quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Ir por lã e voltar tosquiado

Bárbara Reis escreve coisas no Público, seguindo o princípio de que os leitores estão interessados nas opiniões dos jornalistas, princípio esse que tem dado muito bom resultado nas vendas de jornais.


Só que lhe sobra em preconceito o que lhe falta em informação e conhecimento, pelo menos em algumas matérias, o que lhe permitiu aventurar-se pela desmontagem de uma comparação entre o desempenho económico da Irlanda e Portugal, relacionando-a com os respectivos sistemas fiscais, matérias sobre as quais se desconhece a "longa experiência com honesto estudo misturado" de Bárbara Reis.


Pior, Bárbara Reis não terá feito o mínimo esforço para entender a origem da comparação (chegou-lhe via whatsapp, sem indicação da origem) e, provavelmente, desconhecia que essa comparação era de 2018, fazia parte dos materiais de comunicação da Iniciativa Liberal e o seu autor era Carlos Guimarães Pinto.


Carlos Guimarães Pinto resolveu escrever uma resposta a Bárbara Reis que o Público publica hoje.


Sobre a substância nem vale a pena falar, de tal dimensão é o arraso que seria de esperar numa discussão económica entre Carlos Guimarães Pinto e Bárbara Reis.


O que gostaria de sublinhar é mesmo a pobreza de processo jornalístico usado por Bárbara Reis (anos a fio directora do Público) na preparação do seu artigo, que a resposta evidencia.


Desde não procurar a origem da informação e não confirmar devidamente os dados que usa ou critica, até à utilização de contextos de forma criativa para interpretar os dados, estão ali evidenciados problemas sérios de jornalismo que são bem mais preocupantes que a sua natural falta de conhecimento sobre o tema que resolveu abordar.


É natural que jornalistas não sejam especialistas dos assuntos sobre que se debruçam, por definição um jornalista é um generalista que escreve sobre uma variedade de assuntos suficientemente grande para não poder ser especialista de  nenhum deles, e isso não é necessariamente mau, até porque aproxima as perguntas do jornalista das perguntas do seu leitor.


Já a evidência de negligência e falta de cuidado no tratamento jornalístico do caso que escolheu, por parte de quem é jornalista desde o tempo dos afonsinhos e foi directora, anos a fio, de um dos principais jornais do país, isso sim, é um problema de todos nós porque é bem a imagem da qualidade do jornalismo do país.


E um mau jornalismo é bem mais perigoso que um mau governo, para parafrasear o outro.

7 comentários:

  1. Lamento que tenha suspendido a sua conta do FB. Muito obrigado pelas suas publicações.

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  2. Por várias vezes tentei permanecer assinante deste jornal, mas não consegui, tal se demonstrava o enviesamento ideológico das peças jornalísticas, e não estou a falar dos artigos de opinião. Opinião é opinião. Sinceramente, ainda gostaria de saber quais as verdadeiras razões tem o seu dono (do Público) para manter um jornal assim, além de ser sistematicamente deficitário.

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  3. Concordo com a sua análise e é extraordinário tudo quanto diz porque tocou num ponto essencial: estamos cercados por um tipo de  jornalismo pouco cedível e muito atrevido (a ignorância é assim) e embora sem qualquer ideologia, como convém (os jockers devem ter sempre alguma maleabilidade) são, contudo, muito "comprometidos" politicamente. 
    No meio de tantas contradições esta fórmula resulta e é decisiva: 
    Maus governos têm "sucesso" com maus jornalistas, mas "boa imprensa" .

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  4. correcção: 
    " credível "

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  5. HPS, veja estas imagens de outro jornalista "ideologizado" . 
    Quando um gesto é tudo!

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  6. Sou habitual leitor do Público, mas a Bárbara Reis numca me enganou. Trata-se de uma jornalisca vesga (só vê para um lado) e que, quando directora, tentou enganar os leitores do Público, escondendo a autoria dos Editoriais que não assinava e apenas promoviam as ideias do BE e próximos, como sendo de todos os jornalistas do Público. 
    E, é certo, tudo que escreve é cientificamente colado com cuspe - descola mal a gente espreita...

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  7. Nós não temos mau jornalismo, temos jornalismo medonho.


    Nem temos (apenas) negligência e falta de cuidado, temos activismo.


    Está por fazer a história da mudança do paradigma jornalístico de há 15 anos para cá, iniciada nos EUA, e que passou pelo abandono do princípio de que a principal função do jornalismo é informar, com verdade, rigor e isenção, e a sua substituição pela ideia que a principal função do jornalismo é lutar pela construção de um mundo melhor.


    Isto é, a luta pelo Bem é um valor superior à Verdade na actual actividade dos OCS.


    O jornalismo converteu-se na continuação da actividade política por outros meios.


    O final lógico de toda esta história tinha de ser a subsidiação directa dos OCS pelo governo, cuja actividade política era suposto controlarem.


    Era impossível de acontecer e aconteceu em Portugal em 2020.

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...