segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Discurso do método

"Não são só as escolas, nada poderá abrir tão cedo".


Maria João Brito, directora de infecciologia do hospital Dona Estefânia.


A unidade que esta médica dirige tem 12 camas, pode ampliar para 14, mas foi preciso ir arranjar mais 16 noutro espaço, o que já tinha acontecido em Abril.


Agora a situação é bem diferente porque os internamentos não estão a ser feitos por precaução, como em Abril, mas para atender casos graves (um em cuidados intensivos).


A tese da médica é a de que estamos a falar do mesmo vírus, mas que se comporta de maneira muito diferente.


Como sabe a médica que está a falar de uma variedade diferente?


Não sei, a médica não explica e eu suspeito que não andaram a fazer análises para saber qual era a variante que estava a afectar cada doente, o que parece - é a minha interpretação, não tenho informação para dizer que é assim - é que a médica em causa ligou a maior ocupação da sua unidade, com critérios de internamento mais exigentes, ao facto de haver estirpes diferentes em circulação, mas não verificou essa hipótese.


O ponto de vista da médica, que está focada no seu serviço, é lógico. Falta é verificar se é verdadeiro.


Olhando para a mortalidade covid - um indicador de incidência mais fiável para comparar Março/ Abril com o que se passa agora visto que a testagem é hoje incomensuravelmente maior - verificamos que ao pico em torno das 30 mortes diárias da Primavera de 2020, corresponde agora um pico por volta dos 280 (médias a sete dias), ou seja, uma incidência nove vezes maior, mais coisa, menos coisa.


Ou seja, aos 18 doentes que chegaram a estar no serviço de Maria João Brito na Primavera, deveriam corresponder, pela mera proporção entre incidência e doentes, cerca de 160 doentes.


As 30 camas disponíveis (depois da extensão) têm sido suficientes, exactamente porque se é mais exigente nos critérios de internamento (e, mais preciso, explica a médica que está neste momento mais preocupada com os obesos que com os imunodeprimidos e outras morbilidades, porque entretanto o conhecimento aumentou).


Ou seja, para explicar o que a médica vê no seu serviço, temos duas hipóteses (há com certeza mais), a que a médica refere - alterações no comportamento do vírus - ou a que resulta das contas que fiz, um aumento de incidência geral da epidemia, num determinado período.


Maria João Brito, que acredito que seja excelente no que faz e naquilo para que está preparada, dá, a partir daqui, um passo maior que a perna: conclui que, sendo assim, é preciso fechar as escolas - "não é nada fácil ter os miúdos em casa 24 horas ... É preciso fazer exercício físico, lerem, fazer teatro, jogos de família" - embora o papel das escolas no comportamento do vírus, ou mesmo na incidência da epidemia, seja matéria sobre a qual não existem evidências sólidas.


Apesar dos principais modeladores que tenho lido apontarem para o pico de casos entre 5 e 9 de Fevereiro, a mim parece-me evidente que o pico de casos já foi, ali pelo dia 28 de Janeiro ou perto disso, o que significa que o pico de contágios foi uma semana antes, algures ali pelo dia 21, um dia antes de fecharem as escolas (o que corresponde ao padrão de gestão da epidemia em todo o lado, as medidas mais radicais tomam-se depois de se começarem a verificar os efeitos que se pretendem obter, e depois conclui-se que o efeito verificado se deve às medidas, apesar delas serem posteriores à alteração de tendência).


É nestas alturas que me lembro sempre disto, que repito frequentemente:


“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros, mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”.


Abram lá as escolas que o efeito desregulador na sociedade que advém de ter as escolas fechadas (Maria João Brito que me desculpe, mas a descrição que faz das famílias com as crianças em casa 24 horas é absurda, quer para as trabalhadoras da construção civil, os caixas de supermercado ou as médicas que não podem estar em teletrabalho, como mesmo para quem tem de estar em casa, com as crianças, em teletrabalho) é incomparavelmente maior que o efeito de, lamentavelmente, ser preciso ocupar 30 camas com doentes no hospital Dona Estefânea.


Mesmo não discutindo se o fecho das escolas altera alguma coisa o número de doentes que entram nos hospitais.

19 comentários:

  1. Com todo o respeito pela pessoa em causa, e pelo trabalho que exerce, estas entrevistas com pessoas que dão "bitaites" sobre o que fazer com crianças que ficam 24 horas por dia em casa, deviam começar com a pergunta: "tem uma empregada filipina a residir consigo?"

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  2. Há uma coia que não entendo neste post. O Hospital Dona Estefânia é um hospital para crianças e jovens. Os doentes com covid-19 que lá estão internados são crianças ou jovens?

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  3. Sim, entre os doze dias e os 17 anos.
    As peças do Público em que se insere o que cito fazem parte da campanha para manter escolas fechadas com o argumento de que a estirpe inglesa afecta mais os mais novos.

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  4. Pode-se verificar em



    https://www.google.pt/search?sxsrf=ALeKk02DhadOMqMu9lOOWHbyXIEIglzuMQ%3A1612173711709&ei=j9EXYJDbKoCFhbIP1eq6oAU&q=coronavirus+cases+by+country&oq=covid-19+numbers&gs_lcp=CgZwc3ktYWIQARgAMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHMgQIABBHUABYAGDKpQZoAHACeACAAQCIAQCSAQCYAQCqAQdnd3Mtd2l6yAEIwAEB&sclient=psy-ab


    que o pico da média a 7 dias de novos casos do vírus foi efetivamente a 28 de janeiro.
    Essa média está atualmente a descer, embora ainda permaneça muito elevada.

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  5. Sempre a bater no mesmo ERRO...


    "... visto que a testagem é hoje incomensuravelmente maior..."


    É por esta simples razão, maior n.º de PCR's (verdadeiro negócio da China a dar milhões a muito salafrário!) que temos este ano de 2021 mais etiquetas CUVIDIANAS e como já se sabe que a cada etiqueta CUVIDIANA corresponde uma morte CUVIDIANA, mesmo que a causa real seja um um ataque cardíaco, não é de admirar que existam esse alegado n.º de mortes CUVIDIANAS!


    É tempo de começarem a escrever sobre a REALIDADE e menos sobre a PROPAGANDA...

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  6. Mais um cientista a la minuta. Pode ter as dúvidas que entender, mas no Norte e no Centro já se nota bem a inflexão a partir do encerramento das escolas. Segue-se Lisboa, em breve.

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  7. Veja se percebe.
    Se as escolas são encerradas a 22, isso diminuiria os contágios a partir desse dia, o que se reflectiria no número de casos a partir do quinto dia, maioritariamente entre o quinto e o sétimo dia, isto é, 27 a 29.
    E seria assim em todo o país.
    Se o Norte e centro começam a baixar os casos antes de 27, como começaram, a razão tem de ser outra, não pode ser essa.

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  8. Ok, hoje é segunda-feira, mas os números estão cada vez mais perto de dar razão ao H.P.S.

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  9. Antes de 22, havia já muitos menos estudantes em escolas; as turmas da minha escola andavam em média com 8-9 alunos em isolamento profilático.

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  10. Assim sendo, está a sugerir (e bem) que era perfeitamente gerível sem fechar escolas nenhumas.

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  11. "gerível"? com 25% à vez a faltar por duas semanas? Há alunos já com dois isolamentos em cima. Lindo.

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  12. Sem discutir se as razões pelas quais os miúdos estiveram em isolamento são certas ou erradas, não consigo perceber em que é que ter 100% dos alunos em casa, sem perspectivas nenhumas sobre quando voltaram às escolas, é melhor que ter 25% quinze dias em casa.
    Do ponto de vista da gestão da epidemia é igual ao litro, do ponto de vista da educação dos miúdos, em especial os mais pobres e mais frágeis, com menos condições de apoio fora das escolas, não tenho a menor dúvida de que fechar as escolas é bem pior que essa situação que descreve.

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  13. os números de hoje são iguais aos de ontem, dão razão a toda a gente e a ninguém ao mesmo tempo. 

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  14. Se fossem iguais aos de ontem, apontariam para uma menor probabilidade do pico ser entre 5 e 9 de Fevereiro, mas na verdade não são iguais, são mais baixos.
    Amanhã não sabemos, até pode ser que venham a demonstrar que quem previu na quinta ou sexta, que o pico ia ser entre 5 a 9 de Fevereiro tem toda a razão, o que não vale a pena é negar o que já sabemos hoje.

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  15. Referia-me somente à natureza dos números e dos cálculos estatísticos por detrás dos números revelados diariamente. Ainda alcanço que 5.000 e inferior a 9.000. 


    Mas deixe-me que lhe diga que nunca vi ninguém esforçar-se tanto para chegar à conclusão que nada sabe acerca de um assunto que não domina. É admirável. 


    "Amanhã não sabemos, o que não vale a pena é negar o que já sabemos hoje." Isto podia ser a conclusão de um ofício de ministério da propaganda, slogan de astrólogo ou de marca de refrigerante, post de facebook de uma miúda de 12 anos, verso de Pedro Chagas Freitas...  Notável!


    sem a dupla negativa fica ainda melhor: "Amanhã não sabemos, o que vale a pena é o que já sabemos hoje." 


    Melhor ainda, mais forte: "Amanhã não sabemos, só vale a pena o que já sabemos hoje." Por isso, bebe uma Coca-cola com os teus amigos e diverte-te, deixa a pandemia para os médicos e para os velhos!

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  16. Não é só cinco mil que é mais baixo que nove mil, é 5 805 que é mais baixo que 6 923 (o número da última segunda feira) e 11 889 que é mais baixo que 12 048 (as médias a sete dias de ontem e anteontem).
    Sabe o que lhe sugiro?
    Que comente explicando esses cálculos estatísticos misteriosos que demonstram que os números de ontem são iguais aos de anteontem.
    É que a sua opinião sobre mim nem a mim me interessa, o que realmente faria alguma falta é a discussão concreta, racional e aberta sobre previsões que influenciam as nossas vidas e que, parece-me a mim pelas razões que tenho vindo a expôr, estão grosseiramente erradas.
    Estou enganado?

    É o mais provável, e portanto deve ser-lhe fácil demonstrá-lo, em vez de fazer comentários pessoais que não interessam a ninguém nem têm nenhuma utilidade.

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  17. o meu comentário não foi sobre o Henrique, pois não o conheço de lado nenhum, mas sim sobre os seus posts. não confundo a obra com o criador nem o indivíduo com a instituição. 


    não me referi a cálculos estatísticos misteriosos, mas sim à natureza desses próprios números que me parece abstracta, em confronto com a realidade concreta que se vive nos hospitais, essa sim relevante, acho eu. os números permitem as mais diversas conclusões, está a subir, a descer, em planalto, no pico, etc., o que se passa nos hospitais não. mas é um achismo. pode ser tudo mentira e podemos estar a ser manipulados pelo...


    concluindo: achei piada à última frase do seu comentário "

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  18. Olhar para a situação nos hospitais é bastante útil, mas isso é olhar para 5% da epidemia.
    Uma coisa é gestão de hospitais, que tem de contar com os 5% da epidemia, outra coisa radicalmente diferente é olhar para a epidemia para a poder gerir.
    Quem desenha e comanda a gestão de um fogo, anda de helicóptero, estar na frente de fogo é muito pouco útil para o fazer de forma competente.

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