... o que os distingue é serem úteis, ou não.
Aparentemente, esta premissa base da modelação tem estado mais ausente do que deveria do escrutínio das previsões com base nas quais se tomam decisões que afectam a vida de milhares de pessoas.
Na famosa reunião do Infarmed a 12 de Janeiro, se não me engano, foram propostas um conjunto de medidas, baseadas nas previsões assentes em modelos desenhados para compreender o que se passaria no futuro próximo.
Essas previsões foram sintetizadas nesta página do Público.

Como o Governo resistiu à proposta de confinamento estrito, incluindo o fecho das escolas, os investigadores responsáveis por estas previsões, e que defendiam medidas de política diferentes das adoptadas pelo Governo, desenvolveram uma intensa campanha de comunicação no sentido de explicar que sem o fecho das escolas e sem um confinamento estrito o número de casos, a 27 de Janeiro (hoje), seria em torno dos 37 mil, e só adoptando um confinamento muito estrito, com fecho de escolas, seria possível ter hoje 14 mil casos covid.
Primeiro, uma questão metodológica: suponho que quando os investigadores falam destes números não falam do número concreto de cada dia, mas da média de sete dias que faz desaparecer grande parte do ruído que resulta de não se testar igualmente todos os dias.
Escarecido isto, seria normal que os jornalistas, em vez de passarem o tempo a ouvir os investigadores refazerem as suas contas - a 17 de Janeiro, Manuel Carmo Gomes era entrevistado pelo mesmo Público, justificando o facto dos dados se aproximarem do seu cenário de confinamento estrito, sem confinamento quase nenhum, com o limite da capacidade de testagem, coisa que nada permitia admitir como estando a ocorrer - procurassem avaliar e escrutinar as previsões feitas, o que nem é nada complicado, bastaria um boneco como este.

Ora o que o boneco nos mostra é uma média de sete dias sempre com uma inclinação menor que a recta prevista para o cenário de confinamento estrito e, mais importante, com um quebra na inclinação de há três dias para cá.
Ora, o fecho de escolas só poderá ter algum efeito cinco dias depois de ocorrer, portanto não influenciou em nada o andamento da epidemia até hoje, o que significa que sem as medidas consideradas essenciais pelos investigadores, está a haver uma evolução mais favorável que a prevista para um cenário de confinamento estrito.
Ao ponto de à previsão de 37 mil casos sem medidas - que foi o que se disse que na realidade eram as medidas tomadas pelo Governo a 15, quando ainda se podia beber um café ao postigo - a realidade contrapõe 15 mil casos, se usado o número de hoje, menos de 13 mil, se usada, como deve ser usada, a média de sete dias, ou seja, um desvio de mais de 100%.
Acresce que no caso das mortes o problema é o inverso, onde os investigadores viam 150 mortes, a realidade mostra quase 300 mortes (um pouco mais de 250, se estivermos a falar, como deveremos, da média a sete dias).
O problema não é o modelo ter resultados grosseiramente errados, isso pode acontecer com os melhores modelos, o problema é que as explicações para esses desvios não têm grande consistência.
Na academia, este tipo de situações são normais e correntes, o problema é quando os investigadores saem do seu campo de trabalho para a definição de normas sociais com impactos sobre terceiros.
Por exemplo, ainda ontem, Carlos Antunes - que faz parte da equipa que fez estas previsões - dizia na TVI que a covid explicava 85% (não sei se o número era exactamente este, mas era desta ordem de grandeza) da mortalidade excessiva e garantia ter demonstrado isso (com recurso aos seus modelos, claro). Só que esta demonstração tem um pressuposto, que é o de considerar que toda a mortalidade covid é uma mortalidade que se soma à mortalidade existente, isto é, que todas as pessoas que morreram com covid estariam vivas se não houvesse covid.
Este pressuposto é simplesmente absurdo - quer porque se conhece a fragilidade da condição de saúde da maioria dos mortos covid, quer porque a covid absorveu a esmagadora maioria da gripe sazonal, cuja mortalidade em excesso se estima numa média anual de 3 mil pessoas.
Da mesma forma, apesar dos sinais evidentes de abrandamento, não só no crescimento de casos, mas também no facto da positividade dos testes ter estabilizado há três dias, por exemplo, mesmo sabendo que é preciso esperar mais uns dias para verificar se a tendência se confirma, a mesma equipa de investigadores continua a fazer projecções baseadas em crescimentos futuros semelhantes aos crescimentos das últimas semanas, e a garantir que a única maneira de alterar essas previsões é estar tudo quieto em casa, em vez de rever os modelos.
Claro que a minha opinião sobre isto não interessa nada porque não percebo nada de modelação e as epidemias com que lidei não eram com pessoas mas na área da conservação, mas não entendo como não é possível haver explicações convincentes para este evidente falhanço dos modelos e, sobretudo, como a imprensa não parece ter o menor interesse em fazer este escrutínio simples, apesar do enorme impacto que estas previsões têm na formulação de medidas que afectam a vida de toda a gente.
Inteiramente de acordo.
ResponderEliminarMas estas previsões catastróficas (em termos de saúde) redundam em autêntica catástrofe social, pondo a nossa economia em pantanas, por muito tempo.
E o Henrique tem razão: desse pecado também vão ser acusados os nossos jornalistas qjue, na sua esmagadora maioria, alinham com tais "especialistas", como aconteceu com o jornal Público em 13 de Janeiro.
Porque não negociar directamente com a Federação Russa a compra de um lote -para eles insignificante- de vacinas "russas". Para já são verdadeiras vacinas, não são bricandeira de negociantes/laboratórios. São mais baratas e têm um processo de ministrar muito mais seguro.
ResponderEliminarAs vacinas via a dita União Europeia(!) é como as bazucas: chega quando chegar, nunca antes. Com as prioridades de quem manda, as prioridades deles. Nunca antes.Estamos a assistir ao respeito que merece um processo de destribuiçãode vacinas made in UE, saúde à moda da UE.
De que se está à espera em Belém e em S. Bento?. Que o socialismo nacional mate mais portuguêses nas ambulâcias?.
O regime tem uma montanha de tabus. Um deles é a UE.
ResponderEliminarManuel Carmo Gomes é só mais um idiota que deveria estar a trabalhar no topo da Serra da Estrela apenas com uma mesa e cadeira e só a roupa que habitualmente usa no gabinete da "universidade" onde desperdiça recursos públicos!
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ResponderEliminarQue o socialismo nacional mate mais portuguêses nas ambulâcias?.
Esse sempre foi o OBJECTIVO dos Bilionários que CONTROLAM a OMS, e por cá os salafrários estão EMPENHADOS em fazer boa figura, e estão a conseguir!
Nem todos os modelos estão errados. Tanto assim é que conseguimos colocar com precisão sondas em Marte, na Lua e nesta até veículos tripulados, só para referir alguns exemplos. O grande problema reside na validação de determinados modelos, nomeadamente aqueles que não se baseiam em princípios físicos e químicos para os quais existem equações comprovadas e, além do mais, não podem ser sujeitos a verificação experimental.
ResponderEliminarNas áreas das ciências "duras" continua hoje a ser impensável apresentar-se resultados de modelação numérica original sem que se faça estudo comparativo preliminar com resultados experimentais, nem que para isso se tenha que construir uma instalação experimental de raíz - tudo para provar que os resultados do modelo reproduzem a realidade, evidência sem a qual a credibilidade do modelo é nula.
Já na área da Epidemiologia e também noutras, cujos modelos não se baseiam em princípios físicos e químicos para os quais existem equações comprovadas e onde imperam suposições, não é possível concretizar a fase de validação experimental. Por esse motivo, os resultados produzidos pelos modelos podem ser os mais correctos, ou os mais disparatados, apenas se conseguindo avaliar da sua correcção - a maior parte das vezes incorrecção, note-se - a posteriori.
Recorde-se que o modelo do Prof. Ferguson, do Imperial College, previa 60 000 mortos na Suécia até ao Verão passado, na ausência de confinamento. Na realidade, morreram cerca de 6 000, estando o modelo errado por um factor de 10. No entanto, foi esse modelo que ditou as políticas de saúde pública em muitos dos países.
Lamentável que decisões políticas sejam tomadas com base neste tipo de modelação. Risível que se escreva em artigo científico: "We appreciate the challenge of modelling emerging infections given the lack of data for both model parameterisation and validation, and inherent complexity of the approaches used."
Ou como dizia Feynman: "It doesn't matter how beautiful your theory is, it doesn't matter how smart you are. If it doesn't agree with experiment, it's wrong."
PS - Faltou abordar a ausência de publicação dos modelos usados em Portugal. A Prof. Gabriela Gomes encarrega-se disso neste artigo do Público:
https://www.publico.pt/2020/03/30/ciencia/opiniao/previsoes-covid19-portugal-1910144
ResponderEliminarSerá que o ar descontraído do camarada Jerónimo que "espera a sua vez como qualquer outro cidadão" tem uma outra explicação?. Será que os camaradas lá do comité central já todos testaram (voluntariamente) a sputnik?.
Chamem-lhes parvos.
ResponderEliminarnegociar directamente com a Federação Russa a compra de um lote -para eles insignificante- de vacinas "russas"
Não é insignificante. A Federação Russa tem sérios problemas na produção industrial das vacinas que os seus cientistas inventaram. Uma coisa é inventar vacinas, outra muito diferente é ter capacidade industrial para as produzir em grande escala.
ResponderEliminarAna...
A Corporação MERCK, após mais de um ano de atraso, lá conseguiu chegar à mesma conclusão que eu cheguei em Março de 2020!
Escrevi em inglês porque estava a falar com escravos que não sabem Tuguês!
(https://twitter.com/27khv?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1354853203741958155%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.zerohedge.com%2Fcovid-19%2Fputin-declares-virus-slowly-receding-russia-amid-sputnik-v-mass-vaccination-campaign)
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