
  20. E pior ainda é "termos" um inquilino de Belém que em nome do bom senso (?)  ataca quem sensatamente quer algum controlo na imigraçao. Mas vindo de onde vem já não odemira. 

    ResponderEliminar

Cara Isabél Zuaa

Depois da cena de Guimarães, em que a Isabél resolveu não actuar porque achou que não havia condições, andei à procura de alguma informação ...