quarta-feira, 10 de março de 2021

A peste suína africana, os especialistas especiais e a imprensa

Aqui há atrasado, quando estudei a evolução da paisagem rural em Portugal Continental, dediquei algum tempo à epidemia da peste suína africana.


Já me tinha cruzado profissionalmente com várias epidemias, em especial a propósito da conservação do lince, mas a da peste suína africana abarcava problemas de gestão de paisagem mais complexos.


A doença entra na Europa por Portugal, em 1957, à conta dos restos alimentares de vôos vindos de Angola, mas num primeiro momento foi controlada sem se expandir.


Só que em 1960, aparentemente pela mesma via, a nova entrada da doença em Portugal teve como resultado a sua rápida expansão na Península Ibérica, e daí, mais lentamente, para várias outras partes do mundo onde não existia, como a América do Sul (por exemplo, Cuba, via Espanha; Brasil, via Portugal ou Cuba, etc.).


Já agora, a entrada da doença na China, em 2018, o maior mercado mundial de carne de porco, provocou ondas de choque globais que ainda estão por resolver, em grande parte porque o problema é difícil, incluindo o que qualquer autoridade sanitária sabe desde sempre: o controlo deste tipo de coisas, na ausência de vacinas e tratamentos (como é o caso da peste suína africana), exige a adesão das pessoas, o que não é possível com medidas coercivas sem a adequada compensação, que parece ser o problema central da gestão do problema na China.


O que me interessa aqui é uma diferença essencial entre Portugal e Espanha na forma como se lidou com o problema.


Os dois países adoptaram medidas radicais semelhantes aos confinamentos actuais, mas que em veterinária são um bocadinho mais drásticos: abate de animais em larga escala.


Espanha, por exemplo, fez uma cerca sanitária em torno da região em que a doença tinha sido identificada - naturalmente, na fronteira com Portugal, que era a origem do problema - através da criação de um vazio que levou ao abate indiscriminado de animais numa faixa que se julgou suficiente, apenas para descobrir, três dias depois dessas medidas, um novo foco a trinta quilómetros de distância, muito para lá da tal cerca sanitária.


Este tipo de medidas têm sido contestadas desde sempre, a partir do momento em que a epidemia está suficientemente espalhada (claro que existe sempre uma enorme discussão sobre esse limite) e Neil Ferguson foi fortemente contestado há anos (não sei o suficiente para saber se com, ou sem, razão) pelo abate inútil de milhões de animais, para controlar a febre aftosa, baseado nos mesmos modelos que agora usou para defender os confinamentos radicais que defende.


A contestação prende-se com a proporcionalidade das medidas e a destruição de valor que acarretam, sem grandes garantias de eficácia no controlo de epidemias já suficientemente espalhadas, mas os especialistas especiais que descobriram o que é uma epidemia no ano passado não conhecem o suficiente destas histórias para, ao menos, terem consciência da sua própria ignorância sobre o assunto.


Para além destas (e muitas outras) medidas clássicas de controlo de epidemias, Portugal proibiu o porco de montanheira e Espanha não.


Não fui investigar o suficiente sobre esta diferença, mas suspeito que às diferentes decisões não terão sido alheias as diferenças de peso económico entre a produção estabulada de porco e a produção em montanheira em Portugal e Espanha, a que se soma o peso diferente do montado de sobro e azinho nos dois países.


Nos dois países a peste suína africana foi considerada endémica durante mais de trinta anos, com o que isso significou de perdas de mercados internacionais, mas o facto de um proibir o porco de montanheira e o outro não, teve consequências muito relevantes na economia das explorações agrícolas do Sul do país.


Na área do montado de sobro, com a cortiça a valorizar-se, a perda de rendimento do porco de montanheira diminuiu muito os rendimentos, mas não liquidou as explorações, apenas as separou entre as que fizeram alguma reconversão para cereais e, quando possível, regadio, e as que se foram especializando numa gestão extractivista, muito assente na cortiça, com os seus proprietários a ir buscar rendimentos a outros lados que não a sua terra, implicando uma progressiva erosão do capital das explorações. O resultado mais recente, com a chegada do regadio a muitas áreas, é o simples aluguer da terra a terceiros para a exploração de olival (ou amendoal) pelo simples facto de não haver capital disponível para a reconversão agrícola. Esta é a situação dominante em Portugal, mas residual em Espanha, onde o montado de sobro é muito menos importante que em Portugal.


No montado de azinho, esmagadoramente dominante em Espanha, mas só dominante nas zonas interiores do Alentejo e Beira Baixa, o fim do porco de montanheira matou a principal fonte de rendimento das explorações agrícolas com terras menos vocacionadas para o cereal intensivo. Enquanto em Espanha o porco de montanheira manteve as explorações vivas, tornando o presunto espanhol o padrão internacional do produto, com cadeias de abastecimento em que os melhores souberam escalar a cadeia de valor, introduzindo diferenciação, em Portugal ocorreram três processos principais: 1) abandono; 2) reconversão para cereal financiada pela venda da madeira de azinho disponibilizada pelo arranque; 3) reconversão para eucaliptal nalgumas propriedades maiores (sobretudo na Beira Baixa), enquanto as empresas de celulose não perceberam a asneira de investir em eucaliptos nessas áreas, com baixíssimas produtividades. E, evidentemente, a perda completa dos mercados relevantes para a valorização da produção de porco de montanheira.


Em qualquer dos três casos, a prazo, o resultado foi a pura destruição de valor económico, social e ambiental de que ainda hoje sofremos as consequências, mesmo depois de nos anos 90 a peste suína africana ter sido declarada erradicada e ter havido um progressivo retorno do porco de montanheira.


É por saber coisas destas que não entendo os especialistas especiais que propõem medidas de controlo de epidemias dizendo que apenas sabem de epidemia, não são economistas nem sociólogos para avaliar as consequências do que propõem, fazendo o outsourcing dessa ponderação para os políticos.


A mim parecem-me um médico que dissesse que havia um ferida com mau aspecto de maneira que o melhor seria amputar a perna para fazer desaparecer a ferida e, perante a natural angústia do paciente que perguntasse por alternativas, se limitasse a responder que só sabia de feridas, ao doente caberia tomar decisões ponderando as complicações de viver sem a perna.


E é por isto que quando aparece alguém a dizer que para controlar a epidemia os transportes públicos devem funcionar com apenas 25% da sua capacidade fico furioso com uma imprensa que repete esta estupidez sem perguntar por que razão 25% e não 24% ou 26%, sem perguntar se existem condições para assegurar o direito à mobilidade nestas circunstâncias, sem perguntar se o custo de pôr em prática esta medida não é maior que o custo de aumentar a capacidade do sistema de saúde, sem perguntar o que pensam estas cabeças que é a vida das pessoas que usam os transportes públicos e se acham razoável tomar por elas a decisão de os usar ou não, pesando todos os riscos associados à decisão, etc..


Não, meus caros, isto não é matemática, não é medicina, não é economia, nem é sociologia, isto é a vida concreta de pessoas concretas e é absurdo discutir medidas para obter um resultado num factor sem, ao mesmo tempo, avaliar os efeitos noutros factores e de que forma se poderiam desenhar medidas que, globalmente, sejam mais favoráveis para a sociedade, mesmo que não sejam as que maximizam um dos factores que se escolha para único critério de decisão.


Infelizmente, uma imprensa ignorante promove especialistas especialmente ignorantes no assunto sobre o qual se pronunciam e, inevitavelmente, acabamos todos a aplicar más decisões sem sequer avaliar seriamente a possibilidade de haver outras decisões que, podendo até ser más, ao menos sejam menos más.

8 comentários:





  1. No Economist desta semana há um artigo sobre os estragos que a doença está agora a fazer nas Filipinas, onde o consumo de carne de porco também é dominante.


    Já agora, a China é atualmente o principal importador de presunto espanhol, com tal peso que Espanha está a ficar com uma séria falta de stocks de presunto, tal é o apetite dos chineses pela iguaria.

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  2. Quanto ao processo suínico, lapidar!

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  3. em 47 e 49 os porcos foram dizimados no Alentejo por peste suína africana devida a um coronavirus

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  4. Henrique Pereira dos Santos,
    Se não conhece, vale a pena consultar, umas duas vezes por mês, o blogue do Dr, Malcolm Kendrick em: https://drmalcolmkendrick.org/
    Um Clínico Geral que sabe pensar.
    Além dos seus artigos acerca de diversos temas médicos, é muito instrutivo ler as dezenas/centenas de comentários de pessoas deste Ocidente. Por eles percebe-se o que sofrem por haver tanto doido (ou ignorante) à solta.

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  5. É intuitivo que seja o Sol a orbitar a Terra? É, o que os nossos olhos vêem é o Sol a deslocar-se no firmamento de nascente para poente. Essa intuição, fruto daquilo que os nossos olhos enxergam, está errada? Está.


    É intuitivo que não se possa arrefecer água de 28 ºC para 25 ºC, usando para o efeito ar a 32 ºC? É, havendo no entanto equipamentos que, se as condições ambientais de humidade relativa o permitirem, executam esse arrefecimento - designam-se por torres de refrigeração e geralmente aparecem em fotografias a ilustrar notícias relacionadas com poluição e aquecimento global, quando aquilo que deles emana é apenas uma nuvem de gotículas de água. Essa intuição está errada? Está.


    É intuitivo que os confinamentos e outras medidas não-farmacêuticas influenciem o decurso de uma infecção respiratória epidémica, promovendo uma diminuição dos números de "casos" e óbitos? É, contudo a literatura científica e a evidência empírica demonstram o contrário, como pode ver-se nas três imagens seguintes. A primeira relativa à evolução da epidemia na região dinamarquesa da Jutlândia do Norte, onde 7 municípios implementaram confinamento rigoroso e 4 permaneceram abertos; as restantes relativas à evolução da epidemia nos estados vizinhos americanos de Dakota do Sul (sem confinamento, sem mácaras obrigatórias e com tudo aberto) e Dakota do Norte (com confinamento, máscaras obrigatórias, escolas e estabelecimentos não-essencias fechados):


    http://prntscr.com/10bfmrd 
    (colhida do artigo científico "Lockdown Effects on Sars-CoV-2 Transmission – The evidence from Northern Jutland", https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.28.20248936v1.full);


    http://prntscr.com/10elvsp - Dakota do Sul vs. Dakota do Norte, "casos" 
    http://prntscr.com/10em0aq -  Dakota do Sul vs. Dakota do Norte, óbitos
    (fonte: worldometers).


    Essa intuição está errada? Está, como a realidade o demonstra. 


    A partir desta evidência, todos os que defendem os confinamentos e o uso de máscara podem e devem se rotulados de ignorantes, independentemente de se chamarem-se eles o que se chamarem e dos lugares que ocupem - na política, na academia e no jornalismo. 


    Nos tempos de Galileu, estou convicto que estes ignorantes estariam entre aqueles que prentendiam mandá-lo para o fogueira, pelos mesmos motivos que agora os levam a defender confinamentos e o uso de máscara: intuição fundada na aparência, ignorância e fé.

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  6. Vi ontem na RT.com referência a um novo artigo científico que diz não encontrar benefícios da toma de suplementos de vitamina D como prevenção à covid. Talvez lhe interesse.

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  7. Grato.


    Os artigos científicos de carácter fundamental têm vindo a demonstrar desde há anos a importância da vitamina D - mais hormona do que vitamina - no desempenho do sistema imunitário. Por exemplo:


    "Vitamin D controls T cell antigen receptor signaling and activation of human T cells"
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20208539/ 


    "Vitamin D and the Immune System"
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3166406/



    A questão essencial não é tanto a ingestão de suplementos de vitamina D, mas as concentrações séricas da 25-hidroxivitamina D:


    20 ng/ml - enough to prevent rickets, osteoporosis
    40 - 60 ng/ml - for optimum immune system and cancer fighting


    "Current UK guidelines recommend 400 IU of vitamin D per day whereas 6,000-10,000 IU per day is required to maintain blood levels of 40ng/ml [of 25-(OH)D], widely accepted as being the level required to support immunity, optimal health, and reduction in all-cause mortality. The financial cost of vitamin D deficiency in the UK has been estimated at around £20 billion per annum."


    "If one is at the equator in the summer without sunscreen, human skin will produce approximately 10 000 IU of vitamin D over one hour (...)."

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