sábado, 18 de setembro de 2021

Bater no ceguinho

No ano passado, ou melhor, neste ano, na época Outono/ Inverno passada, gastei muitas letras a tentar manter de pé a hipótese de que o surto impressionante de Janeiro - com mortalidades diárias que eram o dobro das esperadas para aquele período do ano, em função dos últimos dez anos - estava mais estreitamente relacionado com uma anomalia meteorológica que ocorreu, que com a falta de medidas de contenção no Natal, quer aqui no Corta-fitas, quer num artigo no Observador.


Durante esse tempo, e semanas e meses depois, a resposta essencial ao que eu escrevi, era a de que não havia evidência nenhuma de sazonalidade da Covid e continuou-se com a cantiga da restrição de contactos de pessoas aparentemente saudáveis (estar infectado e doente não é equivalente, não se pode ter esta doença sem ter sido infectado, mas estar infectado não quer dizer que se desenvolva a doença).


Com a vacinação e a evolução dos números - e, já agora, com exemplos como os do Reino Unido e da Austrália, entre outros - o apoio social a restrições expressivas de contactos reduziu-se muito e a opção politicamente dominante passou, felizmente, para a redução progressiva de restrições (Graça Freitas anda há semanas a dizer que a DGS vai rever as normas de isolamento para distinguir vacinados e não vacinados, mas o facto é que continua a fazer detenções domiciliárias de 14 dias a pessoas vacinadas, quando entende que houve contactos de risco com infectados, e vai resistindo, de facto, a alterar essa norma que é a fonte de grande parte do poder discricionário e ilegítimo das autoridades sanitárias).


O foco, agora, é, aparentemente, o próximo Outono/ Inverno.


Significa isto que finalmente a sazonalidade passou a ser consensual, bem como a influência das condições ambientais na facilidade de contágio?


Ouvindo algumas pessoas, por exemplo, Marta Temido, dir-se-ia que sim, mas há quem resista até ao fim:


"Pedro Pinto Leite (DGS) e Baltazar Nunes (INSA - Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge) alertaram para os novos desafios trazidos pelo outono e inverno, com o regresso às escolas e ao trabalho presencial e as festas de Natal e Ano Novo a fazerem aumentar a mobilidade e eventuais cadeias de transmissibilidade do vírus, como aconteceu no ano passado".


Isto é o que o Diário de Notícias diz que eles disseram na reunião do Infarmed (o Observador diz mais ou menos o mesmo), não fui ouvir como seria prudente para ter a certeza de que é mesmo isto que disseram.


A ser verdade, é extraordinário que continuem a dizer que não há sazonalidade, que a questão do contágio não está fortemente ligada a factores ambientais externos. Apresentam-nos os riscos do próximo Outono/ Inverno, não como uma inevitabilidade decorrente de condições externas favoráveis à propagação das doenças respiratórias infecciosas, com a qual temos de aprender a viver, mas como resultado do funcionamento das escolas, do trabalho, do Natal e do Ano Novo.


Aparentemente, o problema não é haver um vírus que provoca uma doença que é especialmente perigosa para alguns grupos sociais, devendo os serviços de saúde organizar-se para dar a melhor resposta possível a essa circunstância, o problema é mesmo haver uma sociedade que não está organizada em função da protecção dos serviços de saúde mas dos interesses dos indivíduos.

11 comentários:

  1. até o Almirante fala com conhecimento viral
    mais um submarino ai fundo

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  2. Todos os seus textos são muito inteligentes e elegantes, leio sempre com imenso prazer, o último parágrafo deste texto devia ser lido por todos e memorizado como fazíamos na escola em pequenos.

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  3. Parece que ninguém está interessado em fazer perguntas e em ter respostas.


    Pergunta simples: como e em que circunstâncias é que o vírus se transmite.
    Nunca vi uma jornalista a fazer esta pergunta e a insistir numa resposta.




    Aparte: Segundo a narrativa Jornalista quem destes é o Negacionista?

    A-Dr Anthony Fauci says three shots will be needed for full Covid-19 vaccination
    B-Gouveia e Melo contra lóbi da 3ª dose

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  4. O papel número um do estado é proteger os seus cidadãos, se assim não fosse  não se disponibilizavam (p. ex) inúmeros meios durante vários dias para procurar um cidadão que caiu ao mar. Um estado que se organiza a pensar em si e não nos seus é um estado fracassado


    Cumprimentos


    Pedro Cunha 

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  5. Interessante recordar estas experiências de contágio propositado decorridas durante a gripe espanhola:


    Influenza transmission - experiments from the spanish flu pandemic, how does it speads?

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  6. É sabido que vagas de frio e de calor (condições de stress térmico) conduzem, por si só, a excessos de mortalidade. Sendo assim, teríamos que discutir a fiabilidade do teste RT-PCR, algo feito no Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa (1783/20.7T8PDL.L1-3, "SARS-COV-2, TESTES RT-PCR, PRIVAÇÃO DA LIBERDADE, DETENÇÃO ILEGAL") de Novembro de 2020:










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  7. (https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa1491/5912603)
    (file:///C:/Data/fj52976/Desktop/1783-20%20versa%E2%95%A0%C3%A2o%20citius.%20Detenc%E2%95%A0%C2%BAa%E2%95%A0%C3%A2o%20ilegal%20competencia%20da%20autoridade%20de%20sau%E2%95%A0%C3%BCde%20MARGARIDA%20-%20Covid%20Habeas%20Corpus%20docx.docx#_ftn2)

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