O direito à asneira é sagrado.
O direito à asneira dos pais no que diz respeito à educação dos filhos é limitado pelos direitos das crianças.
Não tendo as crianças total autonomia de decisão, a definição dos limites para o direito à asneira dos pais em matéria de educação tem de ser intermediado por terceiros, isto é, pela comunidade.
Em primeiro lugar pela comunidade mais próxima, a família e amigos, depois pelas comunidades locais, depois pelo Estado central, quando estão em causa direitos que a sociedade reconhece como fundamentais, por exemplo, o direito à educação.
É por isso que quase todos reconhecemos a legitimidade de ser estabelecida uma escolaridade mínima obrigatória, mas é também por isso que aceitamos, crescentemente, que essa escolaridade mínima deve ser aferida por critérios mínimos que respeitem a hierarquia da legitimidade na educação dos filhos: família, escola, Estado central, ao ponto de aceitarmos, por exemplo, a escolaridade feita em casa, aferida por mecanismos que garantam que o direito das crianças à educação é respeitado.
Convém ter muito claros estes princípios antes de discutirmos a questão do chumbo dos alunos de Famalicão, por faltas a uma disciplina que nem avaliação tem, com base na decisão dos pais os proibirem de frequentar essas aulas.
Comecemos então por fazer notar que os alunos estão a ser castigados por uma decisão que é dos seus pais, não são os pais que estão a ser castigados pelas suas decisões, como acontece, por exemplo, quando as comissões de protecção de menores retira os filhos a pais que são negligentes, ou infligem maus tratos aos seus filhos.
Isto é, a decisão do Estado consiste em prejudicar o direito à educação dos filhos com base em procedimentos que, em tese, visam exactamente garantir esse direito à educação e por isso o fundamental é tentar perceber como se chegou aqui.
Em Portugal, o Estado central entende que tem legitimidade para impedir as escolas de venderem pastéis de massa tenra para proteger a saúde dos alunos.
Isto é, o Estado central entende que nem a escola, nem as famílias, nem os alunos devem ter autonomia de decisão suficiente para decidir entre comer um pastel de massa tenra ou uma maçã. E a sociedade, quanto mais não seja por omissão, aceita que assim está bem.
Há uns pais de uns alunos que acham que isso assim não está bem e reivindicam o seu direito a decidir sobre a educação dos filhos, impedindo-os (aos filhos) de cumprir a regulamentação existente.
O que seria normal é que, em primeiro lugar, o assunto não saísse do estrito âmbito da escola: a escola deveria ter autonomia para avaliar qual é o superior interesse da criança e decidir de acordo com o superior interesse da criança.
É do interesse da criança fazê-la chumbar por não ir às aulas de cidadania?
Não, evidentemente, portanto o assunto deveria ser decidido na escola, com os pais, se possível, sem os pais, se necessário - entenda-se, se o superior interesse das crianças estiver a ser prejudicado pelos pais.
O relevante aqui é que a limitação do direito à asneira dos pais deveria, em primeiro lugar, ser decidida por escolas que deveriam ter autonomia para aplicar modelos educativos que, respeitando um conteúdo escolar mínimo que se entende que é o que respeita o direito à educação das crianças, poderiam ter uma grande diversidade.
O que lhes permitiria lidar mais sensatamente com a diversidade das sociedades complexas.
A pergunta que a escola deveria fazer-se a si mesma é se a ausência de frequência da disciplina de cidadania representa uma perda irreparável para os alunos, ou melhor, representa uma perda maior que o chumbo que daí resulta.
Conheço o argumento de que é preciso estabelecer limites, sob pena de se reconhecer o direito dos pais a proibir os filhos de ir às aulas de matemática (ou, para usar um argumento mais perto da realidade, o direito dos militantes radicais anti-racistas impedir os filhos de frequentar aulas de história que entendem que reproduzem o racismo estrutural que os prejudica).
E a resposta é sim, os pais devem ter autonomia para proibir os filhos de ir à escola, ou frequentar disciplinas que entendem que ofendem os seus valores, cabendo, em primeiro lugar, à escola, dirimir esse conflito.
E no caso da escola decidir, por exemplo, contra pais que impedem os filhos de frequentar a escolaridade mínima obrigatória, deve ser aos pais que se aplicam as sanções, sejam elas pecuniárias (multa diária), sejam elas de retirada da tutela dos filhos.
Ora neste caso o conflito é entre uns pais que têm a coragem de afirmar os seus valores, tendo contra si todo o Estado, incluindo o seu sistema escolar, podendo estar a fazer uma enorme asneira (é um direito que lhes assiste) e um Estado cobarde que tem medo de lhes retirar a tutela dos filhos por entender que estão a prejudicar irremediavelmente o direito à educação dos filhos.
E, por ser cobarde, descarrega nas crianças os custos das decisões dos pais que considera erradas.
Eu tenho esta tendência, liberal, de estar do lado dos fracos contra o poder ilegítimo dos Estados.
ResponderEliminarPois, mas, como o Henrique muito bem fez notar, no limite, a aplicação deste argumento destruiria completamente a escola. Porque uns pais poderiam impedir os filhos de frequentar a disciplina de História (que é racista e colonialista e esclavagista), outros pais poderiam impedi-los de frequentar a disciplina de português (que ensina coisas complicadas, como a leitura dos Lusíadas, que de nada servem para as crianças, e que ensina uma língua que não serve para nada), e outros pais poderiam impedir os filhos de frequentar a disciplina de Ciências (que ensina coisas melindrosas como a reprodução dos animais). Outros pais ainda poderiam impedir os filhos de perder tempo em disciplinas totalmente inúteis, como a Música ou o Francês. Muitos outros pais ainda gostariam que os filhos não frequentassem (ou não tivessem que obter aproveitamento) a Educação Física.
No limite, a escolaridade obrigatória acabava. Porque a única coisa incontroversa que ela ensina é a matemática e o inglês. Todas as outras coisas que ela ensina são, ou inúteis para a grande maioria dos alunos, ou até contestáveis.
ResponderEliminarPoder-se-ia falar do caso de uma escola, salvo erro aqui na zona de Lisboa, que está a impedir dois alunos de entrarem nela porque eles se recusam a usar máscara (por alegadas razões médicas).
Em França já houve problemas piores, com pais que não deixavam as filhas frequentar a escola a não ser que elas pudessem ir com um véu sobre a cabeça, coisa que a escola pretendia impedir.
Caro Senhor
ResponderEliminarHenrique Pereira dos Santos
Quero agradecer-lhe, e felicitá-lo pela clareza da exposição da sua argumentação: parecia a resolução de um problema matemático - tudo se tornou fácil e óbvio.
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira
Caro Henrique: conheço especialmente bem a família em causa, de quem sou bom amigo.
ResponderEliminarPosso afiançar tratar-se de pais excepcionalmente responsáveis e atentos à educação dos filhos.
Sucede entenderem que a tal disciplina contende, pelo penos no modo como é dada a matéria, com os seus princípios, ideais e convicções.
Se a disciplina fosse "Religião" seria optativa; como não (embora se ande à volta de temas relacionados), não é.
O Estado (tribunais) é tão mais alucinado quanto decretou a providência cautelar consentindo os miúdos não frequentassem a aula, no passado ano lectivo. Agora determina a sua reprovação.
Os miúdos tiraram nota máxima a tudo.
E os funcionários públicos que dirigem a escola que eles frequentam também podem limpar as mãos à parede.
Abraço.
Caro João,
ResponderEliminarEvitei discutir a substância da razão dos pais, porque me pareceu inútil: é a possibilidade do Estado central, incluindo o seu sistema judicial, se sobrepor às famílias e às escolas, em matérias que evidentemente não dizem respeito a direitos fundamentais, que me incomoda em primeiro lugar.
ResponderEliminara tal disciplina contende, pelo penos no modo como é dada a matéria
Isso será possivelmente culpa, não da disciplina e do seu programa, e sim do professor e da forma como ele decide lecionar.
Há disciplinas que, tendo emboa um programa inócuo, podem ser dadas de forma nada inócua.
Por exemplo, eu tenho um filho na disciplina de Introdução à Política do 12º ano. O professor dessa disciplina é, de acordo com o que o meu filho conta, de esquerda radical (tipo BE) e não se exime de o mostrar. Alunos que não falem de acordo com o que ele gosta são castigados.
O meu filho é habilidoso e topa bem as coisas, por forma a não cair nas más graças do professor.
Em vez de estarem a contestar o conteúdo da disciplina e a levantar uma questão com a escola, os referidos pais talvez fizessem melhor em fazer queixa do professor. Porque o problema poderá estar no professor, não no programa da disciplina.
De qualquer forma, para alunos minimamente adultos, as coisas que o professor diga não fazem dano nenhum. Esses pais manifestam ter pouca confiança no discernimento e autonomia dos filhos. Filhos minimamente inteligentes não se deixam desviar do caminho reto por um professor qualquer.
ResponderEliminaros funcionários públicos que dirigem a escola podem limpar as mãos à parede
Não, esses funcionários não têm culpa.
Se eles tolerassem que uns alunos não frequentassem a disciplina X e não fossem penalizados por isso, logo apareceriam outros alunos que se recusariam a frequentar a disciplina Y.
Tal como o Henrique muito bem fez notar, a disciplina de História também contém coisas contestáveis. E a disciplina de Ciências também deve conter. E outras, e outras...
O direito das crianças não foi respeitado nem no caso de Famalicão, nem no caso das máscaras e nem no caso da vacinação de crianças.
ResponderEliminarNo caso de Famalicão a disciplina em causa pode ser equiparada à antiga Religião e Moral que era facultativa e com uma elevada carga ideológica.
No caso das máscaras os miúdos têm justificação médica, e eu falo por mim, que já tive um ataque cardíaco e as máscaras impedem um normal fluxo de oxigénio.
No caso da vacinação dos putos, é um crime, está a ser prejudicada uma geração inteira para beneficiar uma geração muito mais velha.
Em nenhum dos casos foi salvaguardado o superior interesse da criança.
O caso de Famalicão é apenas uma birra da parte do poder, pois é sabido que é fácil influenciar os jovens, basta lembrar quando andaram a recrutar os miúdos para o estado islâmico.
Se a disciplina é facultativa qual é o problema da falta de comparência?
ResponderEliminarHá outro ponto de vista para esta questão.
Tal como o Henrique bem diz, em Portugal é permitido, pelo menos em certos casos, que crianças não frequentem a escola e sejam lecionadas pelos seus pais (ou por terceiros) em casa.
Mas, se isto é assim, então porque é que faltas são punidas com "chumbo" de ano letivo? Se se admite que algumas crianças podem aprender em casa, porque é que se castiga as restantes crianças por elas não virem à escola?
Eu diria que, se os pais são informados de que a criança faltou a uma ou mais aulas e não se importam com isso, e se ademais (muito importante!) a criança faz todos os testes exigidos com nota positiva, então a riança não deveria chumbar de ano...
"
ResponderEliminarEste caso que se arrasta há tanto tempo já devia ter tido solução sensata e definitiva. Porque não se sentam à mesma mesa todas as entidades relacionadas com o caso? Formam-se tantos grupos de trabalho,às vezes até sobrepondo-se a outros já constituídos e que neste caso se justificava? Enche-se tantas vezes a boca com a afirmação do "superior interesse da criança" que aqui faria todo o sentido. Será que a disciplina em causa é fundamental no currículo do ensino geral? Vivendo nós atualmente num mundo global será que terá correspondência com disciplinas equivalentes no ensino de outros países? Ou será apenas considerada importante no ensino nacional? Enquanto criança ou jovem até onde vai a responsabilidade da família em situações que possam estar fora da alçada do Estado? Temos exemplos do século passado em que se critica o poder de alguns países na formação da juventude em que a família era ignorada. São esses exemplos que queremos seguir? Ou estamos a passar atestados de ignorância às atuais famílias? Haja pois bom senso de todas as partes,mas não prejudiquemos aqueles que serão as maiores vítimas:os jovens que brilhantemente estão a cumprir o seu caminho e a obter o seu destino. E que os adultos sejam dignos do lugar que cada um ocupa.
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ResponderEliminarPermito-me felicitá-lo pela clareza da sua exposição. Deixe, no entanto, que saliente que me parece ser em torno dos tribunais que orbita, agora, a questão objetiva.
O caos seria a alternativa indesejável a uma decisão objetiva e legal sobre esta questão que, de uma forma ou de outra, todos nós sensibiliza, qualquer que seja o ponto de vista.
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/11/o-caos-seria-alternativa.html
ResponderEliminarNos EUA um Governador de esquerda, o partido que vai para mais de 20 elege governadores, de esquerda, no Estado de Vergínia, durante a campanha eleitoral afirmou que lhe pertence a ele, Governador, o direito de obrigar os pais a aceitar disciplinas escolares a seu (muito mau) gosto.
Chegou a impor aos pais, com acção policial, esse predomínio
estatal em prejuizo do querer dos pais.
Esta 3ª feira em eleições muito concorridas, perdeu o seu lugar de Governador. Ganhou o outro candidato, um republicano, que disse ir e obviamente decidir a favor no interesse dos pais que apenas desejam a escola a ensinar, matemática, geografia, ciências....
O ex-governador, esquerdista, dava primazia à obtusa usual formação política de esquerda, aos jóvens, nas escolas. Portugal não é os EUA.
Se o seu filho é habilidoso, Balio, então tem futuro!
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ResponderEliminarJoão-Afonso Machado,
A prova acabada de que este, o actual Estado é senhor de um poder discricionário e prepotente está no facto de não querer em absoluto resolver a questão. Quer impô-la de forma fria, implacável e autoritária, ponto final. Um exemplo de bestialidade, de desumanidade. Sem contemplações, sem pesar, sem medir nem ponderar na razoabilidade das medidas e nas suas consequências. na vida dos miúdos. É só demonstração de força bruta e irracional e de perseguição. Um caso de acosso e de assédio moral a uma família que entende seu dever proteger os filhos de serem convertidos à força à Religião do Estado. E não abrem mão disso.
ResponderEliminarTêm poder absoluto para tudo: bastar-lhes-ia, se quisessem, que o estatuto de disciplina facultativa ou opcional, à semelhança de Religião e Moral.
ResponderEliminarEstimado HPS,
Concordo! O direito à asneira é mesmo sagrado.
Mas a estupidez deveria ser tratada com a pena capital que conforme o nome indica é uma pena de se perder a cabeça.
Filho de peixe sabe nadar.
ResponderEliminarUm pai a louvar o filho que é habilidoso, topa o professor e finge-se de esquerda para ter boas notas, é obra.
Como pai e como cidadão acho esse tipo de comportamento deplorável mas o balio é que sabe que tipo de cidadão está a educar.
Grandes pais esses do Estado da Virgínia, que não se demitiram do seu papel de Pais e de serem eles a decidir e não o Estado quem tem o direito de educar e de formar os seus filhos. Grande coragem por não cederem à chantagem autoritária dum indivíduo em funções , _ como se comprovou _ e como é próprio das democracias!
ResponderEliminar(Mas existe uma certa esquerda, pouco democrática, autoritária, julga-se investida de um poder absoluto e eterno _poder que obviamente não têm num Estado democrático_ pois todos estão de passagem nos cargos que ocupam e enquanto os cidadãos os quiserem, como se viu no Estado da Virgínia).
Grandes Pais que não abdicaram do seu direito inalienável de serem eles os únicos decisores do projecto educativo que pretendem para os filhos.
Grandes Pais que usaram as melhores armas de combate de que as pessoas podem dispor: serem dos seus direitos como pais e foi exactamente essa compreensão que bastou para recusaram peremptoriamente entregar a educação dos seus filhos ao bel-prazer do Estado.
Pais como estes sabem que só nos sistemas totalitários, nos Estados tirânicos, é " normal" que os filhos sejam "confiscados" aos pais para disporem deles como coisa própria, para os educarem, os formarem segundo directrizes políticas e os ditames da ideologia oficial do Estado, com um poder de decisão inusitado que ultrapassa a família e se substitui aos Pais. Nesses sistemas as crianças "pertencem" ao Estado. Depois... segue-se um longo treino, um longo trabalho de doutrinação, com os petizes a serem formatados com lavagens ao cérebro sobre a forma como devem ser, falar, pensar, o que devem esquecer, o que devem lembrar, o que ler, o que devem denunciar, os laços que devem quebrar, etc., Dir-lhes-ão que têm uma missão superior: são os agentes de um projecto grandioso e os construtores da sociedade "ideal"! Já todos vimos o filme e todos sabemos que não tem um happy end.
ResponderEliminarHá desde logo um "defeito de fabrico" que vem de "origem": é o facto de a "tal" disciplina ser imposta como uma obsessão deste governo (temporário) através do seu Ministro da Educação (de passagem) e não ser uma disciplina de opção livre. Acabavam-se todas as querelas. Mas o poder discricionário e os tiques anti-democráticos dum governo revelam-se nos detalhes...
Este é um Poder que pode tudo. Ai de quem o belisque.
https://observador.pt/opiniao/a-familia-mesquita-guimaraes-sao-todas-as-familias/
ResponderEliminarUm texto da autoria do irmão mais velho dos dois irmãos "chumbados", que devia dar brado.
Nitidamente estamos diante de um caso de autoritarismo e de abuso de poder do governo. Submete cidadãos aos seus caprichos, impondo-lhes as modas do momento. Para responder ao título do seu post, só há uma resposta: é um poder ilegítimo
ResponderEliminarNão se sentam todos à mesma mesa, porque estamos diante do Tribunal da Inquisição, isto é, a sentença está decretada a priori. Quem se mete com o PS leva.
ResponderEliminarE os pais, no Estado da Virgínia, resolveram "castigar" essas intromissões e abuso de poder. Como? Através da forma mais simples que pode haver: com a arma do seu voto! Ficou resolvida a questão.
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ResponderEliminarChiça!
Mas tantas injecções do de leça (do lavoura) derrota qualquer blogue.
Tenho pena do HPS que o conhece bem. E dos que lhe dão palco.
ResponderEliminarPosso afiançar tratar-se de pais excepcionalmente responsáveis e atentos à educação dos filhos.
Não tenho a certeza de que seja sinal de grande responsabilidade colocar os filhos no meio de um conflito destes, ou seja, utilizar os filhos para defender uma posição política.
Não me parece sinal de grande confiança nos filhos o julgar que meia dúzia de aulas que eles tenham na escola vão transtornar completamente o modo de pensar deles.
A maior parte das crianças e jovens adquire a sua personalidade e os seus pontos de vista em função de uma evolução interna própria e das suas próprias tendências pessoais, e não obedecendo a influências de aulas dadas por professores.
Penso que estes pais deveriam pensar um bocado mais no superior interesse dos seus filhos, em vez de os fazerem joguetes de um conflito com a escola.
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ResponderEliminarE o que é que se perdia? Perdia o totalitarismo e ganhava a liberdade de aprender ou... não aprender.
Na generalidade concordo com o texto, e com a invectiva ferina que faz a um Estado burocrático (no mau, perverso, sentido do termo), autoritário (no sempre péssimo sentido do termo) e afinal cobardola: sim, se alguém não deixa os filhos cumprir a escolaridade obrigatória é-lhe retirada a tutela paternal. E seria isso que o Estado teria de fazer neste caso, se tivesse coragem para seguir em frente mas prefere assustar / quebrar a família, prejudicando os menores.
ResponderEliminarMas há um ponto na sua argumentação com o qual não concordo. Pode parecer lateral (até apenas um exemplo retórico) mas julgo que não o é assim, é mesmo central na concepção de Escola e de papel de Estado: uma coisa é o Estado proibir a venda de pastéis de massa tenra nas cantinas escolares, assumindo uma política mais ou menos detalhada de indução de saúde pública (sempre discutível, item a item ou na sua globalidade, sempre renovável [anteontem era o óleo alimentar que era bom, ontem era a margarina, hoje é o azeite, amanhã saberá Deus Nosso Senhor...]). Outra coisa é o Estado proibir que os alunos comam pastéis de massa tenra no recinto escolar. Podem as crianças levar pastéis ou afinsmaçãs na merenda inclusa na mochila? Se não puderem, se as merendas forem controladas à porta pelo contínuo, poderemos dizer que a autonomia das famílias está a ser cerceada. Mas se puderem então não está. Insisto naquilo que bloguei aquando da polémica sobre isto: há uma década o Estado legislou reduzindo a quantidade de sal utilizado na produção de pão (o mesmo tipo de política de indução de saúde pública através de regulamentação alimentar). Foi um caso de violentação da autonomia familiar, das esferas privadas? Deixemo-nos de excessos anti-Estado
Não se trata de nenhum excesso anti-estado, mas sim da definição da sua esfera de acção.
ResponderEliminarEu acho mesmo que o Estado não tem de legislar sobre o teor de sal no pão.
Pode fazer campanhas sobre isso, pode obrigar à informação dos consumidores, pode usar a fiscalidade para favorecer o pão com menos sal, pode mesmo usar esse critério nas suas compras e pode mesmo dizer que em todos os estabelecimentos por si geridos (escolas, hospitais, quartéis, segurança social, etc.) só é fornecido pão com um teor de sal até um limite, mas não tem nada que me obrigar a tratar da minha saúde.
Menos ainda aceito que uma decisão central passe por cima da autonomia das escolas e defina o que se pode ou não pode vender nas escolas, como se as escolas, as famílias e os alunos não tivessem capacidade para tomar decisões que apenas a eles dizem respeito.
Não acho mesmo que a saúde pública deva ser imposta coercivamente, da mesma maneira que não acredito em vacinações obrigatórias ou leis secas.
Caro Sr., ainda bem que aqui trouxe o tema alimentar, bastante pertinente em relação à família de Guimarães, uma vez que esta nos vem demonstrar que há muitas espécies de fomes e que _ exactamente por isso_ nem só de pão vive o homem.
ResponderEliminarSão aceitáveis, evidentemente, as preocupações do Estado em legislar sobre Saúde Pública, e incluir nelas as questões alimentares, desde que se restrinja aos espaços e organismos públicos sob tutela do Estado, embora os purismos excessivos dêem quase sempre no inevitável proibicionismo que anda na ordem do(s) dia(s).
É isso exactamente, HPS. Pedagogia! Pedagogia! Que se dê tempo para se interiorizar e aprender. Para que se façam escolhas informadas e responsáveis. Que se dê também espaço para se optar e por fim decidir-se livremente.
ResponderEliminarExactamente o oposto do que está a acontecer hoje, com a obsessão de medidas proibicionistas e tirânicas.
Henrique Pereira dos Santos eu não farei finca-pé - não o faço "por defeito"; muito menos o faria diante de si, a quem leio com o prazer do aprendizado; e porque fazê-lo neste postal até poderia dar a impressão de estar a desvalorizar o cerne da sua preocupação [a qual nos é comum], esta impertinência administrativa. E se é certo que nós, nos blogs e redes sociais, não resolvemos estas coisas, o facto de sobre elas [muito] se falar também acaba por influenciar o atrapalhado Estado. Esperemos que no bom sentido.
ResponderEliminarAinda assim, e como é fim-de-semana, alongo-me sobre esta questão lateral mesmo que sem intenção de contraditório irritante: retiro do que me diz a sua opção pela total desregulamentação da produção alimentar. E também encontro a sua crença numa espécie de omnisciência (ou melhor, de um constante, militante e supra-informada atenção) seja dos consumidores (famílias, e nos casos aludidos dos encarregados de educação e dos alunos menores) seja da "comunidade docente", a qual poderia sustentar um virtuoso mercado alimentar desregulamentado como também um "pluralismo" escolar [seja do que se vende e come nas escolas, seja, presumo-o, na delimitação curricular]. Julgo isso uma simpática utopia, e isto vai sem ironia ou, muito menos, qualquer sarcasmo. Saudações.
ResponderEliminarNão acho nada impertinente e é uma discussão bem interessante, até porque é um bom exemplo de como estabelecer limites à intervenção do Estado, sempre em nome do bem comum, claro.
ResponderEliminarDo que eu disse, não se pode inferir que eu defenda a total desregulamentação do sector alimentar, o que disse, e parece-me bem diferente, é que o modelo proibicionista é suficientemente perigoso para que se olhe para ele com atenção.
Aliás, dei vários exemplos de regulamentação que parecem estar dentro dos limites do que aceitável o Estado fazer, em alternativa à proibição.
E não, não estou convencido de que haja toda a informação e que, havendo, as pessoas agem de acordo com padrões que nos parecem racionais para defender o seu interesse próprio, digo é que a liberdade é um valor que deve entrar nessa discussão, mesmo que ninguém da saúde pública consiga estabelecer uma ligação entre a liberdade e a saúde.
Proibição da venda de cianeto, ou da utilização de mercúrio em termómetros?
Talvez, os riscos são elevados e existem alternativas razoáveis.
Proibição do consumo de açúcar ou sal (os dois principais venenos em circulação social), ou alcool?
Tenho as maiores dúvidas, mesmo que os resultados em saúde pública fossem fantásticos no prolongamento da vida muito mais chata que nos caberia viver mais tempo.
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ResponderEliminarCada vez que oiço que, agora sim , há liberdade , fico parva : que será que estas pessoas entendem por liberdade?
foi construída à nossa volta uma teia à nossa volta de leis , leizinhas , regulamentos , obrigações e proibições assustadora , nem sei para que precisamos já do livre arbítrio , o estado decide por nós.
ResponderEliminarComentar o legislar de um qualquer Estado quanto a pãezinhos sem sal nas escolas, não é o mesmo que comentar a legislação de um qualquer Estado quanto "aulas de cidadania" nas escolas.
Não é de crer que suscite a mesma a reação dos papás uma aula de cidadania dada no Seixal ou -com o mesmíssimo programa- o dar uma aula de cidadania em Famalicão.
Quanto aos pãezinhos o sistema digestivo humano, nesse caso, reagirá de forma semelhante.
Quanto à "aula de cidadania" aí tudo fia muito mais fino. Imaginem uma aula de cidadania dada por um Sr. Prof. Gerónimo, ou por um Sr. Prof. André, sendo que ambos ensinam cidadania a partir do mesmíssimo texto, em Famalicão ou no Seixal....
Fazer proselitismo em sala de aula é proibido.
ResponderEliminardoutrinar, idem
Politizar, idem
Converter, idem...
etc.
ResponderEliminar(cont.)
ResponderEliminarEsta "história" devia levantar um clamor de indignação e ter repercussão na sociedade. Pontualmente ouvem-se e escrevem-se opiniões dispersas, mas espanta-me que, no geral, não provoque um sobressalto cívico que se veja.
ResponderEliminarIsto só tem uma leitura possível: é um sintoma de anomia e de deslassamento social muito preocupantes. Estamos "tramados" e vamos continuar a gramar mais disto, se não pusermos cobro e nos mantivermos apáticos. São gravíssimos e perigosos os sinais "emitidos" pelo "Partido-Governo-Estado" no caso da família Guimarães.
Parece-me do domínio dos comportamentos desviantes, reivindicarem para si próprios uma total "impunidade", alcandorando-se ao patamar de seres "Infalíveis". "L' État c'est moi!" é inaceitável numa Democracia: tiveram a Ousadia de reinterpretar a Constituição e retorcer a Lei segundo "os seus" critérios muito próprios. Descendo ao prosaico, critérios esses, por sinal, decalcados do Relativismo Moral e gramsciano: "A Revolução começa dentro da sala de aula (e cedo)".
E qual é o espanto? Não foi o Don Costa que nos escancarou as portas ao Progressismo como forma de pagamento pelo apoio recebido? Não foi ele que derrubou um muro e fez um pacto com um@ gent@ assustadoramente amoral?
PS- E se o deixarem que outros pactos estaria ele disposto a fazer? E qual o "preço" pago por todos nós ? (Bora lá no próximo dia 30 de Janeiro conter mais estragos).