Um dos pedidos que ouço mais frequentemente sobre o efeito das medidas não farmacêuticas na evolução da epidemia é o da apresentação dos estudos que demonstrem que as medidas não farmacêuticas não têm qualquer efeito.
Devo dizer que é um pedido profundamente estúpido (peço desculpa, eu sei que é excessivo escrever isto, mas há alturas em que é preciso).
Corresponde a alguém pedir-me a demonstração científica de que não existe o monstro de Loch Ness, o que não faz o menor sentido porque a ciência não pode demonstrar que uma coisa não existe, o que pode é demonstrar que existe e, na ausência dessa demonstração, levantar a hipótese de que não exista.
Para efeitos práticos, isto significa que não há razão nenhuma científica para supor que exista o monstro de Loch Ness enquanto não existirem indícios da sua existência.
No domínio da fé o problema é diferente, a fé não se rege pelos mesmo princípios da ciência, embora a fé e a ciência tenham relações estreitas: não faz sentido a fé negar factos aceites por todos - e ser aceite por todos não significa ser verdadeiro, não é por ter mudado a nossa percepção do mundo que a Terra passou a andar à volta do Sol, sempre foi assim, nós é que pensávamos de maneira diferente - e não faz sentido a ciência pronunciar-se sobre aquilo que está para além da experiência sensorial racionalmente interpretada.
Assim sendo, o ónus da demonstração de que existem efeitos substanciais de medidas não farmacêuticas na evolução e efeitos de surtos epidémicos cabe a quem diz que existem.
Até há um ano atrás, essa era uma matéria de discussão racional dentro do processo científico, e a Organização Mundial de Saúde aproveitava crises sanitárias como a actual para, depois de resolvida, fazer meta-análises dos estudos que a crise tinha desencadeado, tentando perceber que medidas e em que circunstâncias eram úteis para a futura gestão dos surtos epidémicos.
A avaliação da utilidade de uma medida para a gestão de um surto epidémico fazia-se com uma matriz de duas entradas: de um lado o efeito que seria de esperar dessa medida na gestão da epidemia (não apenas da sua influência na evolução do surto, mas sobretudo no controlo dos seus efeitos negativos, que é verdadeiramente o que interessa); do outro o custo social das medidas.
Medidas como lavar as mãos, isolar pessoas infecciosas, manter a distância física eram de maneira geral consideradas como muito boas, porque o seu efeito no controlo dos efeitos do surto está demonstrado solidamente e porque têm um custo social bastante baixo.
Medidas como o controlo de fronteiras eram consideradas problemáticas, mas justificadas quando o risco posto pela doença é muito elevado e o surto está geograficamente contido.
Medidas como o fecho de escolas eram consideradas muito problemáticas porque o seu efeito nos surtos, especialmente de doenças que não afectam especialmente a população escolar, eram considerados muito discutíveis (a evidência científica do efeito no controlo dos surtos era muito contraditória) e o seu efeito disruptivo na sociedade era considerado excessivo para o benefício sanitário que daí se poderia obter. Só que era uma das medidas preferidas dos políticos porque é uma medida politicamente muito poderosa: permite dizer que os governos estão a fazer tudo o que podem para proteger as pessoas e, para além disso, confere uma sensação de protecção acrescida às crianças, uma questão vital para gerir a ansiedade da sociedade perante uma doença infecciosa fora do controlo.
Com esta epidemia dois factos novos surgiram que baralharam isto tudo: a identificação de infectados por testes laboratoriais de larga escala, em detrimento da avaliação clínica, e a demonstração de que o medo social era suficiente para que as sociedades abertas ocidentais passassem a estar disponíveis para aceitar a compressão dos direitos dos cidadãos, sem que fosse precisa grande demonstração racional de necessidade de medidas radicais de isolamento indiscriminado de pessoas.
Tudo isto assente numa capacidade de computação brutal que permite modelações matemáticas que são ininteligíveis para as pessoas comuns e desempenham bem o papel dos feiticeiros e xamãs das sociedades que se organizam à volta de mitos e dos seus significados.
Chegados aos dez/ doze dias depois, sendo os resultados os que são, que não mostram o mínimo dos mínimos sinais na incidência da doença de terem andado na rua seis milhões de portugueses na Sexta e Sábado que referiu (26 e 27 de Fevereiro), em vez de concluír que os seus pressupostos estão errados, pede-se a quem previu os resultados que se verificam que encontre estudos científicos que demonstrem que ninguém foi infectado por se ter cruzado na rua com outro infectado.
O esquema mental deste tipo de mecanismos de controlo da comunidade está perfeitamente descrito pelos antropólogos que estudaram as sociedades cuja coesão se fundava em mitos que se consideravam superiores, em sabedoria, à experiência sensorial, isto é, sociedades baseadas em conhecimento pré-científico: os feiticeiros e xamãs atribuem ao comportamento dos membros da comunidade a origem dos males que se abatem sobre essas comunidades e, quando fazem previsões (por exemplo, se sacrificarmos seis raparigas que não atingiram a puberdade, a seca acaba) atribuem os desvios que a realidade venha a mostrar face às previsões, ou à convicção com que se fez o sacrifício, ou ao facto de uma das raparigas afinal já ter tido a sua menarca, ou a outra coisa qualquer não verificável.
No essencial, é este pensamento pré-científico que está na base do que hoje chamamos teorias de conspiração que permitem que lendas como a do monstro de Loch Ness se mantenham durante séculos.
A ideia de que andarem seis milhões de portugueses na rua vai forçosamente impactar a evolução da epidemia não desaparece com a demonstração empírica que isso não aconteceu.
Há sempre uma explicação fundada no mito inicial que a mantém viva e o mito é mais verdadeiro que a realidade, porque o mito nos liberta dos enganos sensoriais.
É este pensamento pré-científico que tem governado a gestão desta epidemia.
Felizmente, para estes modernos feiticeiros e xamãs, já passou o tempo em que se queimavam os feiticeiros que se enganavam excessivamente nas previsões e se revelavam pouco eficazes para acabar com a seca.
Confesso que às vezes o grande esforço que faço para manter a racionalidade acaba por não ser suficiente para não pensar que esse método de controlo de qualidade dos feiticeiros tinha as suas virtudes.
dediquei 50 anos à investigação científica em 4 países sempre a nível empresarial. continuo actualizado quanto possível. fico arrepiado com o que vejo e oiço. há 20 anos era o gene p53, há 10 a proteina T ....
ResponderEliminarensinaram-me nas Facs que só há ciência na matemática, Natureza, fisico-quimica; o resto é cultura.
só é possível tirar conclusões modificando uma variável de cada vez
Sei que pode ser difícil provar que andar um dia inteiro a respirar por um trapo cheio de vírus, bactérias e fungos é mais prejudicial do que benéfico, mas há dados que podem ser transmitidos sem ofender o estado dominante.
ResponderEliminarEstou a referir-me aos mortos após a toma da vacina. Acabo de ler uma notícia a dizer que na Madeira morreram mais de cem.
Nunca ninguém fez uma ligação à elevada mortalidade de Janeiro, mas eu recordo que a vacinação começou por altura do Natal.
Eu não conheço ninguém que tivesse morrido de covid, mas conheci duas pessoas que morreram após a toma da primeira dose.
Como a maioria das mortes de Janeiro ocorreram em lares, e como não me parece que os idosos tivessem ido passar o Natal com a família, seria bom saber quantas mortes correspondem à toma da vacina.
Penso que esses dados serão mais fáceis de encontrar e deixávamos o monstro de Loch Ness para outra altura.
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ResponderEliminarA suposta ciência dos sicofantas mediatizados é tão boa como o método científico "das rãs sem pernas são surdas".
Para quem não sabe, é uma experiência científica em que se grita à rã, ela salta, cortam-se-lhe as pernas e grita-se de novo, não salta. Conclusão científica: "as rãs sem pernas são surdas".
Muito em linha com a qualidade da ciência que nos querem vender desta "pandemia".