sábado, 11 de dezembro de 2021

Aprendizes de feiticeiro

"O pior que nos podia agora acontecer é que os portugueses, que sempre compreenderam a importância das vacinas e a sua eficácia, pudessem de algum modo ficar com dúvidas acerca da sua toma e por isso mesmo devemos ser exigentes no que toca à recomendação de vacinas, ou seja, estas recomendações não podem ser banalizadas nem feitas de ânimo leve, sem que se tenham feito todos os estudos e ponderado todas as variáveis".


Diogo Prates, médico e com me cruzei pessoalmente uma vez nas minhas lides de apoio à Iniciativa Liberal, hoje, no Observador.


Esta questão sobre as decisões em matéria de vacinação de crianças (e, já agora, de adolescentes) é uma questão muito séria e com potenciais repercussões no futuro numa questão central dos programas de vacinação: a confiança das pessoas comuns em quem decide sobre estes assuntos.


Em Portugal a vacinação, até à Covid, não tinha problemas de maior: as pessoas tinham (e têm, sejamos claros) uma enorme confiança no sistema de vacinação e o sistema de vacinação é bastante bom e está bem organizado.


Como resultado, sem necessidade nenhuma de vacinas obrigatórias (embora existam mecanismos quase coercivos como a ligação da vacinação à inscrição nas escolas), Portugal tem uma cobertura vacinal invejável (independentemente das dificuldades com a vacinação da gripe, por exemplo, mas que são dificuldades geríveis).


Ao não deixar claro o que se pretende com a vacinação de crianças, ao forçar essa decisão, ao procurá-la manter fora do debate público, Graça Freitas, a DGS e a enorme quantidade de pessoas envolvidas proselitamente na defesa de tudo e mais alguma coisa relacionada com a posição oficial sobre o assunto (estou estupefacto com a quantidade e qualidade de gente que de repente passou a defender que o povo era incapaz de gerir informação complexa e por isso era perfeitamente justificável a opção de Graça Freitas, seja sob a forma de defesas primárias, seja sob a forma sofisticada de defesas que recorrem a paralelismos absurdos, como exigir a todos os jornais que façam ligações directas a todas as fontes que usam nos artigos mais relacionados com a produção de informação mais técnica), o que se está a fazer é o jogo perigoso de trocar êxitos de curto prazo, por desconfianças futuras face ao sistema.


"Se o país conseguir garantir a vacinação de 85% das crianças, os números reduzem. Passariam a ser 18.404 casos de infeção entre as crianças — uma redução de 27.038 casos, o que equivale a um corte de 40%. Os internamentos em enfermaria seguem a mesma tendência, caindo de 182 para 35 (queda de 19%), enquanto as camas ocupadas por doentes críticos ou muito graves descem de 20 para 4. Também os casos de MIS-C, com as crianças vacinadas, diminuem de 18 para 12".


A pergunta central face a esta informação é a seguinte: qual é o problema de ter mais 45 mil infecções de crianças, 182 internamentos em enfermaria e 20 internamentos em UCI (números resultantes de modelação matemática, no pior caso possível, sem vacinação) que justifique os recursos que vão ser alocados à vacinação de crianças?


É que isto é feito com prejuízo de grupos sociais de muito maior risco (para já não falar da imoralidade associada à não vacinação de grupos de risco em países do terceiro mundo porque o primeiro mundo se entretém neste "encarniçamento médico" contra uma doença que, nas crianças, é uma doença benigna, seja qual for o critério de comparação usado face aos riscos de muitas outras doenças, incluindo a gripe).


Uma coisa é autorizar a vacinação, e definir comparticipações do Estado associadas a essa vacinação (eu defenderei sempre a condição de recursos para essas comparticipações, mas admito que é uma posição de princípio que pode ser contrariada por questões práticas relevantes), outra é a decisão tomada que corresponde a desviar recursos brutais para um retorno social, seja medido pela protecção directa das crianças, seja pelo ganho social, que é marginal, face à aplicação dos mesmos recursos em problemas reais e de muito maior magnitude para as crianças e para a sociedade.


Graça Freitas diz hoje no JN: "Não vacinar não é um ato neutro, é não proteger".


Se quanto à primeira parte da frase não me parece que haja quem tenha dúvidas, quanto à segunda parte há um mundo enorme de discussões possíveis, mesmo reduzindo as questões a uma pergunta simples: é não proteger a que custo de oportunidade, face a que risco?


É que os recursos não são infinitos, portanto usá-los numa coisa é não os usar noutra.


Sem explicar exactamente por que razão esta é o melhor uso dos recursos que existem para a gestão da epidemia, em detrimento, por exemplo, da maior protecção de grupos mais vulneráveis (o argumento de que com todas as criancinhas vacinadas se acabam os isolamentos de turmas é um argumento velhaco, porque a decisão de isolar turmas em vez do test and stay de boa parte dos países europeus é uma opção de gestão da epidemia que poderia ser banida sem mexer na vacinação, pelo que o mínimo exigível seria saber por que razão Portugal faz esta opção, ao contrário de muitos outros países), todo o discurso sobre a vacinação de grupos não vulneráveis tem um enorme potencial para minar a confiança das pessoas comuns no sistema de vacinação, no longo prazo.


Aparentemente, isto parece que não é assunto, portanto, provavelmente, sou eu que estou a ver mal a questão.

3 comentários:

  1. é assunto sim senhor https://observador.pt/opiniao/o-segredo-e-a-alma-do-socialismo/

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  2. Com gente que fez o frete e a vénia a um assaltante do poder sem escrúpulos, o que seria de esperar para além de incompetência, arrogância atropelos de carater e arte da manha com estatuto de impunidade? 

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  3. Não, não está a ver mal o assunto, antes pelo contrário. 
    O que eu também nunca percebi foi a forma de premiar os vacinados. Porque é que o prémio dos vacinados há-de ser o castigo dos não vacinados? Porque é que o prémio dos vacinados não pode ser monetário, ou uma viagem, ou um sorteio qualquer?
    Não prejudicava a vida aos não vacinados, não havia discriminação nem havia razão para o assédio moral. 
    Com a vacinação das crianças vai ser pior em que toda a comunidade escolar vai ser cúmplice na generalização do bulling.
    Quando acabará a loucura?

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