sábado, 20 de fevereiro de 2021

Os resultados esperados

Estamos a obter os resultados esperados do confinamento, tenho lido por aí, vindo dos modeladores da epidemia e afins.


Há conjunto pequeno de matemáticos - serem matemáticos de formação ou não, é irrelevante - que falam muito entre si, dão-se palmadinhas nas costas uns dos outros e confirmam-se todos os respectivos modelos, agradecendo-se mutuamente o trabalho que cada um retira aos outros com as suas sofisticadas análises.


Pelo que percebi, a Assembleia da República vai ouvir o núcleo duro desses matemáticos no dia 24 de Fevereiro, para saber mais sobre a epidemia, a sua evolução e, presumo, para ter melhores bases para decidir o que fazer daqui para a frente.


São dos maiores influenciadores da gestão da epidemia embora não haja, neste grupo, um único que trabalhasse sobre epidemias antes da covid (e, já agora, um único que veja a sua vida e rendimentos afectados, de forma séria, pelos confinamentos que defendem).


E todos eles partilham entre si uma fé inabalável nos confinamentos, que defendem que sejam radicais, porque essa é a melhor maneira de salvar vidas.


Contribuem para a tal ideia de que a situação actual corresponde a estarmos a recolher os resultados esperados do confinamento e do fecho da escolas (um encantamento que cultivam com especial desvelo).


É preciso dizer, com todas as letras, que até talvez se possa dizer que a situação actual é o resultado do confinamento com fecho de escolas - eu acho que não, mas adiante - mas dizer-se que é o resultado "esperado" é mentira.


Os resultados esperados pelos modelos de todos estes senhores eram outros completamente diferentes, estes senhores todos esperavam outros resultados que abundantemente difundiram e que, sem dúvidas ou cambiantes, trouxeram para o debate público para forçar os confinamentos e o fecho de escolas, porque acreditavam piamente que eram a única maneira de melhorar os resultados, ainda mais catastróficos, que esperavam que existissem sem confinamento.


Não há o menor problema científico ou académico em desenhar modelos que falham estrondosamente, isso é o mais normal, é por isso que os modelos são, de maneira geral, trabalhos em desenvolvimento e onde se vão introduzindo melhorias que os façam aproximar-se da realidade verificada.


A forma de validar um modelo é aplicá-lo a uma realidade conhecida, verificar a sua aderência aos dados conhecidos e, partindo do pressuposto de que os mecanismos que fizeram evoluir a realidade da forma conhecida se prolongam no tempo, projectar para o futuro os resultados conhecidos.


Quando, como é normal, os resultados projectados vão ficando mais longe da realidade que se vai observando, o normal é olhar para o modelo e tentar perceber quais os mecanismos condutores da evolução que o modelo está a integrar mal, refazer o modelo para os integrar melhor, e esperar de novo pelo futuro para verificar se a aderência à realidade aumentou.


Ora o que estes senhores, do alto da sua torre de marfim - quando perguntados as evidente falhas de previsão dos modelos, ou não respondem, ou respondem que os perguntadores não têm conhecimento suficiente para compreender a sofisticação matemática que está a ser usada -, têm feito é ignorar os erros do modelo, limitando-se a rever em baixa as previsões ou na melhor das hipóteses, considerar que o nível de imunização está acima do previsto nos modelos e é preciso melhorar esse aspecto.


Em relação à primeira hipótese é preciso dizer, com clareza, que não existe o conceito matemático de revisão em baixa de previsões, os modelos ou estão certos, ou estão errados, não se revêem previsões em baixa, mantendo o modelo.


Quanto aos segundos, os que admitem que os modelos falharam na integração do factor imunização, é talvez útil dizer que essa explicação é incompatível com a defesa dos confinamentos, em particular com o fecho das escolas, como método preventivo para evitar um novo Janeiro na Páscoa, já que essa imunização impede uma repetição do que se passou em Janeiro.


Resumindo, deixem-se de parvoíces e abram as escolas já, no mínimo dos mínimos, para os alunos com menos de 12 anos.


Ao contrário do que disse Roberto Roncón, há problema sim, se se tiver de se fazer um novo confinamento, mais, há problemas sim, e enormes, em manter o actual confinamento, quando a média de casos está abaixo dos dois mil e o R(t), ou seja, o factor de contágio, está em 0,66, que é um valor baixíssmo e a positividade dos testes, que tem algum atraso de reporte, está já bem abaixo dos 10% referidos por Manuel Carmo Gomes como sendo o máximo admissível sem confinamento.


Os vossos modelos estão errados e pressupor que há uma grande probabilidade de ter, em Abril, níveis de incidência de uma doença infecciosa respiratória semelhantes a Janeiro é absurdo e contraria tudo o que se sabe sobre esse tipo de doenças.


Ficai com as vossas elocubrações matemáticas completamente desligadas da realidade, mas deixem de atazanar a vida quotidiana da milhares de pessoas, que ninguém vos elegeu para governar a sociedade.

15 comentários:

  1. Bom dia Henrique Pereira dos Santos.
    Comungo da esmagadora maioria das suas considerações e em particular quanto aos "apontadores" dos números dramáticos.
    Mas no presente continua a assaltar-me uma grande dúvida e que se prende com a questão dos testes. Os conhecidos aldrabões políticos anunciaram há poucos dias - testar, testar, testar - mas verifica-se por declarações várias que cada vez se tem testado menos. A minha dúvida, porventura tola - se não testam, menos detectam - certo ou errado? Saúde.
    António Cabral

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  2. Por acaso é verdade, o confinamento resultou. Foi graças ao confinamento em Portugal que a pandemia baixou em todo o mundo.
    Estes matemáticos devem ser aqueles que tiraram as asas à mosca e lhe disseram para voar.
    Chegaram à conclusão que a mosca sem asas não ouve. 

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  3. A nossa política de testes é a de seguimento de cadeias de contágio, portanto testamos sintomáticos e contactos de testes positivos.
    Quando descem os números de positivos, descem mais ainda os contactos de positivos (cada pessoa, normalmente, tem mais de um contacto) e, por conseguinte, desce o número de testes.
    Aumentar testagens indiscriminadas não serve para grande coisa.

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  4. Exactamente. E esta explicação não tem sido devidamente relevada.
    Se estão a testar "menos" porque só estão a testar todos os próximos de um caso detectado, é inteligente, pois que até agora, estes só seriam se mostrassem qualquer sintomas.
    Testar por testar não tem qualquer efeito a não ser que queiram mostrar uma taxa de incidência mais baixa. É burrice.

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  5. Ainda hoje o DN em grande parangonas escreve na primeira página que o confinamento poupa 3.000 mortes.
    Como é que podem afirmar isto?
    É como se eu dissesse que hoje poupei 200.000 euros por não comprar um Ferrari.
    Acompanho o que se passa em Espanha. Já estão a abrir selectivamente. Tem muito mais elasticidade nas decisões de abrir ou fechar do que nós.
    É imperioso abrir as escolas pelo menos até aos 12 anos.

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  6. Cada vez mais parecemos um país como Cuba ou Venezuela. Há toda uma sociedade que vive atualmente na sombra, as cabeleireiras vão a casa das pessoas, os restaurantes abrem nos armazéns escondidos, os amigos e famílias encontram se às escondidas nalgum lugar! Passámos a viver numa semi clandestinidade as nossas vidas. Em breve começarão as notícias sobre a pequena corrupção dos polícias, dos funcionários públicos, enfim, daqueles que nos podem impedir das nossas ilicitudes quotidianas! Começam assim as tiranias e as ditaduras. O povo acostuma se

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  7. Todo o mundo acha que o ponta-de-lança deve jogar lá à frente. Mas há sempre uns iluminados que acham que o ponta-de-lança devia jogar o lugar do defesa esquerda! 

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  8. Há só uma coisa que me deixa curiosa: será que agora com esta vaga de frio os números vão voltar a subir? Se assim for o confinamento foi só coincidência mesmo...
    María Eduarda

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  9. Excelente post. Concordo. O confinamento tem que acabar!!!

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  10. Carapuça que lhe serve perfeitamente.

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  11. Nada percebo de pandemias, nem de modelos matemáticos, mas permitam-me uma questão: Se o país não tivesse confinado os números seriam iguais (e estou a falar de casos e internamentos)?
    Obrigado


    Pedro Cunha
     

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  12. Nem vida, acrescento eu...!


    Melhores cumprimentos


    Vasco Silveira

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  13. Na verdade, ninguém sabe a resposta a essa pergunta, nem é possível saber.
    Daí que seja preferível pôr a pergunta de outra maneira: qual é o contributo do confinamento para a evolução da epidemia, e qual é o custo desse confinamento (incluindo do ponto de vista de saúde pública e mortalidade).
    O centro da discussão não deveria estar estritamente na evolução da epidemia sem avaliação dos custos das medidas tomadas.
    O que se sabe é que os cenários catastróficos previstos para as situações sem confinamento, não se verificaram em lado nenhum, portanto, o impacto da epidemia é menor que o que justificou as medidas de confinamento.
    Por outro lado, não existe nenhuma evidência empírica que ligue rigor de confinamento a incidência da epidemia.
    Dito tudo isto, não vejo muitas razões para admitir que os confinamentos coercivos e duros tenham demonstrado uma relação custo/ benefício favorável.

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  14. Qual vaga de frio? Qual é a comparação entre o que se passou de 24 de Dezembro a 20 de Janeiro e o que está a ocorrer agora, quer em temperaturas, quer em humidades?

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