quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Não há condições

Um amigo, bem informado e com cabeça melhor que a média garante-me que não há sazonalidade nenhuma na incidência da covid.


Eu cito este parágrafo da OMS e mostro-lhe o gráfico abaixo ""Influenza occurs all over the world, with an annual global attack rate estimated at 5–10% in adults and 20–30% in children. In temperate regions, influenza is a seasonal disease occurring typically in winter months: it affects the northern hemisphere from November to April and the southern hemisphere from April to September. In tropical areas there is no clear seasonal pattern and influenza circulation is year-round, typically with several peaks during rainy seasons."


sazonal.jpg


Resposta: a sazonalidade que não existe pode ser explicada por um sem número de factores e estás a fazer cherry picking não escolhendo outros factores para além daquele que eu acho que estás a escolher para explicar este gráfico que mostra uma sazonalidade que não existe.


A discussão está nestes termos e não há volta a dar.


O Instituto Ricardo Jorge publica relatórios em que diz que o R(t) passou de 0.96 a 1,21 em seis dias, isto é, teve um aumento acima de 25% em seis dias.


Note-se que o R mede a transmissibilidade, o número de casos é indiferente porque se define como a quantidade de contágios a que dá origem um infectado. Em seis dias, uma pessoa que contagiava, em média, 0,96 pessoas passou a contagiar 1,25.


Qual é a explicação para esta alteração brusca da capacidade de contágio, em seis dias?


Resposta: isso não interessa nada, porque contágio é contacto e portanto o que interessa é discutir contactos.


Ou seja, mil pessoas infectadas infectavam 960 e seis dias depois as mesmas mil pessoas infectam 1250 e isso não interessa nada, o que interessa é discutir como diminuir os contactos para diminuir a progressão da epidemia, apesar de, com os mesmos contactos, termos mais ou menos um quarto dos novos infectados a mais.


Eu sei qual é o argumento: não podemos influenciar essa transmissibilidade, mas podemos diminuir os contactos, portanto essa maior transmissibilidade obriga-nos é a ser mais rigorosos nos contactos, e não menos.


Este argumento é verdadeiro, o problema está no salto que é dado a partir dele, esse sim, sem qualquer fundamento: a evolução da epidemia, para cima ou para baixo, depende essencialmente da nossa capacidade de controlar os contactos.


Se, como parece, o aumento da incidência de Janeiro se deve, pelo menos em parte relevante, a maior transmissibilidade, então quando pararem os factores que favoreceram essa transmissibilidade, vamos ter uma diminuição de incidência igualmente brusca. 


O corolário é que a diminuição de contactos, podendo ser útil, desempenha um papel menor na evolução do que aquele que nos foi dito e, sendo assim, a necessidade da diminuição de contactos para a evolução da epidemia deve ser ponderada pelos custos sociais que estão associados a essa diminuição de contactos.


Em termos práticos, não, não são necessárias medidas radicais como o fecho das escolas, a mera diminuição da transmissibilidade leva a uma diminuição de casos que torna geríveis os sistemas de saúde (sem entrar sequer na discussão de que são os sistemas de saúde que existem para apoiar a sociedade, não é a sociedade que deve ser formatada para permitir a gestão dos serviços de saúde).


E não, não é verdade que o desconfinamento leve imediatamente a uma subida de casos, como os desconfinamentos da Primavera demonstraram e como resulta do facto de desconfinar não implicar nenhuma alteração no R (uma coisa é o facto do R ser calculado a partir do número de casos, outra coisa é admitir que esse número de casos influencia o R e não a inversa).


A ideia de que são os contactos que gerem o R, levando para cima, ou para baixo, é uma ideia estranhíssima que tenho visto repetida vezes sem conta e cuja base factual não consigo perceber qual seja.

10 comentários:

  1. Há tanto matemático, e tanto especialista a dar palpites, que por vezes fico na dúvida, se eles sabem realmente daquilo que estão a falar.
    Se tivermos um R 1, quer dizer que se tivermos mil infectados num dia ao outro dia temos dois mil. Mas se isso fosse tão linear ao fim de dez dias tínhamos um milhão de infectados e ao fim de treze dias tínhamos mais de oito milhões de infectados. E ao fim de catorze dias já tínhamos Portugal inteiro infectado e mais seis milhões de espanhóis. 
    Não será melhor pararem com o alarme social, e chegar à conclusão que há mais vida para além do covid?

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  2. Nada bem dito este comentário:
    1) se diz que R1 quer dizer que 

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  3. Ou pior, alguém que não admite que é ignorante e quer fazer valer a sua narrativa para manter o protagonismo que entretanto adquiriu e adora esta experiência social brutal que está a levar a cabo. 

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  4. Faça bem as contas e vai ver que ao fim de dez dias tem apenas um milhão e não 10 milhões. Duplica a cada dia, é uma progressão aritmética e não geométrica não confunda.
    Se os infectados forem assintomáticos como é que você sabe para os poder confinar?
    Se esse R1 fosse para levar a sério, não havia comboios, não havia metro, não havia nenhum transporte público.
    Se o confinamento dá resultado porque é que estamos pior que a Suécia que não fez nada disto?

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  5. A progressão é geométrica e não aritmética. Saiu trocado, as minhas desculpas.

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  6. A ironia - repito, a ironia - é que na Suécia e na Bielorrússia, sem confinamento, sem máscaras e com escolas parcial ou totalmente abertas, os suecos e os bielorrussos já morreram todos, restando apenas as suecas e as bielorrussas. 


    Noutro registo:


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  7. Eu diria que o pensamento desse seu amigo foi inseminado - no sentido daquele filme Inception - pelas narrativas dominantes completamente desgarradas da realidade. 


    Talvez alguns artigos científicos que pode encontrar na net e cujos títulos deixo aqui possam ajudar.

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