quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Da administração pública

"Em suma, sem subestimar a influência que o nosso perfil de especialização tem sobre a nossa competitividade global no comércio internacional, eu diria que o nosso verdadeiro problema, o nosso principal atraso, está na decadência institucional e administrativa do Estado, causada por uma administração pública virada para dentro, frequentemente impotente para tratar dos verdadeiros problemas das populações, altamente politizada e, pior ainda, altamente partidarizada. Isto sim, diria eu, constitui um drama e representa o diabo."


Não tenho a certeza de que este seja "o" nosso verdadeiro problema (não sei o suficiente de economia para ter opinião formada sobre o assunto), mas tenha a certeza de que é um verdadeiro problema.


Estranhamente, quase não se ouve nada sobre os efeitos que a actual execução orçamental está a ter na degradação dos serviços públicos, cada vez mais preocupados em garantir que o dinheiro chega ao menos para pagar os ordenados, mas cada vez mais sem qualquer hipótese de fazer esse pagamento ter retorno de serviço público porque faltam os recursos para tudo o resto que torna útil o trabalho dos funcionários.


Longe, muito longe de mim, estar a dizer que a degradação dos serviços públicos decorre deste governo, bem pelo contrário, é um processo muito longo que tem as suas raízes no cavaquismo, em meia dúzia de decisões tomadas nessa altura mas, sobretudo, na ausência de decisões fundamentais desde essa altura, por parte de todos os governos (uns mais, outros menos).


Mas que a actual obsessão pelo défice, associada a políticas de gestão orçamental desastrosas, está a ter um efeito devastador na administração pública, lá isso está.


Iremos pagar muito caro esta desvalorização do Estado (apesar da cortina de fumo da retórica da defesa dos bens públicos) que está a ocorrer há muitos anos e que agora se tem acentuado com este governo e com esta execução orçamental absurda.

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