sexta-feira, 18 de junho de 2021

A cerca e os jornalistas

Salvo raras excepções (por exemplo, António Costa, no ECO), o que tenho lido sobre a cerca diz mais sobre o jornalismo que sobre a cerca sanitária a Lisboa, o governo e a epidemia.


Se dúvidas houvesse de que é de uma cerca sanitária que se trata, o próprio governo o confirma ao negar logo à cabeça que se tratava de uma cerca sanitária a um terço da população do país, mas boa parte do jornalismo continua a falar do assunto como se houvesse dúvidas de que se trata de uma cerca sanitária.


Do que li, falam da impossibilidade de sair e entrar da Área Metropolitana de Lisboa, uma absoluta idiotice tendo em atenção que qualquer pessoa pode entrar e sair da Área Metropolitana de Lisboa porque a medida é simplesmente impossível de fiscalizar. Ou seja, boa parte dos jornalistas tratam as palavras como factos, em vez de procurarem as palavras que melhor descrevam os factos.


Esquecem-se de discutir a utilidade de uma cerca sanitária ao fim de semana, que abrange um terço da população de Portugal, mas tem 18 excepções, incluindo a de qualquer outro assunto de imperiosa urgência, esquecendo-se de chamar a atenção para o absurdo do discurso do poder sobre o assunto, que cavalga o absurdo da medida em si.


E tão lestos em procurar motivações escondidas para tudo o que os políticos que não são da corda fazem, esquecem-se de escrever nas altas parangonas dos seus jornais: "Uma não-medida para "mostrar" ao resto do país que a capital e arredores também são penalizados como os outros concelhos quando a incidência e o Rt sobem. Fingimento, nada mais do que isso, porque os pontos de fuga desta não-cerca sanitária são vastos e, que se saiba, não estão previstas coimas.", citando um amigo que de Bragança topa melhor o que se passa na capital que os que Prákistão.


A forma como a generalidade dos jornalistas seguem o cherne e o seu discurso, sem o menor sentido crítico, é triste, triste, triste, mas é sobretudo um exemplo claro da degradação e corrosão institucional em que estamos.


António Costa está há anos na órbita do poder e sempre, desde sempre e constantemente, usou os cargos por onde passou de forma institucionalmente irresponsável, o que seria o menos, mas sobretudo promoveu e incentivou, no partido socialista e no Estado (passe o pleonasmo) uma cultura de desresponsabilização institucional que desemboca no famoso "já posso ir agora ao banco?" que seria motivo de vergonha e chacota numa sociedade assente em instituições fortes e independentes.


Aqui é assim, cada um é como cada qual e todos são como evidentemente.

5 comentários:

  1. Há alturas na vida em que nos arrepiamos com a vergonha alheia. Aquele “Now can I go to the bank?” foi simplesmente mau demais. Que falta de vergonha.   

    ResponderEliminar

  2. qualquer pessoa pode entrar e sair da Área Metropolitana de Lisboa porque a medida é simplesmente impossível de fiscalizar


    É impossível de fiscalizar com rigor total, mas é fácil de fiscalizar com suficiente rigor para desincentivar muita gente de tentar violá-la.


    É claro que há N estradas que saem da Área Metropolitana e é impossível vigiá-las a todas. Mas se se vigiar nem que seja somente N/10 já haverá muitos automobilistas que serão apanhados e que sofrerão suficientes inconvenientes para espalhar palavra e dissuadir muitos outros de tentar.

    ResponderEliminar

  3. "já posso ir agora ao banco?". Com esta pergunta ficou demonstrada a completa inutilidade todo o restante aparelho do Estado, na cabecinha do autor e, de facto, na cabecinha de quem gosta, ou não, do protagonista.

    Isto para todos os consequêntes efeitos.

    ResponderEliminar
  4. Óbviamente que o dinheirinho é dele. Qual é o espanto?.

    ResponderEliminar
  5. Atento, venerador e obrigado, caro Balio...
    JSP

    ResponderEliminar

Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...