Eu continuo a usar os meus gráficos fatelas e básicos para olhar para os dados, mas desta vez resolvi fazer o post com base numa peça do Observador tendo em atenção o que tenho escrito neste blog ao longo do mês de Janeiro.
O que sabemos sobre a evolução da doença permite descrever uma sequência mais ou menos consensual: contágio, sintomas a aparecer maioritariamente quatro a seis dias depois, agravamento da condição do doente, quando existe, a provocar hospitalização mais uns dias depois, morte, quando existe, algures quinze dias depois dos sintomas aparecerem.
Sobre esta sequência vale a pena fazer as seguintes ressalvas: ela não se aplica a mais ou menos 95% das pessoas infectadas, que não têm sintomas ou os têm de forma suficientemente ligeira para não exigir hospitalização, a grande maioria das mortes não é precedida de internamentos em cuidados intensivos (três quartos a quatro quintos dos doentes que entram nos cuidados intensivos saem de lá vivos, já agora).
Tendo em atenção estas ressalvas, é possível dizer que, grosseiramente, temos um pico de casos numa altura, que traduz um pico de contágios mais ou menos uma semana antes (este pico é invisível nos dados, evidentemente), o pico das hospitalizações uma semana depois do pico de casos e o pico da mortalidade mais uma semana depois do pico das hospitalizações (portanto, quinze dias depois do pico de casos).
Claro que como isto não é matemática, todos estes prazos sequenciais têm intervalos de tempo que podem variar qualquer coisa.
Ora o que estamos a verificar agora, é Carlos Antunes que o diz, é que nada destes intervalos se estão a verificar "o pico nacional de novos casos de infeção terá sido atingido entre 20 e 23 de janeiro ... o número de óbitos indicado pelas autoridades de saúde também foi seguir ao máximo de 295 calculado por Carlos Antunes em dois dias: 28 e 31 de janeiro".
Como se explica que entre o pico de infecções (atenção, não é o pico de casos, que esse terá sido atingido uma semana mais tarde, isto é, por volta de 28 de Janeiro, praticamente em simultâneo com o pico da mortalidade) e o pico da mortalidade exista apenas uma semana?
A evolução da doença, esquematizada acima, não é compatível com o que se verifica.
Sobra o que na verdade é muito bem explicado por Gonçalo Cordeiro Ferreira hoje no Público, ao falar do Hospital Dona Estefânea, que aliás contraria o testemunho alarmista da directora de infecciologia desse hospital "Se há mais crianças infectadas? Há, mas na população em geral houve um aumento global, porque aumentou a circulação do vírus..." O médico pede atenção quando se analisa o número de crianças internadas em camas covid "Destes 11, sete têm quadros de doença covid19 (incluindo o que está em UCI), e nos outros quatro as doenças que justificam internamento não têm nada a ver com a covid19, mas fizeram um teste e tiveram resultado positivo... é mais uma relação de casualidade do que causalidade". Se eu resolvesse extrapolar de uma amostra minúscula, e enviesada por se tratar de um hospital pediátrico, para o geral (que não quero fazer, estou apenas a fazer dar ênfase a um argumento que precisaria de dados que não tenho para ser validado), isto significaria que as relações de casualidade e não causalidade (formulação brilhante) entre covid, internamentos ou mortes, poderia andar perto de um terço.
A hipótese que tenho vindo a defender aqui explica melhor os dados que hoje conhecemos que a hipótese dominante assente na hipervalorização dos contactos: as condições meteorológicas prevalecentes entre 24 de Dezembro e 19 de Janeiro explicam uma parte (não sei avaliar qual é o peso dessa parte na mortalidade global e na evolução da epidemia) da mortalidade global e da evolução da epidemia e, coerentemente com a bibliografia sobre o assunto, uma semana depois do fim da anomalia meteorológica, a mortalidade global começa a descer e, pelos vistos, imediatamente após o fim dessa anomalia meteorológica, os contágios também começaram a descer.
Várias vezes tenho falado do frio, mas não sei quais são os factores meteorológicos dominantes, para esta evolução. O frio está claramente associado a maior mortalidade, mas em relação a um aumento da actividade viral a coisa pode ser mais complexa, podendo ser o frio, a humidade - dentro desta, parece que a humidade absoluta é mais relevante que a humidade relativa -, a combinação dos dois, não sei. O que sei é que as condições meteorológicas verificadas parecem ter impactado quer a mortalidade, directamente, quer a actividade viral, favorecendo-a.
Agradeço encarecidamente que evitem responder a este argumento com o calor do Brasil ou da África do Sul, países em que a epidemia está com incidências elevadas. A indigência intelectual dessa resposta é deprimente: o facto das condições meteorológicas afectarem a actividade viral está perfeitamente estabelecida na bibliografia, a definição exacta das condições que favorecem a actividade viral para cada vírus é muito mais complexa e o que se está a dizer não é que as condições meteorológicas que ocorreram são as únicas possíveis para a actividade viral mas apenas que favoreceram a actividade viral, neste sítio, neste tempo e nestas circunstâncias.
Pelo contrário, os modelos matematicamente sofisticados usados por quem influencia a opinião pública e publicada e, por essa via, as políticas de gestão da epidemia, com especial destaque para a insistência no erro do fecho de escolas, revelaram-se completamente inúteis como apoio à gestão da epidemia.
É incrível como já a OMS dizia, numa metanálise da eficácia das medidas não farmacêuticas, anterior a esta epidemia, que o fecho de escolas era das medidas preferidas dos políticos, mas a sua eficácia era muito questionável e, sobretudo, que o seu efeito negativo na disrupção da sociedade era quase sempre muito maior que eventuais efeitos positivos no controlo de surtos, em especial para doenças que não afectassem de forma clara os mais novos, e isso não levanta dúvidas nenhumas a quem defende a repetição do erro.
Na famosa reunião do infarmed foram feitas previsões catastróficas, grosseiramente erradas (honra seja a Henrique Barros que manteve a sensatez possível face ao autêntico bullying que vários investigadores fazem a quem tem dúvidas sobre os seus modelos, incluindo a sistemática desvalorização do que diz Jorge Torgal, provavelmente a pessoa, em Portugal, com mais experiência de gestão de epidemias, usando a imprensa para dar força ao alarmismo), já na altura sem grande justificação fora da pura abstracção dos números.
Inacreditavelmente, logo nos dias seguintes, com os dados reais a demonstrarem o erro das previsões, Manuel Carmo Gomes veio inventar um planalto artificial justificado com a suspeita de uma dificuldade de testagem cujos indícios não existiam em lado nenhum, e que sem surpresa se veio a verificar completamente infundada, numa típica atitude mental de quem acha que se os seus modelos não aderem à realidade, a realidade está errada, não o modelo.
Mais grave, muito mais grave, quando com mais dados era evidente que a realidade não validava os modelos de previsão usados, Manuel Carmo Gomes vem dizer que previu os dados que se estavam a verificar, coisa que qualquer pessoa pode facilmente verificar que não é verdade.
Na quinta ou sexta feira passada (o jornal sai ao sábado, acho eu, são referidos os números de quarta, portanto a entrevista é dada entre uma coisa e outra), já com os dados a apontar para uma inversão de tendência, Manuel Carmos Gomes insistia num pico de 16 a 18 mil casos algures entre 5 e 9 de Fevereiro (um erro grosseiro de mais de 20%, a menos de uma semana de distância e quando já havia fortes indícios de alteração da tendência).
É Carlos Antunes, que trabalha com a equipa de Manuel Carmo Gomes, e é responsável pelas previsões que a equipa faz, que agora, candidamente, diz ao Observador que o pico na região Norte foi entre 21 e 22 de Janeiro, no Algarve começa também a 21, na região Centro e Alentejo começa a 22 de Janeiro.
E a 28 ou 29 de Janeiro a sua equipa, através de Manuel Carmo Gomes, dá entrevistas a dizer que o pico será algures lá para a frente? O próprio Carlos Antunes e Henrique Oliveira (algumas vezes Silveira) pela mesma altura desdobravam-se em entrevistas televisivas com previsões do mesmo tipo, apesar da evidência dos dados regionais?
Não admira, por isso, que sabendo isto tudo, e muito mais, Carlos Antunes insista nas mesmas soluções para uma realidade diferente: "“O esforço que estamos a fazer está a compensar”, interpreta o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Mas é preciso fazer mais: apesar de já se estar a fazer mais testes que os contágios diários, a taxa de positividade continua demasiado alta: 20% dos testes efetuados em Portugal têm um resultado positivo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a epidemia só pode ser dada como controlada se a taxa de positividade for inferior a 5%. O melhor era testar mais e melhor, aponta Carlos Antunes: “Temos de alargar a malha e permitir que mais pessoas façam mais testes”."
O esforço que estamos a fazer está a compensar?
Como assim?
Qual foi o esforço anterior a 22 de Janeiro quando, pela segunda vez e com base nos conselhos dos mesmos de sempre, voltámos a cometer o erro de fechar as escolas quando os contágios iniciavam a descida, sem fecho de escolas nenhum?
A que esforço se refere?
À realização de eleições a 24 de Janeiro, uma operação de movimentação e contacto de pessoas em larga escala e da qual não existe o menor sinal de impacto nos dados da epidemia?
Se continuarmos a fazer a imensa destruição de valor que estamos a fazer, com base em previsões manifestamente erradas e absurdas, desconsiderando factores chave para a compreensão da epidemia por meras razões ideológicas (ideológicas no sentido em que aparentemente estas equipas de investigação jamais deixarão que os factos influenciem as suas ideias), então merecemos o que nos está a acontecer.
ResponderEliminarSe fechámos as escolas para nada, ou quase nada, então o que é preciso dizer é que é um erro mantê-las fechadas, é um erro começar, a partir da próxima semana, o ensino à distância.
O que é preciso é não começar o ensino à distância. O que é preciso é reabrir as escolas.
ResponderEliminaro fecho de escolas era das medidas preferidas dos políticos
Eu acho que, cá em Portugal, não foi de facto medida preferida pelos políticos, bem pelo contrário, o governo resistiu fortemente ao fecho das escolas, e nenhum partido da oposição pediu tal fecho. O fecho das escolas foi, isso sim, uma medida preferida da comunicação social. Foi ela quem impôs esse fecho.
Mas esse efeito disruptivo é precisamente aquilo que se pretende. O que se pretende com o fecho das escolas é criar uma disrupção que provoque um sentimento de pânico e de emergência. O que querem não é propriamente parar a epidemia, mas sim criar na população um sentimento de revolta, emergência, medo e desorientação. E para isso o fecho das escolas é instrumental.
é uma coincidência do caraças que os números desçam quando se fecha tudo. parece que o Governo (os Governos), na ânsia de fechar tudo, fiquem à espera de ver quando é que a curva vai começar a descer para, uns dias antes, fechar tudo e com isso dizerem que a curva só desceu porque se fechou tudo... grandes malandros.
ResponderEliminarGraças a Deus que se está a confirmar o que o HPS preveniu há bastante tempo. E chamo aqui a graça divina, pois que, pelas declarações e previsões de "investigadores", só pode ter sido ela que baixou os números.
ResponderEliminarO que mais me espanta, ainda, é o senhor Carlos, não fazer uma mea culpa das asneiras que obrigou os decisores políticos a fazerem, apesar de até ter corrigido os próprios números oficiais para baixo.
O senhor primeiro ministro e o senhor presidente da república, que exijam na próxima reunião do Infarmed médicos, investigadores e outros mais sérios e sobretudo mais capazes.
Assim não. O fecho das escolas foi um erro e até o confinamento na semana anterior o foi.
Isto já para não falar na idiotice do fecho às 13 horas nos fins de semana.
E isto tudo para justificar a incapacidade de um governo que tem um SNS que "explode" com 0,06% da população do país em internamento.!!!!!
Repito 0,06%.
Foi por termos fechado tudo é que conseguimos ficar à frente da Suécia em número de mortos.
ResponderEliminarFelizmente houve um responsável que receitou as compotas para diminuir os contágios e abaixar a curva, senão era uma tragédia. E então agora com o pico do contágio daqui a quinze dias nem sei como vai ser.
Ainda bem que os médicos alemães vão trabalhar para o hospital da luz para ficarem a saber como é que se trabalha no SNS.
Penso que o que se passa, aqui e em todo o mundo, é que se fecha quando os números sobem muito.
ResponderEliminarComo o normal é a subida ser muito rápida e a descida começar às quatro, cinco semanas, há uma coincidência entre a pressão para fechar e o momento do pico se verificar ao mesmo tempo.
Tem sido assim em todo o mundo
é isso, é uma coincidência.
ResponderEliminarÉ mesmo e pode verificar isso de duas maneiras:
ResponderEliminar1) Olhar com atenção para a curva dos contágios (não é a curva de casos, é a de contágios, que ocorre sensivelmente uma semana antes) e verificar que ela inverte a tendência antes das medidas mais radicais serem tomadas;
2) Onde não foram tomadas medidas semelhantes, a evolução da epidemia é semelhante à dos sítios onde foram adoptadas essas medidas
O SNS explode devido às alterações dos procedimentos; i.e. aplicar o modelo de intervenção semelhante ao que é feito à Ébola a tudo o que é suspeita de Covid-19.
ResponderEliminarJunte-se a isto as ausências de profissionais de saúde por testes PCR positivos.
Os critérios de alta após internamento.