quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O estado do Estado

Por obrigação - a Rádio observador pediu-me para participar num debate sobre a dimensão territorial da coisa - li o relatório de António Costa Silva, o que não tinha a menor intenção de fazer.


Pelo contrário, não li, nem tenciono ler, o papel da DGS sobre a festa do Avante, a menos que também tenha qualquer obrigação que me leve a fazê-lo.


Na Sexta-feira a rádio Observador publicará a tal conversa a que faço referência no primeiro parágrafo, mas penso não prejudicar a rádio dizendo que um dos meus comentários se prende com a ideia do tal plano de que o Estado é a chave disto tudo, mas não no estado em que está o Estado, será com outro estado do Estado que ninguém percebe como se vai obter.


O parecer da DGS, mesmo sem o ler, parece-me ser exemplar ao definir que na festa do Avante só podem estar, em simultâneo, 16 563 pessoas.


Com certeza o facto de serem 16 563 e não 16 562 ou 16 564 tem uma sólida racionalidade e não vou discutir sequer essa racionalidade, até por ter uma história que vou intercalar aqui, apesar de já a ter contado muitas vezes.


No Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montezinho, a proibição de apanha de cogumelos à quarta-feira - uma norma por cuja existência eu fui pessoalmente responsável - era sempre alvo de chacota. Por essa razão, em todas as reuniões públicas de discussão do plano, na minha intervenção inicial de apresentação do plano, falava sempre dessa norma, referindo a sua aparente tolice, porquê à quarta e não à terça ou quinta? Depois explicava que realmente era irrelevante o dia de semana em que deveria ser proibida a apanha de cogumelos. Os que os técnicos da coisa diziam (não me peçam para fundamentar muito que percebo raspas do assunto) é que era útil haver um dia por semana sem apanha de cogumelos para potenciar o amadurecimento e disseminação dos esporos que garantiam a existência futura de cogumelos. Definida esta restrição técnica, era preciso traduzir isso numa norma razoável e fiscalizável. Um dia por semana de proibição de apanha de cogumelos foi a opção, mas para a norma ser prática, tinha de se definir um dia qualquer. Evitaram-se os fins de semana e a sexta feira, por serem os dias com mais movimento de apanha de cogumelos e pretendia-se reduzir ao mínimo a conflitualidade da norma. Evitou-se a quinta-feira por ser dia de caça e ser complicada a fiscalização, quer pelos riscos para os fiscais, quer por ser virtualmente impossível impedir que os caçadores também colhessem cogumelos se estivessem para aí virados. Sobravam segunda, terça ou quarta, escolhendo-se esta última para o encostar à quinta-feira em que muitos apanhadores preferem não ir aos cogumelos com medo de levar um tiro por engano. Se não me engano, também entrámos com o dia de feira em Bragança, que ajudou na escolha, mas já não me lembro de que forma.


O que me interessa nesta história é a forma como a ponderação da norma não se ficou pela definição técnica do que se pretendia - garantir um dia por semana sem apanha de cogumelos - mas se ponderaram outros interesses, como a utilização do território e dos cogumelos feita pelas pessoas, a capacidade de fiscalização da norma e coisas desse tipo que definem o dia a dia das pessoas normais.


Ora fazer um quadro em que se somam números, que na verdade ninguém consegue fiscalizar, e chegar a um número de 16 563 pessoas, também impossível de fiscalizar e, na verdade, irrelevante para o que se pretende, é o exacto inverso desta preocupação e, devo dizer, corresponde à cultura dominante do Estado português actualmente (não, não é consequência da epidemia, a epidemia só tem posto a nu a irracionalidade e, às vezes, a desumanidade, do estado a que chegou o Estado).


De há muitos anos a esta parte, o Estado tem vindo a perder capacidade de fiscalização, que já não era muita.


As forças da ordem (aos anos que esperava por uma ocasião para usar adequadamente esta expressão) bem podem fazer comunicados a dizer que dispersaram mais de 600 festas por causa da epidemia, que todos nós, pessoas normais, imediatamente percebemos que o número de festas diárias em Portugal deve ser bem acima das seis mil, para a polícia conseguir apanhar 600.


Infelizmente tem-se perdido a velha ideia de que se os regulamentos fossem para cumprir, chamavam-se cumprimentos, se se chamam regulamentos é porque a sua função é regular.


A principal função da fiscalização não é sancionar faltas, a principal função da fiscalização é prevenir problemas. Sancionar faltas é apenas uma pequena parte, essencial, da forma como se evitam problemas.


Fiscalizar é antes de tudo uma função de proximidade, de contacto com os outros, para os ouvir em primeiro lugar, para os entender depois de ouvir, para enquadrar nas regras gerais e depois, só depois disso, para sancionar se for caso disso.


Ora o Estado português tem respondido à sua perda de capacidade de fiscalizar, carregando nas normas e regras que os outros têm de cumprir.


A somar a uma forma de fazer normas herdada do despotismo iluminado, o Estado português soma uma generalizada fuga ao seu cumprimento, que impede o seu melhoramente contínuo, até ao dia em que há um desastre qualquer que leva o Estado a legislar de forma maximalista e fazendo tábua raza da experiência de aplicação das normas anteriores, o que se traduz em normas cada vez mais irracionais, menos aceites socialmente e menos fiscalizáveis (a tese de Tiago Oliveira tem uma parte bem divertida em que relaciona a área ardida anual com o número de diplomas legais sobre fogos e afins).


E é assim que chegamos aos 16 563 participantes em simultâneo na festa do Avante: não servem para nada, ninguém vai ligar nenhuma, ninguém consegue fiscalizar, o seu cumprimento não vai ser avaliado e não vamos aprender nada sobre a melhor forma de tratar o assunto da próxima vez.


É este o estado do Estado em que tantos confiamos para gerir um assunto socialmente complexo como uma epidemia, não admirando por isso a cegueira de tanta gente face ao evidente absurdo, e frequentemente desumanidade, das normas que todos os dias são afanosamente feitas e aperfeiçoadas na DGS: a alternativa é aceitar que estamos voluntariamente num buraco sem fundo e sem esperança.


E ninguém se entrega ao desespero voluntariamente enquanto tiver uma ficção qualquer a que se possa agarrar.

19 comentários:


  1. Em princípio, não é difícil controlar o número total de pessoas na Festa, dado que se trata de um recinto fechado e com entradas controladas. Se o PCP quiser, pode muito bem contar as pessoas que entram e, depois, só deixar entrar pessoas à medida que outras saem. E, de facto, acredito que o PCP fará mesmo isso - embora talvez não fixe o número de presenças nas 16 mil, mas sim num número bastante superior.
    No mercado semanal em Cascais faz-se precisamente isto: há uma lotação fixa e controladores à entrada e à saída; o controlador à entrada só deixa entrar pessoas em número igual ao daquelas que saem.

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  2. Sim, de facto, um Estado despótico. E distópico.  Agarremo-nos, então, a uma qualquer ficção, sensatamente, para não sucumbirmos.

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  3. O Estado, tal como o descreve, é o que se vê. 
    E o governo é o que se ouve _  "distanciamento",  "higienização",  "etiqueta" mas não social, "respiratória" , "2 metros" , "mãos" e  de novo "distância". E"braços"?
     
    E tem sido esta a  nova forma de "governação": um estribilho, um mantra  que se repete, repete... 
    E eu já só quero distância de tudo isto e, sem etiqueta, respirar fundo!... Sem medir as palavras.

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  4. Mas o Sr.Arquiteto está a pôr em dúvida a lógica do raciocínio do nosso Estado, de que 16.563 não tem nada que se compare com 16.564 ou 16.562?!
    Lá está, nunca ninguém é reconhecido, agradecido a estas resoluções, a estes estudos morosos e cuidados. Alguma vez estas quantidades são a mesma coisa na festa do Avante?!
    O Sr. Arquiteto deve embirrar com eles; deve ser um fascista de primeira...
    Tanto trabalhinho que tiveram...para nada.

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  5. Espero que a justificação da tal proibição  dos cogumelos estivesse devidamente explicada. Eu acho difícil seguir uma norma que considere irracional e arbitrária. Já a poderei seguir se a compreender. O problema das normas da DGS é que não são justificadas de todo. E como tal não  se conseguem compreender

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  6. É divertido observar como a MANADA TUGA assiste calma e serena À destruição da "nação" sem qualquer vislumbre de Pensamento Crítico!


    E tudo isto graças a uma falsa pandemia, e que é meramente uma "pandemia de casos"!


    Casos estes que hoje são positivos, amanhã negativos, depois de amanhã novamente positivos... e "tá-se bem"!

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  7. Do que eu mais gosto é daquele preciosismo do número.  Repare: 16 563 !!!

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  8. Deve ter sido de uma enorme "complexidade" chegar àquele número.

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  9. Henrique... quando tenho a honra de o ver escrever sobre os "sem exemplo"  184 mortes ontem em Espanha ?    Tem havido muitos "sem exemplo"... alias ultimamente todos os dias há qualquer coisa sem exemplo, mas estou particularmente interessado no ultimo resultado.   Serão testes PCR que deram falsos positivos de mortos ?

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  10. Peço desculpa, mas não consigo perceber qual é a sua questão.
    Está preocupado por eu não ter poderes de adivinhação do futuro?

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  11. Mas eu acho que tenho*. Esta voz, esta voz que parece saída lá do fundo dum ermo ...  
    "Samuel, Samuel, quem és tu?"




    *  bom "ouvido" 

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  12. Henrique, nao tem poderes de adivinhação ?  Como nao tem ? 
    Quer que eu faça uma breve passagem pelo seu blog e resuma a dezenas de vezes que achou que tinha grande capacidade de adivinhação e uma longa experiencia epidemiologia ?   Onde acusa de se espalhar o medo e que no pasa nada ?  Ou quando dizia que ha positivos mas nao ha mortes ?   Noção tem ?

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  13. Conheço essa forma de discutir e não me interessa.
    Nos posts em que fiz previsões, fui sempre muito cauteloso a dizer que não tinha poderes de adivinhação e o mais natural era arrepender-me de estar a fazer previsões.
    No post em concreto que na sua ideia está a contestar, não fiz nenhuma previsão para o futuro, apenas critiquei o facto da jornalista fazer a leitura que fez do passado.
    De resto, não percebo o que pretende: se acha que só escrevo estupidezes, para que raio perde tempo comigo?

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  14. Já agora, a média a sete dias espanhola está nos 50 mortos diários. Se quiser convencer alguém que tendo 50 mortos diárias (e até podem triplicar) está na mesma situação em que havia 850 mortos diários, não sou eu que irei impedir, eu sempre defendi que o direito à asneira é sagrado.

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  15. HPS, posso ter-me enganado, mas acho que topei o romeiro... aquela "voz" é inconfundível.

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  16. Henrique Henrique, claro que esta forma de debater nao lhe agrada. Entao quem é que gosta de ser confrontado com... aquelas coisas.   Ja agora... quis mesmo dizer 50 mortes diarias ? Nao seria 60 ? Bem me parecia que era 60 que queria dizer. Sim, claro que o direito à asneira é sagrado senao nao escrevia no blog. Mas pelo menos chegou a escrever que está ciente das asneiras que de vez enquando escreve (sim, eu nao critico por criticar..acredito mesmo que em certos temas e quiça até neste escreva coisas certos). O problema é a quantidade de asneiras e a segurança com que as diz.  É facil apontar o dedo nao é ? Entao quando nao se percebe nada do assunto deve ser mesmo delicioso.  Para quando começar a dizer que aquelas mortes sao falsas ? Ou que os medicos sao pagos para marcar como covid ? Va la... só falta um passinho.   PS : nunca me ouviu dizer que as mortes actuais têm alguma coisa de parecido como o que se passou em Março.  Mas Março é Março e Setembro é Setembro.  Nos fogos tambem é asism Henrique ?  Enquantoso estiverem 3 aldeias a ardem deixa-se estar ? 

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  17. Ontem era da ordem dos 50 quando escrevi o comentário, tive o cuidado de dizer "até pode triplicar" e vem chatear porque não são 50 são sessenta?
    Tem a certeza de que esses dez alteram alguma coisa, quando a comparação são os 850 de Março?
    Acha que uma relação de um para dez no número de mortos diários indicia uma situação semelhante?
    Diz que não, agora no seu comentário, mas anda há não sei quantos comentários a batalhar no assunto, sem que eu perceba que raio o motiva.
    Sobretudo porque insiste para que eu diga coisas que não quero dizer porque não concordo com elas, que é das coisas mais estúpidas que conheço numa discussão.

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  18. Que importancia tem 10 ?  Tendo em conta que quando se falou em 26 o Henrique disse que era um numero sem exemplo quero crer que tivesse a dar alguma importancia à grandeza do numero e quis desvalorizar dentro do contexto.  50 para 60 pode nao parecer muito, mas 10 em 26... é que 26 mereceu um post .   Eu nao quero que diga coisas... eu queria era que as deixasse de dizer.   Coisas daquelas como ja disse... isto nao é nada, isto nao se combate é deixar andar, a suecia é que sabe, nao ha excesso de mortalidade relevante, etc.  Sabe do que estou a falar nao sabe ?   Aquelas coisas que saem da sua cabeça e vao contra a muito esmagadora  maioria dos especialistas... mas que o henrique acha que tem estaleca para desdizer. Para quando a presidencia ?

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  19. No momento em que o disse, era um número excepcional, o que a jornalista foi buscar e apresentou como sendo um indicador fiável. E acrescentei que até poderia ser verdade no futuro.
    Eu não fiz um post sobre números, fiz um post sobre a forma de noticiar isto e das duas uma: ou sabe perfeitamente o que fiz e os seus comentários são pura desonestidade, ou não entende os posts que comenta e eu não estou para aturar quem comenta o que não percebe.
    Nunca falei em deixar andar, nunca disse que o modelo sueco era o ideal, disse sim que a mortalidade excessiva não é, de maneira geral, relevante, com excepção de alguns sítios que costumo identificar, ou seja, está para aí a comentar o que eu não disse como se eu o tivesse dito, de maneira que vai ficar a falar sozinho que eu não estou para aturar mentirosos.

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