sábado, 6 de fevereiro de 2021

Contacto e contágio

Sem contacto não existe contágio, tal como  sem ignição não existe incêndio.


Estes dois factos indesmentíveis estão na base da intuição de que controlar contactos é controlar contágios e controlar ignições é controlar incêndios.


Tendo Portugal reduzido em muito as ignições (em dois terços nos últimos vinte anos, não fui verificar agora os números mas tenho ideia de que foi para esta ordem de grandeza que fui corrigido da última vez que escrevi sobre isto, de qualquer maneira não é a magnitude dessa redução que me interessa agora, mas sim ter havido uma redução muito substancial), por que razão não há qualquer sinal de efeitos dessa redução na gestão do fogo e nos seus impactos sociais?


Aparentemente o que acontece é que o território está saturado de ignições todos os dias, pelos mais variados motivos - causas naturais (pouco), acidentes, negligência, uso desadequado do fogo, fogo posto, etc. - só que, na esmagadora maioria dos casos, essas ignições se esgotam rapidamente sem qualquer consequência ou registo.


No entando, em alguns dias do ano (tipicamente, 12 dos 365), o número de ignições dispara, tal como dispara a área ardida: mais ou menos 1% das ignições dão origem a 90% da área ardida, o disparo do número de ignições registadas é brutal, podendo duplicar facilmente em muito pouco tempo e o principal factor que explica essas mudanças é a meteorologia.


Note-se que este fenómeno é fortemente regionalizado e as variações meteorológicas são de tal forma pequenas que a nossa rede de registo e medição não consegue ter uma rede tão apertada que registe essas pequenas variações que fazem com o que o fenómeno tenha mais intensidade num local e muito menos noutro.


O que conseguimos, isso sim, conseguimos com bastante acuidade, é saber antecipadamente, umas horas antes, um ou dois dias, dificilmente mais, identificar as regiões onde isso vai acontecer, aliás, se querem fazer analogias entre a epidemia e o fogo, não só era bom que estudassem um bocadinho sobre fogos antes de dizer disparates, como o mais útil era levar a analogia até ao fim e juntar, por exemplo, Carlos da Câmara às equipas que trabalham os modelos para ver se não são apanhados desprevenidos pelas variações da meteorologia.


Já agora, não são as temperaturas altas, não é a humidade atmosférica, não é a velocidade do vento, todos eles importantes por si, em especial os dois últimos, mas é o conjunto de meteoros que estão a ocorrer (no sentido de fenómenos atmosféricos) e a forma como interagem com o fogo, que é relevante.


Por essa razão, há muitos anos que tenho uma posição ultra-minoritária, no que diz respeito à gestão do fogo, que consiste em encolher os ombros face à necessidade de diminuir ignições.


Tenho uma repulsa visceral por todas as políticas que visem forçar a natureza a ser uma coisa diferente do que é, lembro-me sempre do sofrimento associado aos resultados da famosa "campanha das quatro pragas" maoista e, mais ainda, do horror da mortandade resultante da recusa da genética mendeliana que, na opinião de Lysenko e da burocracia soviética, contrariavam os fundamentos do Marxismo.


Sempre me pareceu que tentar parar o vento com as mãos é uma atitude muito estúpida.


O que me interessa verdadeiramente não é diminuir ignições, é compreender o que acontece naqueles doze dias no ano que fazem ignições iguais a todas ter resultados completamente diferentes, de modo a actuar sobre as condições sobre as quais seja razoável actuar, com o máximo de benefício e o mínimo custo social.


A generalidade da sociedade e, em grande medida, as políticas oficiais - felizmente, cada vez menos - têm uma percepção completamente diferente da minha (na verdade, a percepção acima não é minha, é dos que investigam o assunto e produzem informação sólida sobre o processo ecológico a que chamamos fogo) e acreditam piamente que reduzir uma ignição tem um efeito proporcional na redução do efeito dos fogos na sociedade, portanto consideram que toda e qualquer redução de ignições é, em si, benéfica.


Por isso existem campanhas para educar as pessoas, no pressuposto de que se educarmos adequadamente as pessoas elas se comportam como nós gostaríamos.


Por isso existem dezenas de disposições legais, associadas ao consequente aparelho repressivo para obrigar os que não se deixam educar a comportar-se educadamente.


No fundo, se as ignições resultam esmagadoramente da actividade humana, entende-se que é possível resolver o problema das ignições condicionando as pessoas a serem bons cidadãos.


Um amigo dizia-me hoje que a maior frustração que sente em relação à gestão da epidemia é que um ano depois, continuamos a ter como política a supressão de todos os contactos porque não sabemos quais são os contactos em que o risco de contágio é elevado.


Por mim, estou como outro amigo me dizia há muitos mais dias atrás: não sei mesmo o que se passa na cabeça de quem acha que a interacção social se liga e desliga como os cadeeiros.

3 comentários:

  1. Ontem, ao ouvir o senhor Carlos Antunes, na RTP1 a defender as suas teorias de luta contra o vírus com analogias com o combate aos fogos, até pensei que queria responder a a si, Henrique P. Santos.
    Para mim que não sou nem de perto nem de longe um "experto" na matéria, fiquei com a impressão que não foi lá muito feliz.  Eu pelo menos não percebi.
    Quanto às explicações para a redução nos números essa percebi o que o senhor não quis perceber. É que o confinamento "light" e sobretudo o fecho das escolas não tiveram nada a ver com isso. Ele próprio confirma as datas e usa-as para confirmar a sua teoria. Sinceramente não percebi

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  2. não sabemos quais são os contactos em que o risco de contágio é elevado


    Exatamente. Esse é que é o drama.

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  3. Brincar às FALSAS PANDEMIAS é sempre divertido...

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