sábado, 22 de outubro de 2022

Cansaço

"foram muitos os comentadores que se apressaram a gritar em alto e bom som que as medidas fiscais não resultaram, quando o que falhou teve pouco a ver com impostos. Bem pelo contrário, o que Liz Truss fez foi prometer um aumento de despesa pública significativo, através de uma garantia de fixação do preço de energia aos britânicos por dois anos, o que resultaria num pesado aumento do défice e da dívida pública, que, segundo o Deutsche Bank, se estimava em 200 mil milhões de libras. A medida que mais foi falada na imprensa, o corte da taxa máxima de IRS de 45% para 40% para rendimentos superiores a 150.000 libras representava apenas 1% do custo que os mercados estimavam para o pacote energético. Para quem tem grande dificuldade em entender grande números, a dívida pública total portuguesa contraída ao longo de décadas de défices acumulados, é da mesma ordem de grandeza que os mercados estimavam para o pacote de Liz Truss em apenas dois anos."


João Caetano Dias, hoje, no Observador, explicando de forma simples a estupidez de considerar que foi o liberalismo de Truss que deu origem aos problemas do governo britânico.


Esta explicação, mais complicada ou mais simples, tem vindo a ser dada por várias pessoas.


No entanto, a quantidade de pessoas que se estão nas tintas para os factos e insistem na tese de que o chumbo do orçamento de Truss pelos mercados demonstra que as políticas de redução de impostos não funcionam, continua a ser imensa.


A ideia de que os mercados são tão violentamente contra as descidas de impostos que se revoltam, da forma como o fizeram em relação a Truss, é divertidíssima em si mesma, mas ver retintos estatistas a defendê-la com unhas e dentes é ainda muitíssimo mais divertido, independentemente da evidente tolice.


E, no entanto, a quantidade de pessoas que a leva a sério tudo isto é extraordinária e bem reveladora do nível de crendice que assola o debate público sobre o governo do país.


Não admira que, com este nível de obscurantismo, seja fácil um bom ilusionista ter maiorias absolutas.

7 comentários:

  1. 'a dívida não é para pagar ...'
    estupidez citadina 'desista! desista! vá para jornalista'
    cuidado com a cobra cuspideira e a maioria absolutista e falhada. a AR anda muito abrilhantinada e jericada
    PPC começa a ser falado

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  2. Não totalmente ao lado : há que "agradecer" à classe jornalÍstica portuguesa o ter , comparativamente, restituído dignidade à " mais velha profissão do mundo"...
    JSP

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  3. a estupidez de considerar que foi o liberalismo de Truss que deu origem aos problemas do governo britânico


    Eu diria que não foi estupidez, mas sim falta de informação, ou má informação.


    Aquilo que se disse cá no burgo foi que a principal proposta de Kwasi Kwarteng / Liz Truss consistia em descer os impostos para os mais ricos. Nada li sobre a proposta deles de pagar a energia às pessoas durante dois anos.


    Ou seja, não fomos adequadamente informados sobre as propostas deles, e portanto não as pudemos julgar adequadamente.


    Isto é supondo que, evidentemente, a informação que João Caetano Dias (JCD) nos dá no seu artigo, de que Kwarteng / Truss pretendiam pôr o Estado a pagar a energia durante dois anos, está de facto correta. Não sei onde é que JCD leu isso...

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  4. Veja-se por exemplo a seguinte frase, extraída do editorial do Economist desta semana:


    "Kwarteng was kicked out of his job because of the market reaction to his package of tax cuts."


    Esta frase dá claramente a entender que, ao contrário do afirmado por João Caetano Dias, aquilo que Kwarteng fez de mais, e que lhe custou o emprego, foi o corte de impostos. Não foi  assegurar o preço da energia - coisa que, presumo, já tinha sido feito anteriormente pelo seu predecessor.

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  5. Os mercados reagem ao que está escrito nos Orçamentos de Estado, não tanto ao que está escrito na economist

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