sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O ressentimento como opção política

Susana Peralta escreve hoje no Público um artigo interessante, especialmente interessante pelo que não diz e não tanto pelo que diz.


O assunto é o englobamento das taxas liberatórias no rendimento geral e, do ponto de vista dos princípios eu não poderia estar mais de acordo com Susana Peralta: o ideal era simplificar os impostos e tornar tudo mais claro, razão, aliás, que me faz apoiar a proposta eleitoral da Iniciativa Liberal no sentido de englobar todos os rendimentos e taxá-los todos, acima de um limite, a 15%.


Logo no título, Susana Peralta diz ao que vem: a taxa liberatória é um presente para os 10% mais ricos.


Claro que tanto se pode dizer que as taxas liberatórias são um presente aos 10% mais ricos, como dizer que a possibilidade de englobamento voluntário é um presente aos outros 90%, mas essa hipótese não aparece no texto, apesar de ser a hipótese mais provável: o Estado, achando que taxar mais de 28% uma renda é um esbulho, permite, no entanto, que os contribuintes com menos rendimentos paguem ainda menos, englobando os rendimentos e pagando a taxa geral que pagam pelos restantes rendimentos.


Susana Peralta não se detém com essas minudências, o que a preocupa é que os ricos e o capital paguem mais que os outros e o trabalho, por isso, mesmo sendo professora numa escola de gestão, acha normal que em 1000 euros pagos por uma renda, 480 euros sejam para entregar ao Estado.


Num país completamente descapitalizado, com empresas e famílias descapitalizadas, com poupança em níveis preocupantemente baixos, o que o artigo não diz é que capital e trabalho são igualmente factores de produção que temos de valorizar, se queremos criar mais riqueza, pelo contrário, o que o artigo diz é, apenas, que os trabalhadores são umas vítimas da exploraçao capitalista e é preciso é ir buscar dinheiro onde ele existe.


Para o entregar a um Estado reconhecidamente mau gestor e com elevados níveis de corrupção. Não por ser um Estado, mas porque este em concreto é um Estado institucionalmente fraco e com um ódio de morte à liberdade e iniciativa das pessoas comuns.


Pelos vistos, não só somos pobres, como nas escolas de gestão se ensina como devemos continuar o caminho para sermos cada vez mais pobres, em termos relativos: obrigar os ricos a entregar ao Estado 480 euros de uma renda de mil e liquidar de vez a vontade de alguém poupar e investir.

7 comentários:

  1. Deve ser uma bela escola de gestão. E quando não houver criação de riqueza vão buscar o dinheiro onde?
    Fazem-se lindos discursos na Web Summit, e talvez seja melhor estender esse modelo ao país - toma lá 11 milhões, fica com o dinheiro dos bilhetes, não pagas pelo espaço e arranjamos voluntários para o resto. Portugal é mesmo amigo do empreendedor, desde que seja estrangeiro - aliás, na mui capitalista Bloomberg Portugal é anunciado como um Tax Heaven. Não para mim, que sou português.

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  2. Excelente post. Subscrevo.

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  3. um Estado reconhecidamente mau gestor e com elevados níveis de corrupção

    Eu no outro dia estava a falar com um romeno que vive cá em Portugal já há muitos anos, apesar de até já ter vivido nos EUA. Perguntei-lhe porque é que continua a viver cá, e ele respondeu que é um bom país, porque "há liberdade de expressão e há pouca corrupção".

    Eu disse-lhe que muitos portugueses acham (como o Henrique) que em Potugal há muita corrupção. Ele retorquiu que deveriam visitar os Balcãs e logo voltariam de lá com uma impressão diferente.

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  4. englobar todos os rendimentos e taxá-los todos, acima de um limite, a 15%

    Eu gosto dessa ideia, mas acho que 15% seria muito insuficiente. Mais provavelmente, teriam que ser todos taxados a 28%... ou seja, precisamente o nível ao qual atualmente os juros e rendas pagam imposto.

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  5. Obviamente, o que eu vou fazer, é opor-me à renovação do contrato de arrendamento da minha casa de solteiro (que tive o bom senso de manter com prazo anual, ignorando as promessas dos aldrabões que nos governam sobre as vantagens fiscais de arrendamentos com prazos maiores), no centro histórico de Lisboa, e comunicar aos meu inquilinos que, ou aceitam o aumento de renda, já em Janeiro, correspondente ao meu aumento de impostos, ou podem procurar uma nova casa em Setembro (num fim-de-semana, arrendo a casa outra vez). Diria que uma "p Mas, como é sabido, não há cursos que expurguem a estupidez.

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