sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Repetindo

Leio no Observador o seguinte:


"Graça Freitas confirmou esta quinta-feira, rejeitando a ideia de tal podia significar “falta de transparência”.“É um documento interno preparatório do processo de decisão”, indicou a diretora-geral da Saúde, acrescentando que o “habitual é não serem divulgados. São documentos internos. Não são secretos. São plasmados em normas. A norma é a súmula, o resumo desses pareceres. E são plasmados em comunicados. Fundamentam as decisões que são tomadas”."


Não fui verificar fontes originais, portanto não sei se foi exactamente isto que disse Graça Freitas.


Se foi, isto é gravíssimo e não tem nenhuma relação com a epidemia mas sim com a natureza da administração pública, até porque não há nada de original nesta citação de Graça Freitas, corresponde ao que 99% dos dirigentes da administração pública diriam e pelos menos 85% dos técnicos que trabalham na administração pública (a diferença de percentagem prende-se apenas com os que, não sendo ignorantes, são macacos velhos para quem o seu critério principal de decisão é a manutenção da sua posição e não a lei).


E é isso que é o mais grave: o facto da generalidade da administração pública ser capaz de fazer afirmações como a citada.


Um documento preparatório para uma decisão é público, é a lei que o diz, de forma claríssima, limitando-se a admitir que enquanto a decisão não for tomada (ou não tiver passado um ano, o que ocorrer primeiro) a divulgação destes documentos internos passa ser diferida até à tomada de decisão (ou à passagem de um ano, o que ocorrer primeiro).


Até aqui há muito quem tenha escrito sobre esta parte das declarações, o direito de acesso a documentos administrativos.


Mais grave, muito mais grave, é a parte final das declarações.


"São plasmados em normas. A norma é a súmula, o resumo desses pareceres. E são plasmados em comunicados. Fundamentam as decisões que são tomadas”."


É que é impossível que a Senhora Directora Geral da Saúde desconheça por completo o Código do Procedimento Administrativo (pela experiência que tenho, a generalidade dos funcionários públicos desconhecem o código do procedimento administrativo e ficam muito espantados quando se lhes mostra o que lá está escrito e as obrigações e defesas que dele constam).


Citemos então.


"Para efeitos do disposto no presente Código, consideram-se regulamentos administrativos as normas jurídicas gerais e abstratas que, no exercício de poderes jurídico-administrativos, visem produzir efeitos jurídicos externos."


"1 - Os atos administrativos devem ser notificados aos destinatários, designadamente os que:
...
b) Imponham deveres, encargos, ónus, sujeições ou sanções, ou causem prejuízos;
c) Criem, extingam, aumentem ou diminuam direitos ou interesses legalmente protegidos, ou afetem as condições do seu exercício.
2 - Da notificação do ato administrativo devem constar:
a) O texto integral do ato administrativo, incluindo a respetiva fundamentação, quando deva existir;"


"1 - Para além dos casos em que a lei especialmente o exija, devem ser fundamentados os atos administrativos que, total ou parcialmente:
a) Neguem, extingam, restrinjam ou afetem por qualquer modo direitos ou interesses legalmente protegidos, ou imponham ou agravem deveres, encargos, ónus, sujeições ou sanções;"


"1 - A fundamentação deve ser expressa, através de sucinta exposição dos fundamentos de facto e de direito da decisão, podendo consistir em mera declaração de concordância com os fundamentos de anteriores pareceres, informações ou propostas, que constituem, neste caso, parte integrante do respetivo ato.
2 - Equivale à falta de fundamentação a adoção de fundamentos que, por obscuridade, contradição ou insuficiência, não esclareçam concretamente a motivação do ato."


Uma Directora-Geral que afirme que as normas são a síntese dos procedimentos e portanto os documentos que fundamentam essas normas não são públicos por serem a mera fundamentação das normas, está simplesmente a ignorar princípios fundamentais que a lei consagra como direitos individuais.


Que o possa fazer sem escândalo (neste caso deu algum escândalo por ser uma matéria mais controversa em que o unanimismo em relação à epidemia diminuiu bastante), que o possa fazer com o acordo dos responsáveis políticos, que o possa fazer sem uma comunicação social que a confronte com a evidente ilegalidade do que está a dizer, que o possa fazer com o apoio ou pelo menos o encolher de ombros das elites, que o possa fazer sem o menor risco para si própria, como se a lei fosse um mero pormenor a que é preciso encontrar a escapatória formal (ou ignorar com uma razão convincente, se não houver escapatória), isso sim, reflecte bem o respeito que temos pela lei, enquanto comunidade.

8 comentários:


  1. são macacos velhos para quem o seu critério principal de decisão é a manutenção da sua posição e não a lei


    Mas não é precisamente isso que Graça Freitas é?

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  2. reflecte bem o respeito que temos pela lei, enquanto comunidade


    Não tem nada de surpreendente. Desde há dezenas de anos que os juízes portugueses continuam a julgar casos de alegada difamação e ofensa à honra como se em Portugal não valessem as leis do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em alguns casos afirmando explicitamente que tais leis não se aplicam em Portugal. Portugal tem repetidas vezes sido condenado pelo referido Tribunal por violar as suas leis (com prejuízo para os contribuintes portugueses, que são forçados a pagar as respetivas coimas) mas diversos juízes continuam, impávida e serenamente, a não aplicar essas leis. E diversos políticos e manda-chuvas (com destaque para um bem conhecido Paulo Rangel) continuam a colocar processos em tribunal como se as leis do Tribunal Europeu fossem letra morta em Portugal.

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  3. Se alguém tinha dúvidas que nos tratavam como atrasados mentais, penso que agora ficaram desfeitas. E se alguém tem dúvidas que nos estão a esconder alguma coisa, é só pedir para ler os pareceres dos peritos.
    Qual é o objectivo? Para quê esta fobia, esta perseguição, esta loucura?
    O füehrer da Madeira já vacinou toda a gente e voltou a ficar na zona vermelha. Porquê, será que ninguém vê? 
    Qual é a urgência agora de vacinar crianças saudáveis? Que crime é este?
    Não há ninguém que pare esta insanidade?
    Parem com a loucura, já chega.

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  4. Qual é a urgência agora de vacinar crianças saudáveis?


    O Estado não vai vaciná-las. Quem o vai fazer são os pais que o quiserem. O Estado somente vai disponibilizar a vacina e organizar a vacinação.


    Pelo menos por enquanto.

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  5. Caro Henrique Pereira dos Santos


    è sempre com um meio sorriso, de admiração, que leio os seus posts no "Quebra Fitas":
    _Pela sua investigação meticulosa dos assuntos; pela cuidada e demorada exposição dos seus argumentos; pela intransigência nas suas tão bem fundadas convicções.
    Só tenho pena que não sejamos ( eu incluído ) um país de H P Santos.


    Com os meus cumprimentos


    Vasco Silveira

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  6. Há alguma razão para se perseguir OS NÃO VACINADOS?
    Será por serem saudáveis?
    Os vacinados com a 3ª dose estão imunes, se estão tão GARANTIDOS, conforme se afirmou que a 1ª dose imunizava a 87,90,95,97% porque se temem OS SAUDÁVEIS?
    O Covid não chegava cá!
    A máscara é uma falsa proteção
    A 1ª dose Imunizava com certezas.
    A imunização de grupo começava nos 65%
    Com os 95% a imunização continua a não existir.
    Governantes que mentem sem escrúpulos irresponsavelmente.

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  7. Nada de especial. A questão sempre presente e nunca abordada na substância, reside no facto de como é possível que essa senhora com um histórico de ligeireza em afirmações destemperadas fora da realidade, enganos, improvisos e remendos apressados, continue a fazer o papel de ministra à margem de apropriado selo de garantia.

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  8. Você está a brincar, com certeza. Onde é que está a liberdade de escolha?
    Já não basta os adultos serem ostracizados e discriminados por não tomarem a vacina, com os putos vai ser exactamente a mesma coisa com a agravante de potencializar o bulling nas escolas.
    A chantagem moral é imensa, a pressão social exercida através dos média atingiu níveis inimagináveis num estado democrático. 
    Não balio, o estado não vai vaciná-las. O estado está é a cometer um crime e a condenar uma geração inteira a servir de cobaia para fins muito pouco claros.

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...