Quando me atribuíram alguma responsabilidade sobre a gestão do fogo no Instituto de Conservação da Natureza, uma das funções das pessoas que trabalhavam comigo era produzir cartografia de risco de incêndio.
Inicialmente o que me era apresentado, e que foi o padrão durante anos, era uma cartografia simples que identificava as áreas de maior risco de incêndio, eventualmente cruzada com os habitats, classificados segundo a sua relevância para a conservação.
Pouco satisfeito com a informação produzida, por achar que a função do Instituto era gerir valores naturais, e não gerir o fogo, começámos a trabalhar a sobreposição do risco de fogo com os valores naturais (essencialmente com os habitats, que era o que era relevante, naquele caso).
Fomos sendo levados a discutir as diferenças que existem de habitat para habitat, acabando por procurar separar os habitats em função de duas variáveis independentes (estou a citar de memória, foi há bastantes anos e portanto a terminologia que vou usar provavelmente não é exacta): 1) suceptibilidade ao fogo, isto é, a facilidade com que os habitats ardiam; 2) sensibilidade face ao fogo, isto é, a forma como os habitats reagiam à presença do fogo.
Na prática isto permitia-nos fazer uma matriz em que cada habitat era classificado quer pela forma como se esperava que ardesse (um matagal denso de tojos e urzes arde mais facilmente que um carvalhal maduro, por exemplo), quer pela forma como reagiam ao fogo (um prado calcáreo com orquídeas não é ameaçado pelo fogo, pelo contrário, agradece a perturbação, um zimbral, uma vez atingido por um fogo, tem uma enorme dificuldade de recuperação).
Essa classificação permitia definir prioridades: no topo, habitats que eram muito afectados pelo fogo - como os zimbrais - no outro extremo os habitats que tanto fazia que ardessem como não, ou que eram mesmo favorecidos pela presença do fogo, como os já referidos prados calcáreos com orquídeas.
Note-se que nesta classificação não entra o valor de conservação de cada um dos habitats porque o relevante para o estabelecimento de prioridades de intervenção não é o habitat ser muito relevante ou não (quer os prados calcáreos, quer os zimbrais estão no topo das prioridades de conservação), mas o risco de ser afectado pelo fogo e, complementarmente, a sua susceptibilidade.
Em abono da verdade, há poucos, se algum, habitat que seja muito favorável ao fogo e, simultaneamente, sofra muito com o fogo, portanto a verdadeira prioridade são os pouco habitats que realmente podem ser profundamente afectados pelos fogo, como zimbrais ou carvalhais maduros, que são habitats onde raramente o fogo entra em condições de ter um efeito relevante na sua conservação.
Mas se acontecer, aí sim, o fogo pode provocar perdas de biodiversidade relevantes.
Ao ler esta norma da DGS, que identifica o que são contactos covid de alto e baixo risco (ver o anexo 1, muito claro), tive exactamente a mesma sensação de desconforto que tive há muitos anos atrás quando me apresentavam mapas de susceptibilidade ao fogo sem definição do risco associado à presença do fogo.
Tudo o que não sejam contactos directos, a menos de dois metros e com mais de quinze minutos ou em ambientes fechados, não são contactos de alto risco.
Assim sendo, qual é a base para um conjunto de normas que dizem respeito a situações de baixo risco, como parques infantes, públicos em estádios com distanciamento físico de dois metros e etc.?
O que me parece é que ao esquecer o risco do receptor, tratando todos os receptores por igual, a DGS acabou se enredar nas suas próprias sombras procurando defender-nos a todos, mesmo os de baixo risco de desenvolvimento de formas mais agravadas da doença, de contactos de baixo risco, como se o seu objectivo fosse garantir risco zero, um erro básico das políticas de gestão de risco.
É completamente incompreensível que Filipe Froes (Ordem dos Médicos), faça pressão para que Filipe Froes (Direcção Geral de Saúde) adopte normas que visam impôr o uso máscaras em ruas de grande movimento, sabendo perfeitamente que os contactos que aí ocorrem são de baixo risco.
Que se faça um esforço para que as pessoas que mais facilmente podem desenvolver formas graves da doença se defendam melhor, mesmo dos contactos de baixo risco, é perfeitamente razoável.
Que se pretenda reduzir o risco de pessoas de baixo risco em situações de baixo risco, com verdadeiro prejuízo para todos noutros domínios, é que já me parece incompreensível.
Mesmo em relação a grupos com baixo risco de desenvolver forma graves da doença, como na população escolar, o facto de haver contactos de alto risco tem uma importância relativa.
Tal como o facto dos prados calcáreos com orquídeas serem habitats de elevado valor de conservação não os deve colocar nas áreas prioritárias de defesa em relação ao fogo, porque arderem não as prejudica e, provavelmente, beneficia, também a infecção de grupos de baixo risco de desenvolver formas graves da doença não levanta questões que justifiquem a perturbação que está criada nas escolas e no percurso escolar dos miúdos, em especial dos miúdos mais pobres e frágeis.
O que é relevante não é o número de pessoas infectadas, tal como o relevante não é a área ardida, o relevante é a quantidade de pessoas que são severamente afectadas pela doença, tal como o relevante são os valores que se podem perder com o fogo.
O Henrique não pensa convidar o Anders Tegnell para uma conferência em Portugal? O país agradecia.
ResponderEliminarEssa sua mania de pensar... que inconveniente.
ResponderEliminarUma pergunta, porque é que o fogo beneficiaria o prado calcáreo com orquídeas (lembro-me o suficiente das aulas de ecologia só para perceber que não seria um desastre)?
Sim, assinei essa declaração.
ResponderEliminarEm relação aos prados calcáreos, um dos factores de ameaça, na ausência de perturbações, é a evolução da sucessão ecológica, o fogo, o pastoreio ou o corte são instrumentos possíveis para bloquear a sucessão ecológica.
Obrigada pelas respostas. Entretanto, também já assinei a declaração.
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