domingo, 29 de março de 2020

Nove em cada dez

Esta reportagem do Observador sobre os lares merece ser lida.


Desde o princípio que sabíamos quais os grupos de maior risco em caso de infecção por coronavírus e a seu tempo se discutirão as responsabilidades que nos cabem a todos, não apenas de quem tem de decidir nestas matérias, frequentemente com opções mínimas face aos recursos e ao contexto.


O que me interessa aqui, neste post, é a frase com que arranca, porque é mais ou menos o que todos dizemos: “Os lares de idosos são as grandes bombas-relógio”.


Agora saiamos do nosso conforto e entremos na pele de um dos utilizadores desses lares que, como é frequente nessas condições, todos os dias vê televisão e todos os dias é massacrado com as reportagens dos camiões de caixões de Bérgamo, sem que ninguém lhe explique que são os cuidados no tratamento dos corpos que os justificam, e não a quantidade de pessoas mortas.


Todos os dias é massacrado com a ideia de que se alguém com mais idade for infectado, é desgraça certa.


E, de repente, dizem-lhe que a peste entrou no seu lar.


Quando se declara uma infecção no seu lar, não só já está instalada no seu espírito uma enorme intranquilidade, como ainda acentuamos a ideia de que não há nada a fazer, vai morrer toda a gente.


E, no entanto, na pior das hipóteses, nove em cada dez infectados nos grupos de risco não morre da doença.


Não sabemos bem se é assim, porque não sabemos quantos infectados já houve antes, no momento em que se fazem os testes, o simples facto de que cada vez que se testam todas as pessoas ligadas ao lar, porque há um caso conhecido, se revelar uma enorme taxa de infecção, sugere que é bem provável que a taxa de mortalidade seja, afinal, bem mais baixa daquela que neste momento se aceita, mas saltemos por cima disso e aceitemos como boa a taxa de mortalidade de 9%, 10 para facilitar as contas.


Claro que é uma taxa altíssima, claro que se for eu o décimo, não me vale de muito saber que os outros nove não vão morrer, mas o que devemos nós fazer a quem, na mais absoluta fragilidade e dependência dos outros, vê a morte de frente?


Continuar a insistir que vai tudo morrer, sendo mentira e ampliando a angústia e o desespero, isolando toda a gente, impedindo o contacto com quem se ama para mitigar o contágio de pessoas de muito baixo risco?


Ou estar lá, ir buscar a nossa humanidade onde ela estiver, dizer que há risco sim, mas que nove em cada dez pessoas naquelas condições não morrem, mesmo que infectadas, e aceitar o baixo risco da infecção para a generalidade das pessoas, para que se possa dar um fim de vida mais tranquilo ao tal décimo, ou ajudar os outros nove a lidar com o desamparo do momento?


Não conseguimos antecipar o problema dos lares e falhámos aos mais frágeis, é certo, e de certeza que é possível encontrar formas de mitigar os riscos sociais do contacto com os infectados (é o que fazem todos os dias os que lidam profissionalmente com a doença), mas ainda que não fosse possível, temos mesmo o direito de obrigar à solidão os mais frágeis numa altura destas, e de lhes roubar toda a esperança ao mesmo tempo, só porque estamos nós próprios assustados?


Ensinaram-me que o inferno era a ausência de esperança, é por isso que acho desumano voltar a faltar a estas pessoas, condenando-as ao inferno em vida.

5 comentários:

  1. os lares são depósitos de quem foi gente
    vivó social-fascismo da eutanásia e outras causas fracturantes e facturantes

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  2. Espanha: em Tomelloso (Ciudad Real), no lar da Fundación Elder, registam-se já 40 mortes, que corresponde a um quarto dos ocupantes. E a contagem vai continuar.

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  3. Precisavamos saber quantas pessoas recuperadas tinham mais de 60/70/80 anos. Não percebo como menciona os 9% ou 10%. Neste momento, o rácio de letalidade da doença, com os dados que existem é de 73%: temos 162 casos concluídos com 43 recuperados e 119 óbitos. No total em todo o mundo (https://www.worldometers.info/coronavirus/ (https://www.worldometers.info/coronavirus/)), temos 184821 casos concluídos com 150918 recuperados e 33903 óbitos (18%). À data de hoje é o que há.
    Esperamos todos que os casos se concluam com cada vez mais recuperados... mas para já, acreditando dentro do possível, onde parece que a situação está mais controlada (China) e onde tínhamos uma grande amostra, temos 4% (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/china/ (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/china/))
    Contudo, olhando para a Itália, Espanha e EUA, onde de facto diria que podemos confiar nos números, o caso parece ser mais assustador: 45%, 32% e 35%.
    Vamos ver.
    2% 3% 9% ou 10% é que não me fazem sentido nenhum...

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  4. Enquanto partir do princípio de que os casos confirmados têm a mais leve relação com os casos infectados, chegará às conclusões de que fala.

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