quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A pobreza como opção

As reacções menos formais que tenho visto sobre a abertura de um curso de medicina na Universidade Católica - e algumas formais - são um bom indicador de que a pobreza, em Portugal, não é uma fatalidade, é uma opção.


De entre essas reacções talvez a mais reveladora, mesmo sendo das mais inocentes, é a quantidade de piadas e comentários sobre o aumento de médicos chamados Caetana, Santiago ou Constança, ou, na versão que se pretende mais séria, a possibilidade dos ricos finalmente poderem comprar a sua formação em medicina.


Um numerus clausus que impõe médias como as que hoje existem para medicina é, só por si, um enorme promotor de desigualdades: não é na nota e no valor da propina que se faz a distinção de classe, é no percurso para chegar a essa nota.


Desse ponto de vista, aumentar a oferta de ensino de medicina, só por si, é uma ajuda para os que não têm ambientes sociais favoráveis em casa, os que têm pais que têm menos formação que eles a partir do meio do ensino obrigatório, dos que não podem pagar explicações nem campos de férias didácticos, dos que não têm redes sociais extensas e sólidas onde há sempre alguém que conhece alguém que consegue resolver um problema bicudo.


Não é limitando as opções que os pobres ficam com mais opções, porque quanto menores forem as opções, mas difícil é para os pobres ultrapassar as enormes vantagens dos ricos: as capacidades até podem ser as mesmas, mas os recursos para obter conhecimento são muito diferentes, e os contactos para chegar a esses recursos, também.


De resto, apenas a opção vesga de cortar apoios sociais aos alunos que frequentem Universidades não estatais impede que os alunos pobres, depois de terem ultrapassado todas as desvantagens, se vejam impedidos de frequentar escolas que os poderiam libertar da pobreza dos pais, quer porque são escolas reconhecidas no mercado de trabalho, quer porque são escolas em que se estabelecem redes de contacto que lhes estão vedadas de outro modo.


Limitar os apoios sociais do Estado aos alunos que frequentam as escolas do Estado não prejudica as escolas privadas, prejudica os alunos pobres que poderiam beneficiar da frequência dessas escolas.


E estas opções, com sistemas de ensino dual, com sistema de saúde dual e muitos outros mecanismos que a coberto da suposta ilegitimidade de pagamento de serviços privados impedem o acesso dos mais pobres à verdadeira liberdade de escolha, são opções profundamente arreigadas em Portugal e defendidas por milhares de pessoas.


Parte das reacções ao curso de medicina da Católica são apenas uma manifestação superficial dessa opção pela pobreza e pela rigidez das posições sociais em Portugal, da desconfiança face ao lucro e à criação de riqueza: cada um é para o que nasce, diz um provérbio, e em Portugal há demasiada gente a interpretar este provérbio no sentido de ser necessário que os ricos continuem ricos, o que é bom, e que os pobres continuem pobres, o que manifestamente não é bom.

10 comentários:

  1. Assino por baixo tudo o que disse. 
    Este país ainda não percebeu, a começar pelos governantes, que só sairá da cepa torta quando começar a apostar forte e A SÉRIO na Educação e  a investir  no ensino de qualidade. É a base, a basezinha de tudo o resto.
    Profissionais qualificados e competentes são a matéria-prima para trazer desenvolvimento ao país. Deveria ser esta a nossa  prioridade.
    A outra devia ser a questão da natalidade e a política fiscal estranguladora que temos. Li um artigo do Miguel Sousa Tavares, "os Velhos", com óptimas medidas, muito arrojadas sobre estes matérias e outras. 


    https://estatuadesal.com/2020/08/29/os-velhos-2/

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  2. O que raio significa "apostar forte e A SÉRIO na Educação"?!?!


    Não te esqueças que foi graças a profissionais qualificados e competentes que velhos e velhas foram deixados ao abandono em lares e morreram neste belo ano de 2020!


    Daí que já sei que me vou RIR...

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  3. O sr. conhece-me? Não me lembro de termos sido apresentados.

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  4. Sou médico. Meu Pai foi médico. As origens sociais vieram dum electricista [tomadas, fios, candeeiros] mas que nos deixou como herança o jeito 'mecanicista', a inteligência para resolver o simples que é a Medicina. A Medicina é simples e quem não o entender anda a ver passar os comboios.
    Em todas as actividades humanas houve, há e haverá filhos de uma mãe querida que justificam atitudes e palavras reles. E com toda a propriedade.
    Para quê este paleio? Não são as Faculdades que fazem os bons profissionais. Estes é que prestigiam as Faculdades.

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  5. Tem  toda a razão. Partilhei no meu Facebook.

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  6. Outro que tem a mania que é educado...

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  7. Pronto, pronto... Outra que tem a mania que é educada!!!



    Pelos vistos no teu tempo a "Educação" não era nem séria nem forte.

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  8. Não o considero habilitado para falar sobre educação. Portanto, fiquemos por aqui se não se importa.

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  9. Sim, porque tu tresandas a perita em "educação"!

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...