A informação sobre a epidemia a que a generalidade da imprensa tem dado importância prende-se com a pressão sobre o sistema de saúde e com as previsões de um conjunto de matemáticos.
Confesso que quando vejo pessoas responsáveis dizer que as escolas não podem abrir porque ainda há muita gente em cuidados intensivos me assaltam duas perplexidades essenciais.
Uma prende-se com o absurdo de se entender que é legítimo fechar o acesso a um serviço essencial, como é a educação, para resolver as fragilidades de outro serviço essencial, como é a prestação de cuidados de saúde, sem que se ponderem adequadamente os prejuízos e benefícios de cada opção.
Uma coisa é os serviços de saúde entrarem em colapso, deixando de ser capazes de prestar assistência aos doentes, que é uma situação limite.
Outra coisa é os gestores dos serviços de saúde decidirem que só se sentem confortáveis com 200 ou trezentas camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes covid e, consequentemente, acharem normal ter toda a sociedade, em especial as escolas, fechadas para se atingir um número de ocupação de camas que é unilateralmente definido pelos gestores dos sistemas de saúde.
A facilidade com que se propagou a ideia de que é a sociedade que tem de se organizar para proteger os serviços de saúde, em vez de serem os serviços de saúde a organizarem-se para proteger a sociedade é, para mim, um mistério insondável.
Para evitar situações limite na saúde talvez seja razoável bloquear o acesso à educação de milhares de alunos. Para dar conforto aos serviços de saúde, francamente, tenham juízo.
A outra perplexidade prende-se com a confiança que se deposita em modelos de previsão que, dia após dia, demonstram a sua inutilidade, dado o desfasamento entre as previsões e a realidade (quer por defeito, quer por excesso, isso é irrelevante, qualquer das duas situações demonstram que a modelação feita não reflecte a realidade do processo que está a tentar modelar).
Um bom exemplo é a insistência que agora se faz no excesso de pressão que ainda existe sobre o sistema de saúde: os contágios caíram, os casos diminuíram fortemente, e evidente que os internamentos e a mortalidade irão diminuir de acordo com o que se passou nos contágios. Se ainda há muita gente em cuidados intensivos, é porque a doença tem uma evolução lenta e o desfasamento entre contágio e alta dos cuidados intensivos pode ir facilmente às três ou quatro semanas (ou mais).
Seria normal os modeladores estarem agora a dizer que realmente não faz sentido nenhum estar a prejudicar milhares de alunos à espera de uma descida de internamentos que ocorrerá de qualquer maneira nos próximos dias.
Infelizmente, uma boa parte dos modeladores, deixaram há muito de funcionar como investigadores e são meros activistas.
Por isso, quando confrontados, dizem que quem os contesta não sabe de matemática, não consegue apreender bem o que significa um processo ser exponencial (esquecendo-se que depende do valor do exponencial ser um processo lento ou rápido) e não estão a ver bem a coisa porque têm dificuldade em compreender integralmente o efeito da evolução da segunda derivada.
Meus caros matemáticos, muito antes de haver matemática, muito antes de haver segundas derivadas, já as pessoas comuns sabiam perfeitamente o efeito de uma aceleração progressivamente maior ou progressivamente menor, escusam de se esconder atrás de uma suposta sofisticação matemática para fugir à discussão substancial do que está em causa.
E o que está em causa, neste momento, é uma evolução muito favorável da epidemia e um custo desproporcionalmente alto do fecho de escolas, que não tem qualquer justificação substancial.
Amanhã a tendência pode inverter-se?
Sim, pode, as probabilidades não vão nesse sentido, mas sim, pode inverter-se a tendência.
Se a positividade dos testes desatar a subir, se aumentar o factor de contágio, se a base de casos subir de forma relevante, então discutimos outra vez confinamentos e fecho de escolas.
Mas agora, na actual situação, por favor, tenham juízo e deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada e façam lá umas contas de deve e haver, pondo de um lado os custos e os riscos sanitários, e do outro, os custos de oportunidade de manter as escolas e a economia fechados.
E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros.
boa tarde
ResponderEliminarHá claramente uma influência hollywoodesca no trabalho destes supostos especialistas, com eles a sentirem-se como o cientista justo e certo, mas inicialmente incompreendido, de uma série de filmes - Tubarão, o Cume de Dante, etc. Vão salvar os semelhantes mas há sempre um bronco a questionar o seu brilho - bronco esse que acaba mal, claro.
Foi William F. Buckley que disse que preferia ser governado pelos 2.000 (ou parecido) primeiros nomes de uma qualquer lista telefónica do que pelo corpo docente de Harvado - ele sabia bem que ser especialista numa área e ter bom senso não são concomitantes. Para além do mais, quem se põe no alto dos seus tamanquinhos e invoca a especialidade dos seus conhecimentos para descaracterizar os críticos tem uma noção muito bizarra de si próprio, no mínimo...
ResponderEliminarHPS, o seu último parágrafo neste texto é, somente, o que é importante. O resto é vaidade, tal como correr atrás do vento...
Abraço
"...
ResponderEliminarCaro Senhor
Outrora era uso dizer-se " se queres ver o vilão, mete-lhe um pau na mão."
Os tempos mudaram, e hoje em dia eu adaptaria o adágio anterior para "se queres ver um sabichão mete-lhe um canudo na mão".
Se ao vilão de antanho era novidade a oportunidade de mostrar a sua crueldade sobre os outros, o sabichão de hoje vê, nas suas culturalmente recentes letras, uma promoção social, e um direito de ser ouvido na "sua área" ( em tempos que já lá vão( 1ª vaga) ironizei sobre o Dr Exponencial Buesco, que previa o fim dos tempos que aí vinham baseado nos seus "modelos")
E, num abastardamento do que já em si tem laivos de perversidade, considera-se que se tem mérito por ter um canudo, não por actos e provas dados da sua vida pessoal e profissional tornando-se a meritocracia uma passarela de títulos académicos, sem qualquer fundamento na realidade.
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira
"
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ResponderEliminarNão será essa moda uma forma dos políticos se desresponsabilizarem?
Claro que é.
Quem escolhe os especialistas é o governo (reuniões Infarmed, ...), quem manipula a opinião pública com especialistas é o governo. Se o governo quisesse outra coisa que não o que temos agora já tinha escolhido outros especialistas.
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