segunda-feira, 15 de junho de 2020

O crocodilo e o corona

Aqui há atrasado apareceram umas notícias sobre um crocodilo no rio Douro.


Grande rebuliço, toda a gente à procura do crocodilo, apesar da inverosimilhança da alegação.


O assunto morreu quando um raio de bom senso apareceu, alegando que provavelmente não havia crocodilo nenhum e toda a gente deixou de o procurar.


Felizmente ninguém veio com a conversa do princípio da precaução, lembrando que não era absolutamente impossível que alguém tivesse um crocodilo de estimação, o tivesse largado e que era preciso estar preparado para o pior cenário para evitar uma eventual morte de alguém que andasse no Douro antes de se ter demonstrado, inequivocamente, que não havia crocodilo nenhum.


E também não apareceu ninguém a argumentar que se, até agora, ninguém tinha sido comido pelo crocodilo, isso se devia exactamente a essa precaução de ninguém ir para o Douro para evitar o crocodilo.


O corona existe, claro, e tem ficado gente doente, claro, e tem morrido gente, claro, mas tem-nos faltado o senso para avaliar o que sabemos sobre o assunto a partir de princípios gerais de bom senso, em vez dessa coisa absurda que é modelar uma sociedade para um suposto pior cenário (que não existiu em lado nenhum, nem mesmo na Lombardia, Madrid ou Nova York os cenários estiveram próximo do apocalipse desenhado por maus modelos matemáticos como sendo os piores cenários).


Estaria na altura de fazermos o mesmo que ao crocodilo, isto é, deixar de procurar activamente qualquer vestígio do vírus em pessoas saudáveis e concentrar os esforços no essencial, que é tratar de pessoas doentes e melhorar os mecanismos de protecção dos mais frágeis, voltando ao que é normal.


E o normal é sermos o que somos, organizar a nossa sociedade como costumamos organizar e deixarmos de ter as pessoas da saúde pública a definir regras absurdas sobre matérias para as quais não têm a menor competência, como distinguir um café de um bar, definir como se organizam ginásios, ou determinar que crianças com onze anos devem ter actividades de tempos livres com máscaras.


Sobretudo quando, neste momento, estamos mesmo longe de ter um problema sério de saúde pública decorrente da convivência inevitável com vírus.

7 comentários:

  1. Ah ah ah... brilhantes os 4º e 5º parágrafos

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  2. os irresponsáveis parecem baratas tontas pulverizadas com insecticida

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  3. deixar de procurar activamente qualquer vestígio do vírus em pessoas saudáveis

    Isto não é bem assim, porque as pessoas saudáveis podem estar em contacto estreito com pessoas de risco. E, se essas pessoas saudáveis estiverem infetadas e puderem propagar a infeção, convirá distanciá-las das pessoas de risco (o que não implica necessariamente encerrá-las dentro de casa).

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  4. Convém distanciar as pessoas que possam propagar a infeção das pessoas de risco, para que as pessoas de risco não contraiam a infeção.

    Da mesma forma que não faz mal chegar um fósforo a vegetação seca no inverno, mas faz mal fazê-lo no verão, também não faz mal pegar a infeção a uma pessoa jovem e saudável, mas faz mal pegá-la a uma pessoa idosa ou doente crónica.

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  5. Ou seja, tal como em relação ao fogo, o que é preciso é saber conhecer o risco e geri-lo, não faz sentido adoptar medidas que pretendem atingir um risco zero

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  6. Os brasileiros têm este ditado: "Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas!"

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...