quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Um equívoco de Poiares Maduro

Poiares Maduro escreveu um artigo com um título absolutamente correcto: "A falsa escolha entre a pandemia e a economia".


O conteúdo do artigo, no entanto, é todo construído sobre um equívoco a que vale a pena fazer referência.


Não quero discutir os argumentos económicos (a evolução comparada da economia da Suécia não demonstra que uma abordagem à sueca da gestão da epidemia seja economicamente mais favorável, diz Miguel Poiares Maduro, mas parece-me que a argumentação consiste, mais uma vez, em aplicar um correlação estatística simples a processos complexos, com explicações à medida quando a correlação não existe) por me faltar base para isso.


O que me parece verdadeiramente relevante é a ideia de que a epidemia (e os seus efeitos, acrescento eu) é uma escolha, o que se fundamenta na ideia de que as diferenças de ataque da epidemia resultam das medidas tomadas.


Ora até hoje, continua a não haver qualquer evidência de que sejam as medidas - quais medidas? - a comandar a epidemia e partir dessa hipótese (é uma hipótese e não pode ser descartada sem mais) sem considerar outras hipóteses é como partir do princípio de que os fogos resultam das nossas acções, gerindo o território em função desse mito, em vez da realidade prosaica de que o fogo não é uma probabilidade, mas uma inevitabilidade.


A escolha não é entre epidemia e economia, Poiares Maduro tem razão em classificar essa dicotomia como falsa, as escolhas são dentro da economia, tomando a epidemia e os seus efeitos como um dado do problema, sendo um equívoco considerá-la como uma escolha, como se estivesse na nossa mão "controlar a epidemia", como pretende o artigo de Poiares Maduro.


Há muito quem, com boas razões, defenda a ideia de que foi a evolução da epidemia que foi controlando os surtos como, por exemplo, neste artigo muito recente, que reafirma a importância da heterogeneidade das populações afectadas para a evolução verificada.


Podem estar errados, claro, o que é realmente estranho é que a contestação a esta ideia não esteja a ser feita pela contestação aos artigos publicados por este grupo de investigadores, mas pelo silêncio e a ostracização, incluindo a recusa de publicação, não pelos deméritos científicos dos artigos, mas porque o que lá está escrito pode pôr em causa as políticas dominantes de gestão da epidemia.

4 comentários:

  1. deviam ter impedido a entrada do vírus fechando fronteiras 
    na sua presença deviam ter confinado apenas os locais infectados
    conheci as gripes de 49 e 67 para as quais não havia vacinas
    deviam lembrar-se que há outras doenças
    instalaram a politica do medo
    puuummm

    ResponderEliminar

  2. Mesmo na economia, parece-me errado falar dos países individualmente, uma vez que na atual economia globalizada aquilo que acontece à economia de um país depende muito dos outros países.
    Por exemplo, mesmo que em Portugal não tivesse havido epidemia praticamente nenhuma, a economia portuguesa teria ido por água abaixo devido ao facto de os turistas não virem para Portugal.
    Da mesma forma, a economia sueca depende de montes de coisas que não a forma como a epidemia se desenvolve na Suécia. Os produtos produzidos pela Suécia podem ter um colapso da procura, mesmo que na Suécia a epidemia até corra maravilhosamente.

    ResponderEliminar

  3. Concordo com o seu ponto de vista, fazendo apenas uma ressalva.
    O artigo de Poiares Maduro não é um equívoco, o artigo de Poiares Maduro ilustra o que esta pandemia sempre foi, um jogo político com objectivos bem definidos mas de consequências incalculáveis. Daí que estejam todos agora a “sacudir a água do capote”e a atribuir as culpas do desastre económico, à pandemia porque entope os hospitais, às pessoas porque não cumprem as regras, a todos menos a “eles”que foram os principais responsáveis por este criminoso alarmismo social.

    ResponderEliminar

  4. O artigo de Poiares Maduro não é um equívoco


    Não é um equívoco, de facto, porque Poiares Maduro se limita a seguir a linha política do partido a que pertence, o PSD, que é a de ser ainda mais duro para com a população, por causa da epidemia, do que o PS é. Se o PS violenta a população com restrições em nome da epidemia, o PSD não fica suficientemente satisfeito e advoga ainda mais dureza e ainda mais restrições. Poiares Maduro é apenas uma pessoa do PSD que segue a linha geral desse partido.

    ResponderEliminar

O jornalismo que mente

João Miguel Tavares fez uma crónica recente sobre a dificuldade do debate público sério, usando apenas políticos para demonstrar como se dis...