Ponto prévio: não gosto de fazer processos de intenções e esforço-me por partir do princípio de que toda a gente está de boa fé a tentar ajudar a gerir a epidemia. As minhas críticas aos modeladores e investigadores dirigem-se ao que eles produzem e não às pessoas envolvidas.
E só insisto nisto porque estamos a fazer um enorme destruição de valor, que terá como consequência um empobrecimento generalizado e uma crise social dolorosa - incluindo do ponto de vista sanitário - que a visão dogmática da gestão tem apoiado.
Acresce que há muito tempo li um artigo em que se defendia a tese de que todos nós tendemos a ser pouco objectivos na avaliação da informação sobre assuntos em que nos envolvemos emocionalmente - tipicamente, política, religião, desportos, etc. -, isto é, assuntos que contribuem para definir a nossa identidade. O mais interessante das conclusões do estudo é que ter mais informação, formação e capacidade não aumentava a objectividade do julgamento, pelo contrário, diminuía, no sentido em que somos mais capazes de construir justificações que defendam a nossa identidade, recusando o que nos confronta. Não sei o suficiente do assunto para saber se é assim ou não, mas acho que vale a pena partir deste princípio.
Por isso a pergunta do título deste post não é retórica, é uma pergunta real: como foi possível que os modelos produzissem resultados tão desligados da realidade?
Este post procura resumir a minha explicação para isso, depois de hoje a afirmação de Carlos Antunes sobre o pico dos contágios, que teria ocorrido por volta de 20 a 21 de Janeiro, ter feito um click na minha cabeça.
Em 24 de Dezembro houve Natal em Portugal, como é habitual, mas também começou uma anomalia meteorológica relevante, que durou quatro semanas, até 19 de Janeiro, uma duração bastante excepcional. Para além da duração excepcional, a anomalia também foi muito acentuada.
Se essa anomalia tiver tido um efeito directo na mortalidade, mais pela via das doenças cardio-vasculares que pelas doenças respiratórias, os dados indicariam uma mortalidade a aumentar a partir de 28 a 31 de Dezembro, mais coisa, menos coisa.
Se essa anomalia favorecer a circulação do vírus, isso reflecte-se quase imediatamente nos contágios (daí a importância da afirmação de Carlos Antunes, que consiste em verificar que os contágios começam a diminuir um ou dois dias depois do fim da anomalia, o que me levou à hipótese inversa de que um ou dois dias seriam suficientes para multiplicar os contágios).
Isto implica um reflexo nos casos por volta de 31 de Dezembro, um reflexo nos internamentos por volta de 5 a 7 de Janeiro e um reflexo na mortalidade covid por volta de 12 a 14 de Janeiro.
Ou seja, há dois processos a ocorrer ao mesmo tempo, com reflexos na mortalidade, mas com um desfasamento temporal na forma como se desenrolam.
Os dados mostram uma evolução inicial da mortalidade a partir de 24 de Dezembro, quer total, quer covid, com um aumento relativamente suave, mas claro, até 8 a 10 de Janeiro, mantendo-se a proporção entre mortalidade total e covid um pouco abaixo dos 20%.
Nessa altura (ou seja, quase três semanas depois do aumento de contágios covid por via do aumento da circulação do vírus, seja por causa do Natal, seja por causa da anomalia meteorológica) há uma alteração que se traduz num aumento mais rápido da mortalidade total, mais acentuado ainda na mortalidade covid (se quiserem usar as primeiras e segundas derivadas para ver isso, nada contra, mas não me peçam a mim para tratar disso), tendo como resultado um aumento progressivo do peso da mortalidade covid na mortalidade global, estando agora nos 40% e picos, mais coisa, menos coisa.
Durante toda esta fase, os modeladores assumiram que todas as alterações que viam ocorrer nas curvas resultavam dos contactos entre as pessoas e, naturalmente, entraram em pânico (não apenas os modeladores, grande parte da sociedade), procurando alertar para as consequências da evolução que eram capazes de projectar para o futuro, contrariando-as através de confinamentos estritos.
A 19 de Janeiro alteram-se as condições meteorológicas, o que tem como efeito uma diminuição quase imediata dos contágios e, num prazo de mais ou menos uma semana, a diminuição da mortalidade global, verificando-se o pico da mortalidade global (mas não covid, que tem o seu pico dois ou três dias depois) no dia 26 de Janeiro, o que é coerente com a bibliografia.
A partir do dia 19 de Janeiro a evolução da mortalidade global e a evolução da epidemia seguem caminhos divergentes.
A mortalidade global irá cair de forma relativamente rápida uma semana depois, arrastando consigo a parte da mortalidade covid que resulta de haver doentes que morrem de outra coisa qualquer, mas testam positivo.
A epidemia vai seguir o calvário da queda lenta resultante do tempo longo de desenvolvimento da doença: uma semana depois do pico de contágios existirá o pico de casos (como se verificou), uma semana depois o pico de internamentos e uma semana depois o pico de mortalidade covid, strictu senso.
Como os modelos desvalorizaram os sinais de falta de aderência à realidade e manifestamente não consideraram os efeitos da anomalia meteorológica, não conseguem explicar como é possível a coincidência do pico de casos (resultante do pico de contágios covid uma semana antes) e mortalidade (resultante da alteração das condições meteorológicas uma semana antes), e têm dificuldade em reconhecer a rapidez do processo de retorno à relativa normalidade.
O que será de esperar, se o descrito acima estiver certo, é uma primeira queda de mortalidade global e covid (esta menos acentuada porque não resulta da doença mas da parte da mortalidade que por acaso é covid) até 9 de Fevereiro (mais ou menos), uma queda dos internamentos a partir de ontem, 2 de fevereiro (os números de hoje apontam nesse sentido, mas não faz sentido tirar conclusões de um número isolado, é preciso esperar mais dias) e o acentuar da queda da mortalidade covid a partir de 9 de Fevereiro, quando à queda da mortalidade global se juntar a queda da mortalidade covid strictu senso.
Conclusão: os modelos falharam estrondosamente por ignorarem o contexto ambiental da epidemia, apenas considerando os contactos como motor principal da evolução da epidemia.
Pode ser que as mesmas circunstâncias que, por mero acaso, coincidiram no tempo para dar origem a uma situação excepcional de mortalidade em Portugal, permitam agora uma redefinição da forma como olhamos para a evolução da epidemia, mas eu não tenho fé nenhuma nisso.
Bem explicado.
ResponderEliminarSe duvidas houvesse, ficaram esclarecidas.
Volto a betar na mesma tecla:
Que raio de SNS é este que colapsa com o internamento de 0,06% da população?
Excelente texto.
ResponderEliminarObrigada.
Ana
Para "explicar o desacerto dos modelos" que ainda não foram objecto de publicação e que, objectivamente, não sabemos se existem. Ab initio, diga-se claramente que nunca se realizaram tantos testes em Portugal como durante o mês de Janeiro passado.
ResponderEliminar«More extensive testing will inevitably lead to more cases being detected.»
https://covid19-country-overviews.ecdc.europa.eu/
Isto significa que se uma pessoa tem um teste PCR positivo a um limiar de ciclos de 35 ou superior (como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa), as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%. A probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”.»
(Excerto do ACÓRDÃO N.º 1783/20.7T8PDL.L1-3 do Tribunal da Relação de Lisboa, de 11 de Novembro de 2020)
R(t) is calculated (not measured) from «data -
ResponderEliminarhttps://text.npr.org/962821038
The Mystery Of India's Plummeting COVID-19 Cases
Se não estivéssemos num período de pandemia, arriscar-me-ia a sugerir que, num tempo antes do COVID, o mês de Janeiro de 2020 e a sua mortalidade elevada seriam reportados na comunicação social como algo deste género: "Devido à vaga de frio que assolou o país, o mês de Janeiro registou um aumento significativo da mortalidade em Portugal, com particular destaque para as populações mais envelhecidas, com incidência nas mortes devido a infecções respiratórias e/ou de natureza cardiovascular, resultantes das temperaturas extremas verificadas e que foram das mais baixas na última década, em extensão temporal e valores extremos absolutos."
ResponderEliminarPara consubstanciar aquilo que comento, atente-se nas noticias do ano de 2019, para o mês de Janeiro, para não dizerem que sou adivinho:
https://www.publico.pt/2019/01/24/sociedade/noticia/frio-gripe-provocam-mortalidade-acima-esperado-1859320
https://www.sabado.pt/ciencia---saude/detalhe/dgs-justifica-mortalidade-acima-do-esperado-com-frio-extremo-que-afeta-idosos
https://ionline.sapo.pt/artigo/641857/portugal-e-dos-paises-onde-as-mortes-mais-aumentam-no-inverno-?seccao=Portugal_i
Aliás, não deixa de ser curioso notar que no ano de 2019 havia um especialista que assinalava que o alastramento dos vírus que provocavam as infecções respiratórias até se propagavam mais pelo facto de as pessoas procurarem mais os espaços fechados e pouco ventilados, devido ao frio.
Este ano, com o confinamento, de certeza que os vírus ficaram à porta.
Apenas para terminar, é curioso verificar como de 2019 para 2020/2021 os pressupostos e a visão sobre o mesmo problema se alteraram diametralmente. Não deixa de ser simultaneamente curioso e preocupante.
A questão que coloca, sobre a aderência à realidade dos modelos vs. eco mediatico dos mesmos prende-se mais com o facto de, neste momento, ser mais importante para a comunicação social justificar as decisões politicas tomadas do que propriamente fazer uma analise isenta e melhorar os modelos de previsão e consequentemente as deciões tomadas.
ResponderEliminarPessoalmente partilho da sua teoria que o efeito verificado nesta “terceira vaga” está intimamente ligado com a anomalia meteriologica que se verificou, visto o frio causar uma maior susceptibilidade nos seres humanos a outros virus respiratórios (já estudados na literarura), que é, em conjunto com os contactos, determinante na taxa de contágio. O grande problema é que os modeladores geralmente citados pelos media assumem que este último efeito é determinante e eu pessoalmente acho que o impacto das condições meteriologicas tem um efeito muito mais importante na taxa de contágio (muito bem visivel nos numeros do verão e outono).
Dito isto, os mainstream media nunca vão assumir esta versão, que deitaria por terra toda a gestão da pandemia feita pelo governo e criaria um problema enorme às elites que nos pastoreiam....