quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Não digam que vêm daqui

 



 


Vou contar-vos um segredo: a par da exigente tarefa de educar (no sentido ortopédico do termo), do silêncio, da solidão e do tédio, todas elas experiências fundamentais na formação do carácter, brindar as cabecinhas das crianças com boas memórias é uma importantíssima tarefa a que os pais são chamados a empreender.
Acontece que uns quantos momentos felizes na infância podem a prazo salvar uma vida confrontada com o desespero. Umas memórias felizes constituem o mais valioso legado que podemos deixar aos nossos filhos. Falo de um património imaterial e afectivo como as festas em família, os passeios, as férias na praia ou no campo, uma ida ao circo ou ao cinema com os primos e amigos, falo de muita partilha de rituais e momentos marcantes, vividos em cumplicidade e sentido de pertença. Mais do que grandes artifícios ou destinos de emoções tão fáceis quanto descartáveis, essas recordações são uma laboriosa construção em que nos cabe o papel de engenheiros: preencher os rituais de significado, fazer que as relações com as pessoas, lugares e acontecimentos ganhem densidade e raízes nas suas existências. Esse é um trabalho de sapa em que os miúdos nos exigem coerência e verdade: eles são os primeiros a desacreditar na fancaria dos afectos e das fúteis ligações. Com as pessoas, com os lugares e com os acontecimentos. Nas suas memórias só guardarão o que seja fecundo de espanto e significado. Eles não sabem ainda, mas as suas marcas de felicidade poderão um dia ser a sua redenção. 

10 comentários:

  1. Sem dúvida.
    Essa foi a parte em que eu falhei por inexperiência, falta de apoio e se calhar algum comodismo...

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  2. Parece que estou a ler o "mai novo" dos Karamazov....

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  3. Caro Gustavo; não sei como interpretar as suas palavras, se escárnio ou elogio. Certo é que o texto não é mera retórica.


    Abraço

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  4. Caro joão
    Não, não, escárnio não é o meu género... Um abraço para si também.

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  5. João,


    ao ler as suas simples palavras, e sem qqr tipo de analise livresca, tive uma sensação estranhissimo:


     - por momentos, parecia-me que estava a ler uma descrição daquilo que Eu penso e sinto e tento praticar!


    Os apenas 11 anos, da minha descendencia, não me permitem ainda avaliar o impacto das memórias...


    ...mas na duvida, tou conscientemente convicto, que é tal e qual descreveu.


    ,o) 


    simples e certeirissimo.

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  6. Jose Diogo Ferreira Martins12 de agosto de 2012 às 21:37

    Mas que belo texto. Parabéns. Obrigado pelo confort food " para a alma! Esta muito bem dito, sim senhor. O melhor que lhe posso dizer é que partilhei com a minha família (que pratica em dose generosa o que elogiou no seu texto).

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  7. Caro João,
    tal como lhe tinha dito, a partilha feita do seu texto, já vai re-partilhada, em http://senhorasdanossaidade.com/2012/08/14/as-marcas-da-felicidade-do-verao/ (http://senhorasdanossaidade.com/2012/08/14/as-marcas-da-felicidade-do-verao/)

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  8. Agradeço a sua simpática referência, Mariana. Vejo que apanhou o ponto. :-) 

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