O bom do português quando usa uma palavra estrangeira sente-se moderno, cosmopolita e dono duma grande ciência. Para já, com o acordo com a Troika, o secreto orgulho vivido pelos políticos que tão galhardamente defendiam as Golden Shares tem os dias contados. Certamente o conveniente preceito tivesse passado ao lado se lhe tivéssemos chamado simplesmente “participação decisiva” ou coisa parecida. É a mania das grandezas: Golden Share tem outro sainete, mas acabou-se. É tal e qual um Test drive, que afinal trata-se duma inigualável experiência de condução exclusiva de quem se prepara para enterrar uma pipa de massa a num automóvel.
A grande invasão dos anglicismos começou de mansinho no tempo dos meus pais com os filmes de Cowboys e com o After Shave, até chegar dominadora e despótica aos dias de hoje com o Outlet, o Underground e o casamento gay. Subitamente toda a gente se refere a downloads, feedback e barbecue, e gaba-se de ter um Account que lhe cobra as taxas na conta bancária. E se lhe deremos conversa ouviremos termos como pricing e banking. Para mim este delírio começou quando eu era pequeno com a Baby sitter, o mais das vezes uma parente mais velha que nos fechava às escuras no quarto às dez da noite. Daí até ao Check in, Check out ou Cheesburguer foi um saltinho. Tudo por culpa do marketing que no tempo do meu avô era simples propaganda, uma palavra tão bonita que já ninguém quer usar. E vieram os personal trainer, os deadlines e os franchisings. Claro que entretanto subiram as taxas de divórcios e o consumo de Donuts, para desgraça das bolas de Berlim. De caminho pessoal obteve um Upgrade nas fórmulas de percepção da realidade com o conceituado Feeling que obteve bastante sucesso substituindo o nosso tradicional dedo que adivinha: hoje qualquer Tuga que se preze pode decidir baseado num bom Feeling.
Nos últimos tempos, depois do Car jacking, são o Rating e o downgrade que trazem um toque extra de requinte ao linguajar indígena, tal como acontecera nos anos noventa com os Interfaces, os Shoppings e o Jogging, um singular desporto que consiste em correr a arfar pelas ruas ou caminhos. Agora não sabemos viver sem a Internet, os Mass media, os Overbookings e os Pace makers. Hoje em dia até os pescadores são vitimas de Phishing, e para nos livrarmos duma Newsletter no email é uma carga de trabalhos; uma miúda gira é uma Top model e é provável que até use um pearcing. É o mundo virado ao contrário, um triste destino de colonizados para o qual não já não há Golden Share que nos salve.
Texto reeditado.
Para não esquecer o lock out na CRP!!!
ResponderEliminarAté compreendo o incómodo com os estrangeirismos.
ResponderEliminarContudo, não deixa de ser curioso que a listagem de anglicismos seja antecedida de um eslavicismo.
Por outro lado, o que diria um feroz latinista do uso de cosmopolita?...
Mas a coisa ainda é um pouco mais complicada:
ResponderEliminar- account deriva do latim computare;
- pricing, de pretium;
- cheese, de caseus;
- model, de modus, modellus;
- letter, de littera;
- car, de carrus, carra; etc.
Assim, afirmar que os anglicismos são um desperdício de latim é andar um pouco mais longe da verdade do que parece.
Ando para escrever sobre este assunto há algum tempo, aproveito agora o facto do seu escrito o abordar. Concordo em absoluto com a sua opinião sobre os anglicismos.
ResponderEliminarTudo isto começou com o 25/4. Primeiro a trote, depois num galope desenfreado e nunca mais parou até aos dias de hoje. Torna-se 'mais chique' e muito práfrentex intermediar vocábulos ingleses com portugueses, dá-lhes um 'estatuto' especial. Isto julgam eles, está claro. Este é um péssimo hábito, sobretudo para as crianças em idade escolar, porque as impede de aprender a ler e a escrever correctamente a nossa riquíssima língua. E os emigrantes saiem igualmente prejudicados, já que muitos deles aprendem (além dos muitos mais que aprenderam no passado) a escrever e a ler através dos jornais, revistas e programas televisivos que lhes chegam de Portugal. Muitos políticos, comentadores e alguns jornalistas incorrem no mesmíssimo erro.
Um só exemplo e para mais ridículo: porque motivo, desde que os peritos estrangeiros chegaram a Portugal com o propósito de endireitar as nossas depauperadas finanças, se adoptou o vocábulo não português TROIKA para os designar e não o portuguesíssimo TRIUNVIRATO que quer dizer exactamente o mesmo? Por desconhecimento? Por snobismo? Por parvoíce? Ou será porque troika é um dissílabo fácil de pronunciar e com uma sonoridade engraçada, contràriamente ao polissílabo triunvirato que fonèticamente não tem graça e é mais complicado de verbalizar e até de escrever?
Este abastardamento da língua portuguesa, que já vem de longe e espalhou-se que nem uma praga, tem uma motivação e uma finalidade: destruir completamente a nossa língua, sendo este o nosso bem mais precioso a par do solo-pátrio . E os seus promotores sabem-no perfeitamente, eis porque o introduziram subreptìciamente no nosso léxico. Um povo sem a língua que lhe deu origem perde a identidade. E é justamente esta prática diabólica que as democracias exercem em todos os países onde penetram e se implantam. Um povo sem a sua língua materna é um povo perdido. Este é aliás o objectivo último dos auto-proclamados 'democratas da mais pura água', os piores traidores que Portugal já conheceu, os mesmos que desde há quase quarenta anos têm vindo a reger, ou melhor, a destruir o nosso país e a língua portuguesa.
Maria