O valor de 65 mil euros anuais como Presidente de Câmara corresponde ao exercício de funções em dedicação exclusiva (doutra forma o ordenado seria metade).
Há uma pergunta evidente: como é possível ganhar 65 mil euros em dedicação exclusiva e mais 92 mil de trabalho independente?
De forma simples: os direitos de autor não contam para a definição da dedicação exclusiva, o que é razoável. António Costa terá produzido trabalho intelectual cujos direitos de autor lhe renderam 92 mil euros em 2014 (e outro tanto em cada um dos anos anteriores).
Que trabalho criativo, protegido pela legislação de direitos de autor é este? Fazer comentário político numa televisão.
Ao que parece tudo terá começado com Santana Lopes, que escrevia para jornais, a quem foi retirada a dedicação exclusiva na Câmara da Figueira porque alguém achou que o que fazia não estava protegido pela legislação de direitos de autor. O assunto foi parar aos tribunais, que decidiram primeiro dar razão a Santana Lopes e o Estado resolveu não contestar (em rigor, o ministro que na altura tutelava as autarquias locais, um tal António Costa).
De escrever textos de opinião para jornais, passou-se ao comentário político em televisão, e tudo isso passou a ser considerado como trabalho intelectual protegido por direitos de autor, apesar da lei em causa explicitamente negar protecção aos discursos políticos.
Para quem exerça cargos públicos, esta interpretação divertida da lei tem a vantagem de permitir a duplicação de ordenado que paga a dedicação exclusiva (no caso de presidentes de câmara, outras percentagens noutros cargos públicos, como professores universitários, por exemplo) e, para todos os envolvidos, permite poupar fortemente no IRS (os rendimentos só contam a 50%) e no IVA (as empresas ficam isentas de pagar IVA.
Talvez por isso, pela quantidade de gente com acesso à produção mediática, e ao interesse próprio quer dos jornalistas, quer das empresas de média, não me lembro de mais que tímidas referências mediáticas ao absurdo de considerar estas actividades como protegidas pela legislação de direito de autor, com as consequências patrimoniais relevantes para muita gente influente (no caso de António Costa, de acordo com este blog, andaria pelo meio milhão de euros transferidos dos contribuintes em geral para o contribuinte particular, António Costa, seja sob a forma de remunerações indevidas, seja sob a forma de impostos não pagos).
É que a questão não é tanto António Costa (se usou os meios legais para pagar menos impostos, fez muito bem, as pessoas têm o direito de se defender das pulsões confiscatórias do Estado. Já quanto a receber o dobro por uma dedicação exclusiva que não existe, a conversa é outra), a questão mesmo é a forma como a imprensa, a rádio e a televisão se esquecem das suas obrigações de escrutínio no uso de dinheiros públicos quando os beneficiados são os próprios ou os amigos escolhidos.
Será que é só um acaso nenhum destes jornalistas justiceiros, sempre prontos a falar da banca, dos negócios, dos interesses, da captura do Estado pelos interesses privados ter achado interesse em verificar o fundamento legal, ético e moral do uso da legislação de protecção dos direitos de autor para efeitos fiscais por parte de quem faz comentário desportivo ou político?
Eu tenho a certeza que os contribuintes em geral têm todo o interesse em saber a extensão do uso deste mecanismo e em apertar a mão a quem, podendo, prefere não usar este esquema manhoso de transferência de riqueza de todos para os poucos que a ele têm acesso.
Se isto fosse com Passos Coelho...
ResponderEliminarSe não for a blogosfera a fazê-lo, a informação alinhada com o poder socialista não publica nada. Impressiona a protecção que lhe fazem.
ResponderEliminarSou docente contratado e estava há cinco anos sem leccionar por causa da direita, este ano tenho um horário de oito horas a oitenta quilómetros de casa...é muito pouco mas para quem já não esperava nada devo isso ao governo PS. Este ano houve muito mais horários para contratados e muitos conseguiram colocação.
ResponderEliminarA falta de comentários ao post é elucidativa. O medo do português é muito antigo. Trezentos anos de inquisição deixam muitas marcas, que não se vêem mas estão lá. Salazar aproveitou-se bem disso. E esta malta também.
ResponderEliminarMas então não é trabalho intelectual descobrir a forma de enganar e vigarizar os otários dos portugueses?
ResponderEliminarSim, citei esse blog e fiz um link, talvez não tenha reparado no link.
ResponderEliminarTem toda a razão, não reparei no link, apenas após ter enviado o meu comentário. Peço desculpa pelo lapso.
ResponderEliminarSe me pudesse dizer que informação é essa agradecia.
ResponderEliminarAssinale com um x os colunistas alinhados com o PS, sff:
helena matos
zé manel fernandes
avillez (dois l)
raposo
jm tavares
o das sobrancelhas grandes
sociólogo gonçalves
Já no ano passado se falara deste assunto. O Blog Do Portugal Profundo publicou um fundamentado post. Certo é que os comentários (conversa de café, digo eu) produzidos no programa Quadratura do Círculo não traduzem propriedade intelectual, sujeita à protecção no Código de Direitos de Autor. Por isso, a tributação deve fazer-se de acordo com o regime normal do IRS. Cabe fiscalizar e liquidar adicionalmente os valores que, indevidamente, não foram pagos. Acresce a remuneração auferida na CML, que deveria ter sido reduzida de acordo com a lei aplicável.
ResponderEliminarMaria Oliveira
ResponderEliminar157 000€ deste cidadão, equivale a mais do que157 meses de trabalho meu. Esta é a que se chama com clarividênciao de viver em democracia-trabalho igual direitos iguais. O cidadão em causa é jurista, eu tal como o outro, também fui pedreiro e guardei gado, diplomei-me em escolas técnicas e como alguém apelidou(candidata a PR), pobres estes estudantes que maltratados foram pelo Estado Novo em prole dos estudantes liceais. Mas eu e todos os diplimados nas escola industriais, não são palerminhas, porque lhes foi dada formação adequada para singrar na vida. Sabem ler, escrever e interpretar. Agora o que temos...iletrados com canudos...que não precisam de frequentar as instituições superiores ou inferiores, basta inscreverem-se