sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Os horários dos invisíveis

Com a eventual abertura de supermercados às seis e meia da manhã apareceu uma espécie de coro grego a falar da violência dos horários dos trabalhadores.


A mim fez-me lembrar o barulho que foi quando no tempo de Passos Coelho se pôs a hipótese de fechar o Metro às onze, em vez da uma da manhã, para reduzir custos operacionais, o que gerou um barulho gigantesco por parte da tout Lisbonne que escreve e fala de forma audível, sem que ninguém aproveitasse para defender que se era para fechar às onze da noite, o Metro começasse às cinco, em vez das seis e meia.


Compreende-se, os milhares de trabalhadores que cruzam o Terreiro do Paço a correr entre os barcos e autocarros a essas horas são completamente invisíveis para muita gente: são pobres, maioritariamente pretos e mulatos, não lêem jornais, não dão entrevistas e não querem confusões que desfaçam o frágil equilíbrio das suas finanças.


E ainda por cima fazem trabalhos pouco criativos, como limpar os escritórios e casas que queremos impecáveis, ainda tendo de aturar o cinismo politicamente correcto de Francisco Louçã a falar da "senhora que ajuda lá em casa" para designar o trabalho que fazem e que só valorizamos quando alguma coisa ficou desarrumada ou menos bem limpa.


Já agora, por falar em hiprocrisias sobre limpezas, talvez caiba aqui lembrar que nos tempos do confinamento da Primavera, quando a burguesia que pretende deter o monopólio da compaixão pedia aos seus pares para por favor deixarem as suas empregadas ficar em casa, pagando-lhes por inteiro, para não as expor à infecção, a CGTP mantinha o serviço de limpeza da sua sede, um outsourcing que diz mais sobre os efeitos da lei laboral que outra coisa qualquer, quando até a CGTP prefere contratar empresas externas a dar vínculos definitivos aos trabalhadores que garantem a limpeza das suas instalações.


A que horas pensam que se levantam os padeiros, os distribuidores de jornais, os merceeiros, os polícias, etc.?


Quando a Rosarinho abria o quiosque às cinco e meia, e a pastelaria abria pelas seis, eu não era o único cliente habitual, ou menos habitual, a estar por ali a beber um café e ler o jornal, depois de ter vindo pela rua a cumprimentar as senhoras que estavam a acabar o seu turno na minha rua, essas também com um horário difícil (uma delas ainda me deve um euro para tabaco, que a noite tinha sido má, ainda me cruzo com ela de vez em quando por aqui, mas dou por muito bem gasto esse euro que nunca me pagará, à conta das vezes que a ouvi cantar fado muitíssimo bem, nos dias em que lhe dava para aí).


Há vidas duras, há vidas muito duras, e há as nossas vidas, as de quem pode escolher horários e preços e ainda ter tempo para vir achar que não há ninguém que vá ao supermercado às seis e meia da manhã, só porque no conforto das vossas vidas são incapazes de imaginar que o mundo é muito grande e diverso, e que o vosso mundinho não é o mundo.


Daí não viria mal ao mundo se esse barulho todo não fosse feito pelas elites que se conseguem fazer ouvir por governos fracos que passam a tomar decisões em função desse bruáá, sem a menor consideração pelas vidas dos outros, os invisíveis.


E já agora, uma vez por outra, a comprar o jornal no quiosque ainda me cruzei com Alexandre Soares Santos, a caminho de qualquer sítio, a comprar o jornal sem sequer sair do carro, algures entre as seis e as seis e meia.

24 comentários:

  1. O Pingo Doce quer é "ganhá-lo" todo...
    Nem durante o dia todo despacham as pessoas, por falta de pessoal. Em todas as secções! 
    Esperamos em fila eternamente, nem que seja apenas com uma unidade ou alguma revista ou livro. O patrão é um sumítico. Os funcionários trabalham demasiadas horas e o cliente é mal servido.
    E ninguém tem cabeça para se abastecer ás 6, 30h da matina...
    Usurários ...- quem se lixa é sempre o mexilhão!

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  2. O "Pingo Doce" de Campolide, que é o "meu", tem enorme procura pelos donos dos restaurantes, tascos e cafés da zona, e dos (pelo menos) três lares de idosos que se situam a menos de 500 metros. Certamente que a esses daria muito jeito que abrisse às 06h30, em especial neste fim-de-semana, em que a fila à porta deve chegar às Amoreiras. Mas, de facto, há que não tenha noção da realidade, e ouvir o Medina e o Carreiras ontem meteu-me nojo. Aliás, só nos dias em que, excepcionalmente, calhou sair mesmo muito cedo ou chegar mesmo muito tarde, ganhei noção do horário brutal dos merceeiros (quando cheguei, eram dois, agora és só um) da minha zona (os verdadeiros, não aqueles que servem para legalizar estrangeiros), que para lá do tempo que estão abertos, ainda vão abastecer-se de madrugada aos mercados, para conseguir produtos frescos de qualidade superior, que é a única maneira de conseguirem fazer frente, precisamente, ao "Pingo Doce". 

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  3. Passei logo para o Lidl...
    Qualidade, preço, rapidez-quando têm mais de 4 pessoas numa caixa mandam logo abrir outra. Carne belíssima e peixe congelado mas de primeira. Fruta e legumes do mais fresco que há...
    Bom dia.

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  4. V.Exa. só deu 1 euro à Severa??!!
    Depois não querem que a malta pegue os fogos...

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  5. os verdadeiros, não aqueles que servem para legalizar estrangeiros


    Como é que os merceeiros servem para legalizar estrangeiros?


    Que interesse é que os estrangeiros têm em vir para cá, se não tiverem cá como ganhar a vida?

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  6. Há a possibilidade de se abastecerem na noite anterior. O Pingo Doce está aberto até às nove da noite, creio. Mas nada o impede de abrir até às dez e meia.

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  7. Essas pessoas que não se vêm e trabalham de madrugada já o fazem há anos e ao Pingo-Doce nunca pareceu necessário servi-los às 6:30 da manhã.
    Já quando se mandou diminuir o número de horas que as lojas estão abertas por motivos de saúde, o Pingo-Doce lembrou-se de tentar contornar a lei, abrindo mais cedo.
    Não se trata de servir melhor, trata-se de aproveitar a pandemia para ter ganhos. Além dos dois tiques conhecidos do Pingo-Doce: 
    1 - O pavor de que diminuindo o tempo de abertura e não podendo diminuir os salários ficassem pontas de trabalhadores sem serem convenientemente explorados.
    2 - A atitude de chico-esperto que faz as suas próprias regras, sempre a seu favor.

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  8. Vou-lhe explicar. Um traficante de pessoas arrenda uma loja vazia, põe lá uma mercearia que compra os frescos em que já ninguém pega. Ninguém compra aquilo, mas, a mercearia dá contrato de trabalho a um conjunto de pessoas que vêm do Balgladesh, Paquistão, ou Índia, pagando ao traficante por isso. As pessoas amanham-se o tempo necessário para ter a papelada em ordem, e, assim que obtêm um visto Schengen, ou, se tiverem mais paciência, um passaporte português, vão para um país onde, aí sim, vão ganhar a vida - mas onde, provavelmente, as autoridades estranhariam haver 4 mercearias / lojas de telemóvel / loja de souvenirs ditas "de indianos" no espaço de 100 metros, sem nunca se ver clientes, e já tinha ido tudo parar à cadeia. A seguir, vêm outros, e a coisa prossegue. 

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  9. É pá, você é mestre em "lapalissadas", mas desta vez excedeu-se!

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  10. Estes anónimos faltam às reuniões e depois dá nisto: ao "P

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  11. Talvez lhe fizesse bem aprender coisas novas:


    https://observador.pt/opiniao/a-parteira-da-historia/


    boas leituras!

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  12. o Pingo-Doce lembrou-se de tentar contornar a lei, abrindo mais cedo


    Não percebo porque é que, em vez de abrir mais cedo ao sábado, não fecham mais tarde à sexta-feira. É perfeitamente legal, e acredito que haveria mais pessoas dispostas a fazer compras na sexta às dez da noite do que no sábado às sete da manhã.


    Deve ser mesmo da parte dos donos do Pingo Doce vontade de embirrar com as medidas governamentais.

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  13. Não dei nem sequer um euro, emprestei o que me pediram emprestado.

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  14. Sendo assim, qual é o problema? O Pingo Doce vai com certeza à falência dentro de pouco tempo.

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  15. Ganhar clientes a outros supermercados sobretudo. Se antecipar a hora de abertura estando mais tempo aberto captam mais clientes. E as despesas são mínimas porque digo ao pessoal que as madrugadas ficam por conta das horas não trabalhadas ao fim de semana.
    Ao tentar contornar uma diretiva que pretende reduzir o número de horas abertas o Pingo-Doce assume que a preocupação com a situação sanitária para eles estará sempre depois da preocupação com os lucros. É feio.

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  16. never-trumpersWashington Post


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  17. Se bem percebo o seu argumento, todos os supermercados têm planos para abrir 24 horas por dia, é isso?

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  18. O traficante de pessoas, seja lá quem ele fôr, não é uma fonte de dinheiro. Se ele arrenda um espaço, de onde vem o dinheiro? Certamente que do negócio que faz nesse espaço, não é?
    Não me vai convencer que um paquistanês, para conseguir um visto Schengen, está disposto a (e capaz de) pagar o aluguer de uma loja durante um número indeterminado de anos.
    Ademais, creio que o traficante (seja lá quem fôr essa personagem misteriosa) não pode dar trabalho legal a pessoas que não têm, à partida, a papelada em ordem.

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  19. Luís Lavoura tão liberal que ele gosta de se dizer, tão anti liberal que ele é.


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  20. O sr. Balio talvez esteja um pouco confuso com aqueloutra "religião" que os marxistas professam e de que são extremamente devotos fervorosos. Essa sim não só "inculca" aquilo que descreve, como vai até mais longe, para "desinculcar" se a deixarem e lhe derem ocasião _ faço-me entender?
    A Igreja tem uma relação de outro tipo, com a riqueza ou com o dinheiro, isto é, com a sua finalidade e com o seu bom ou mau uso: repudia e condena a cobrança de juros excessivamente altos, a usura, considerada pecaminosa, porque é abusiva.  Do mesmo modo repudia a ambição excessiva pelos bens materiais em detrimento das preocupações espirituais ; ou o dinheiro mal ganho, havido pela corrupção ; ou a avareza dos que têm e não repartem ; a rapina e as pilhagens que prejudicam o erário público e o bem comum, etc. 
    Não é preciso ir mais longe, lembra-se, certamente, de como foi demolidora a crítica social de Gil Vicente a estas personagens, todas condenadas às penas infernais. Mas há muito mais por onde se informar.

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  21. Mas eu alguma vez disse que não deveria ser uma escolha livre?

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...