"(...) Como sabes, não percebo aquelas pessoas que dizem que sentem logo empatia com os filhos acabados de nascer; não entendo a conversa sobre o encaixe perfeito logo no primeiro segundo, do amor imediato por aquelas criaturinhas, do choro comovido no parto (...) E não me parece que esteja sozinho, não sou um coração seco no meio de uma luxuriante e viçosa humanidade. No fundo do coração humano não existe uma vontade de amor à espera de ser convocada pelo choro de um bebé (...) Eu só senti a tal magia da paternidade quando a mais velha me olhou pela primeira vez com olhos conscientes, talvez aos seis meses. Por outras palavras, só senti o amor quando elas aprenderam a pousar o seu olhar no meu. Como vês, este processo de construção amorosa demorou meses a fechar o círculo. Até lá, o que segurou o mundo não foi a emoção, mas sim o dever, o temor, o dever ético que estava para lá dos afectos ou ligações de sangue. Agora sucede exactamente a mesma coisa nos momentos de fadiga e secura emocional. É a minha decisão racional que suporta o meu papel de pai, não as minhas emoções. Ser pai não está no coração, está na cabeça, até porque é no coração que se escondem as trevas. O amor não é uma emoção, é uma decisão. Parece-me até que 'amor racional' devia ser pleonasmo, tal como 'ódio natural'. O ódio é que é natural, emocional e afectuoso. O reino dos afectos é o reino do ódio, porque esse é que flui sem esforço. O amor é de outro campeonato. Tal como a fé, é uma escolha, um salto de confiança que se toma com os neurónios. Se eu dependesse apenas das minhas emoções, apetites ou afectos, nunca teria casado contigo – teríamos continuado solteiros numa eterna lua de mel. Ou então nunca teríamos tido a segunda filha, ou se calhar nem a primeira teria aparecido na nossa vida (...)".
Henrique Raposo em "Nós os Pais", já à venda.
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