No meu último post há um comentário que me parece bem interessante:
"porque diz que "Para já poder-se-ia dizer que a resposta deste segundo carvalhito é mais segura e mais interessante que a que resulta da condução que está a ser feita pela Montis", apesar de não ser um especialista parece-me bastante evidente que o 1o carvalho está bem mais saudável e com crescimento adequado".
Para quem não leu o post, tratava-se da comparação entre um carvalhito que rebenta de pé pós fogo, e não é conduzido e outro que, tendo o mesmo comportamento, tem vindo a ser conduzido pela Montis em alto fuste.
Ao fim de quatro Primaveras, o primeiro apresenta cerca de um metro e vinte e imensa folhagem praticamente desde o chão, o segundo anda pelo metro e sessenta e um tronco bem definido, com uma copa que não sendo um primor de conformação, ainda assim está mais próxima do que associamos a uma árvore.
E a pergunta feita tem sentido: o segundo não está muito melhor que o primeiro?
Eu não tenho a certeza disso (a minha frase começa por "poder-se-ia dizer", exactamente para dar corpo a essa dúvida) e passo a tentar explicar.
A minha visão é uma visão ideológica no sentido em que parto do pressuposto de que a natureza viva tende a responder aos estímulos existentes de forma a optimizar as possibilidades de dar continuidade aos genes dos organismos vivos que a compõem, sem esquecer que a natureza inclui os elementos não biológicos que interagem com essa natureza viva.
Note-se que não estou a atribuir à natureza qualquer sentido moral, a natureza não faz escolhas, a natureza existe e mais nada, nós é que fazemos escolhas.
E as escolhas que fazemos, de maneira geral, prendem-se também com o impulso vital de transmitir os nossos genes de maneira a que não se percam, ou seja, prendem-se com a optimização da nossa capacidade de sobrevivência e de reprodução.
Por isso a nossa relação com a natureza é utilitária, nós manipulamos os sistemas naturais para que sirvam melhor os nossos interesses de sobrevivência e reprodução (nós próprios resultamos de um processo de evolução que vai no mesmo sentido, ou seja, os que ainda aqui andamos somos os que sobraram, isto é, os que carregam a herança genética dos que sobreviveram e se reproduziram antes de nós, somos por isso, um produto da evolução natural, mesmo a nossa capacidade de escolher, o livre-arbítrio, a moral em que assenta o fino verniz da civilização, continuam a ser produtos da evolução biológica).
Por isso olhamos para uma árvore bem conformada, com um tronco liso e direito, uma copa perfeita - mesmo reconhecendo que o que achamos perfeição varia de pessoa para pessoa e de cultura para cultura, ao ponto de haver milhares de alentejanos maravilhados com chaparros podados, com copas muito longe do que seria a conformação natural da copa, porque um chaparro bem podado é a perfeição para quem quer maximizar a produção de bolota e fugir da fome - e ao olhar para essa árvore perfeita, achamos que são essas as árvores que estão mais saudáveis e com crescimentos adequados.
Mas para a natureza, ou melhor, para a ideia que eu faço da natureza, tudo isso é irrelevante: o tempo não conta, a forma não conta, a produção não conta, o que conta é a capacidade de manter e transmitir genes.
E é aqui que volto à minha afirmação inicial: do ponto de vista da sobrevivência dos dois carvalhos, o primeiro responde melhor aos riscos que o segundo.
Quando o fogo calcinou inteiramente a parte aérea dos dois carvalhos, mantendo vivo o seu sistema radicular, criou-se um profundo desequilíbrio entre parte aérea e subterrânea que, se não for resolvido rapidamente, leva à morte do sistema radicular por falta de energia.
Por isso a resposta da planta é no sentido de maximizar a superfície foliar que lhe permite obter energia através da fotossíntese. Se o fogo não foi suficientemente intenso para matar os tecidos do tronco, os carvalhos vão rebentar de copa e rapidamente repõem uma superfície foliar adequada à parte radicular.
Mas se o fogo foi suficientemente intenso (isto é, libertou uma grande energia) para ter uma severidade elevada (isto é, ter afectado profundamente a vegetação) a parte aérea está morta e a raiz lança guias a partir da base do tronco.
Lança tantas quantas consegue para aumentar rapidamente a superfície foliar, o que significa que na nossa vontade de ter árvores bem conformadas e com crescimento adequado, se começamos a seleccionar varas, estamos a diminuir a velocidade de reposição da superfície foliar, o que enfraquece a raiz.
As doenças, o dente de uma cabra ou um corço, um vento forte quando já existe alguma altura, e milhares de outros factores, podem deitar a perder, ou pelo menos ditar fragilidades de crescimento do segundo carvalho em relação ao primeiro.
Isto é, o primeiro carvalho tem, provavelmente, uma vitalidade maior, incluindo no seu sistema radicular, que o segundo e, nesse sentido, está mais apto a resistir e reproduzir-se algures no tempo, o segundo, embora servindo melhor os nossos objectivos - no caso, ter carvalhais maduros mais cedo - está de facto a correr mais riscos e tem, muito provavelmente - a mim parece-me que sim - uma vitalidade menor durante algum tempo.
Espero ter explicado o meu ponto de vista sobre uma afirmação que percebo que possa causar perplexidade, sobretudo se, como é o caso, eu defendo que apesar desses riscos de sobrevivência maiores, se adopte o modelo de gestão que, ao mesmo tempo, aumenta as probabilidades de ter carvalhais maduros mais cedo.
Na verdade o título do post não deveria ser o que é, porque a natureza não tem pontos de vista, mas sim, "o meu ponto de vista sobre o que se poderia considerar o ponto de vista na natureza na evolução de carvalhos pós fogo", mas era um título excessivamente extenso, mesmo para um post, também ele, excessivamente extenso.
"Na verdade o título do post não deveria ser o que é, porque a natureza não tem pontos de vista, mas sim, (...)"
ResponderEliminar- O que prova que, ao contrário de outros, não descambou para essa praga.
Interessante. Não seria mais eficaz deixar toda a rebentação evoluir durante cinco ou dez anos e só depois selecionar as varas mais fortes? Isto tendo em conta o tempo médio de recorrência entre fogos.
ResponderEliminaros novos deuses humanos querem contrariar a natureza a su bel prazer
ResponderEliminarNo fundo foi o que fizemos antes do último fogo, mas é preciso tempo para que as coisas tenham efeito e perder cinco ou dez anos quando o fogo seguinte deve demorar qualquer coisa à volta de dez anos, também tem riscos.
ResponderEliminarE as intervenções seriam mais difíceis porque entretanto se instala um matagal impenetrável
ResponderEliminarÉ aquilo que se faz com os eucaliptos.
Quando se corta um eucalipto, ele volta a rebentar da touça. (Algumas árvores, como o eucalipto, fazem isto, outras árvores, como os pinheiros, não o fazem, isto é, quando são cortadas, automaticamente morrem.) O tronco cortado emite diversos rebentos. Passados três anos, monda-se esses rebentos, que é como quem diz, corta-se eles todos com exceção dos dois ou três mais fortes, os quais se deixa crescer.
Desta forma, um eucalipto acaba por dar muitos cortes ao longo da sua vida, pois de cada vez que é cortado volta a rebentar.
ResponderEliminarFoi precisamente isso que foi feito com o primeiro carvalho cuja fotografia o Henrique nos apresentou. Esse carvalho está muito alto porque mão humana podou as suas varas mais fracas, deixando somente uma crescer para o alto.
Tipicamente, as árvores plantadas para madeira são podadas, com o objetivo de que somente um fuste cresça, porque a madeira que tem utilidade numa árvore é o fuste e não os ramos finos. Portanto poda-se a árvore, eliminando o mais possível de fustes e deixando somente um ou dois, para que estes engrossem mais.
No caso que o Henrique nos apresentou, o carvalho foi podado, não porque se tenha por objetivo que o fuste engrosse mais, mas sim para que ele cresça mais depressa para o alto e, portanto, escape mais aos fogos rasteiros.
Eu sei que se faz isso com os eucaliptos. E parece-me óbvio o interesse humano em obter árvores com um único tronco, tanto do ponto de vista do controle de fogos como no da utilização da madeira.
ResponderEliminarMas nunca tinha percebido o porquê desta rebentação tão profusa que ocorre algumas árvores após um trauma, seja fogo ou corte. Por isso gostei tanto deste post. Já li alguns livros sobre a temática rural (incluindo A Árvore em Portugal, e Do Tempo e da Paisagem) e nunca tinha visto esse aspecto discutido (que depois de dito parece óbvio). Fiquei a pensar que a melhor opção seria então deixar a árvore crescer como lhe aprouvesse e quando ela já estivesse vigorosa fazer o corte dos rebentos mais fracos. Mas, sem dúvida, que cortar mais tarde é muito mais difícil em todos os aspectos. Sobretudo quando se está a gerir grandes áreas.
ResponderEliminarO Homem sempre contrariou a Natureza a seu bel-prazer, pois desde tempos imemoriais interveio sempre na paisagem. "Educou" a Natureza para a adequar às suas necessidades utilitárias (de sobrevivência) como diz HPS.
Mas agora, a fase é outra. Os nossos "xamãs" de serviço (e a seita que os segue quase em transe) levaram isto a um extremo, que até falam com as árvores, escutam o Divino Coração (não de Maria) mas da "Mãe Natureza", entrando numa espécie de comunhão, pois atribuem-lhe o dom de pensar, sentir e tomar decisões «morais» para responder ao Homem .
nao ouso dizer "excessivamente extenso", mas para quem nao está na area, é interminável.
ResponderEliminarSobra que, para quem está na area, será proveitoso , e agradecidos ao autor
Publicação interessante, mesmo para quem não está na área.
ResponderEliminarMas pronto, isso é um debate filosófico que, presumo, não seja o objectivo deste post.