quinta-feira, 14 de maio de 2020

A semana 19 (fim)

Porque a única maneira de verificar se uma visão do futuro estava certa ou errada é verificá-la no futuro, olhemos então para a famosa semana 19 (usando o Euromomo), agora que já existem os dados reais (ainda provisórios, como convém frisar).


semana 19.jpg


O primeiro comentário é sobre o carácter provisório dos dados: é verdade que de semana a semana há variações naquela parte a amarelo, mas não têm sido variações por aí além.


O segundo comentário é que o pico de mortalidade excessiva foi nas semanas 14 e 15, e a quase entrada na normalidade na semana 19.


Diferenças em relação à visão do que deveria acontecer prendem-se com o carácter tardio do pico, nas semanas 14 e 15, em vez da ser até à semana 12. Isto pode dever-se às características clinicas da doença, em que a morte sobrevém a partir de quinze dias da infecção (mais ou menos), mas também pode ser simplesmente a entrada em cena tardia do vírus que nos permitiu ter um surto intenso, mas relativamente curto.


Em qualquer caso, um desfasamento de uma semana, no máximo duas, para a definitiva entrada na mortalidade esperada. Veremos nas próximas semanas se se confirma.


semana 19 2.jpg


Olhando agora para o conjunto dos último quatro anos, o que se verifica é um pico acentuado - cerca de 16 mil mortos a mais em relação à semana do pico de 2017 - sem que seja evidente que a mortalidade excessiva de toda a época será muito maior no pico da covid.


O "quase fechado" resulta de haver dois países ainda com mortalidade claramente excessiva (há mais dois ou três com alguma mortalidade excessiva, mas nada de especial), uma moderada, na Suécia, e outra mais acentuada em Inglaterra (não no resto do Reino Unido), que impedem que, no conjunto, a Europa já tenha entrado claramente na mortalidade normal.


Se a Suécia já estava claramente a mergulhar no sentido da normalidade na semana passada, sobre a Inglaterra havia mais dúvidas, que desaparecem com os dados desta semana: está também a mergulhar rapidamente para a mortalidade esperada.


Hoje há bastantes notícias sobre o estudo serológico em Espanha (ver aqui), que aponta para uma média de 5% da população que terá contactado com o vírus (dez vezes mais que os casos confirmados, mais coisa, menos coisa). Mais uma vez, as diferenças regionais são muito grandes e há zonas acima dos 10%, como nas zonas mais afectadas.


Independentemente das discussões sobre qual é o nível de imunidade de grupo que garante a inexistência de surtos, os 5% de contacto com o vírus e, em especial, os 10% das zonas mais afectadas, são boas notícias: a haver novos surtos, provavelmente no próximo Inverno (não há qualquer indício de que esteja a haver segundos surtos nos países que têm estado a desconfinar), estes níveis de pessoas com alguma imunidade (será preciso verificar se a imunidade se mantém e por quanto tempo, mas nos outros corona mais estudados o que se tem verificado são imunidades de um ano ou mais) devem ser suficientes para aumentar a heterogeneidade e, com isso, limitar muito a capacidade da infecção se propagar de forma tão rápida e extensa como o fez este ano.


Se a isso se somar a hipótese, mais que razoável, de que os mais susceptíveis e mais frágeis foram os mais afectados este ano (como é normal que aconteça numa doença nova), é perfeitamente razoável admitir que os novos surtos estejam dentro do que pode ser encaixado pelos serviços de saúde.


Continuará a haver casos, continuará a morrer gente, mas "a vida é uma doença sexualmente transmissível, sempre fatal", não há risco zero nem faz sentido definir políticas que tenham como objectivo atingir um risco zero, seja no que for.

6 comentários:

  1. nunca mencionam os mortos colaterais que não se puderam tratar

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  2. a morte sobrevém a partir de quinze dias da infecção (mais ou menos)

    O escritor Luis Sepúlveda morreu em Espanha 7 ou 8 semanas após ter sido infetado.

    Eu diria que a covid provoca mortes muitas (não somente duas) semanas após a infeção, pelo que me parece razoável que a mortalidade excessiva se prolongue para além da semana 19.

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  3. é perfeitamente razoável admitir que os novos surtos estejam dentro do que pode ser encaixado pelos serviços de saúde

    Eu diria que é perfeitamente razoável admitir que nem sequer venha a haver novos surtos.

    Uma vez eliminado da circulação entre humanos, o vírus pode regressar às espécies animais nas quais passa normalmente o tempo, algures na China, e não voltar a regressar para a espécie humana.

    Mais ou menos como o ébola, que já fez alguns surtos, mas que em geral não incomoda, pois passa o tempo somente nos macacos.

    A gripe é uma doença que regressa todos os anos - embora sempre com vírus novos - mas a covid não é a gripe e nada nos diz que também vá regressar todos os anos.

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  4. Há uma diferença muito grande entre a epidemia de covid e as epidemias de gripe que todos os anos, de forma regular, são responsáveis pelo acréscimo de mortalidade no Outono-Inverno: com a gripe não tem havido quarentenas, mas com a covid houve. Isso significa que, ao sairem do confinamento em que estiveram, largas fracções da população que nunca tinham sido infectadas vão ser postas em contacto com o virus. É de esperar que o número de infectados aumente e, consequentemente, o número de internados.
    O surto após confinamento irá depender essencialmente da fracção de infectados na altura da quarentena. Quanto mais tardia a quarentena, maior o número de infectados e maior o número de internados, mas menor o surto posterior e vice-versa.
     É possível que resida aqui a justificação para as assimetrias observadas em Itália. Quando o governo Italiano decretou a quarentena, foi encontrar as epidemias das diferentes regiões em fases diferentes das respectivas evoluções, donde os resultados tão discrepantes.
    Reparem nos dados apresentados pelo Observador na estatística do número de internados. É onde melhor se vê o crescimento brutal da epidemia de covid: em 9 dias o número de internados aumentou 5 vezes.

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  5. Antonio Maria Lamas15 de maio de 2020 às 11:19

    Gostei de ouvir ontem o Pedro Simas na TVI explicando e acalmando a populaça medricas, apesar do "esforço" do pivot Alberto, para ele lhe dar "sangue".

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  6. é evidente que isto está a chegar ao fim. e nunca teve a importância que lhe quiseram dar , basta olhar para a Índia.  é desesperante  ver como os merdia querem fazer render o peixe falando  duma hipotética segunda vaga , que , aposto , não vai haver. enfim , vivo no meio de idiotas ,  e eu que me adapto a quase tudo , a isso , infelizmente , não  me consigo adaptar , é um desconsolo brutal.

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