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sexta-feira, 4 de abril de 2025

"Adolescência": uma ferida dissecada

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Chamemos-lhe "um filme" (vê-se de uma vez) à série apresentada em quatro episódios de uma hora da Netflix, “Adolescência”, que tanta crítica positiva e comentários elogiosos tem gerado na imprensa e redes sociais. Sou daqueles que me junto a esse coro de admiração. Ao guião, à tremenda prestação dos actores, desde logo Owen Cooper (como Jamie Miller, o adolescente) e Stephen Graham (como seu pai Eddie Miller), e á portentosa realização, num admirável plano de sequência, a história contada através de uma câmara oculta que se desloca entre diferentes panoramas narrativos sem qualquer espécie de corte, coisa que confere um confrangedor realismo.


Um dos aspectos mais relevantes desta série britânica, sobre um assassinato de uma jovem adolescente por motivos fúteis (são sempre) é que a narrativa limita-se a reflectir, de forma crua e às vezes brutal, a acção e diálogos, sem tentar induzir o espectador qualquer julgamento, teoria ou preconceito, deixando isso a cada consciência. Nesse sentido, ao contrário da maioria dos comentários que vou lendo, focados numa suposta perversão da nova geração de adolescentes, reféns da toxicidade das redes sociais ou em fenómenos grupais como o da cultura "incel" (involuntary celibates, "celibatários involuntários" frustrados pela incapacidade de seduzirem uma miúda), parece-me que a serie releva-nos antes a arbitrariedade de causas e razões que a maior parte das vezes é a ignição do mal, da violência ou da imoralidade. É mais saudável e verdadeira esta conclusão do que a busca de uma suposta teoria sobre uma suposta decadência da civilização, na procura de uma profilaxia eficaz. O mais próximo disso que encontramos é no eloquente episódio decorrido na escola de Jamie, o alegado assassino de treze anos, onde nas salas de aula, corredores, recreios e campos de jogos, na omnipresença de telemóveis nas mãos de cada aluno, nos é exposto um ensino público em profunda decadência. Apesar do tradicional uso britânico da farda, do blazer e gravata, esses artefactos usados ostensivamente a trouxe mouxe relevam-nos para a total ausência de autoridade (desprezo), para o deslaçamento da comunidade escolar - significativa a cena da chegada, atrasado, à sala de aula de um professor substituto estremunhado a apertar as calças, perante os alunos em total rebaldaria.


A adolescência sempre foi uma idade difícil, e não o era menos antes da proliferação da internet, dos jogos electrónicos e redes sociais que hoje mantêm as crianças em casa em enganador sossego. O perigo espreitava a cada esquina nas ruas e nas escolas, onde pairávamos aos magotes à procura de aventuras e a explorar o desconhecido. O mal esconde-se e revela-se onde menos se espera, emergindo numa conjugação de factores e estímulos quantas vezes incontroláveis. A única coisa que sabemos é que a mentira escraviza como a verdade liberta. Que Deus nos dá a escolha, o livre arbítrio. E ao final do dia, na penumbra do horror da culpa, dos destroços do mal e da morte, ainda assim nos concede o perdão.


É ingenuidade a pretensão de erradicar o mal na humanidade, nessa matéria não há progresso. Poder-se-ão aventar causas prováveis, sugerir explicações, mas jamais haverá profilaxia. Hoje como há dois mil anos, há 10.000 anos, a nossa única salvação está em Deus, que os modernos se esforçam em matar. Mas desenganem-se eles. Como terminava há dias no Observador o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada numa crónica precisamente sobre o que nos atira à cara esta impressionante série é “o que resta de uma vida, de uma família e de uma sociedade sem Deus, o grande ausente. Afinal, não há bons selvagens, porque a lei da selva é impiedosa. Deus é amor (1Jo 3, 8.16) e, por isso, só Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6).”


Há esperança, como nos é dado ver nas últimas cenas de “Adolescência”. A verdade liberta, e isso é já meio caminho para a Salvação.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Jogo Perigoso

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Os programas de debate futebolístico à segunda-feira nos canais de notícias vêm-se tornando numa autêntica aberração imprópria para crianças e gente civilizada - caio lá demasiadas vezes nos meus zappings à procura de notícias depois do jantar e fujo quando a coisa azeda, que nunca demora muito tempo. Na busca de audiências, que o mesmo é dizer, transpondo para a discussão verbal o mais básico fanatismo das claques, a conversa descamba com demasiada frequência para a insinuação e o insulto, que propicia cenas de algum embaraço quando a ténue fronteira do descontrolo emocional ameaça desabar entre os oponentes.
Sou do tempo em que no Sporting se debatiam fórmulas de atrair a família, nomeadamente senhoras e crianças para as bancadas do estádio, mas receio que o percurso feito nos últimos anos pelos clubes, através de políticas de comunicação extremamente agressivas, vem sendo inverso: a seguir a cada jogo, no espaço público que vai entre as televisões e as redes socias, toma lugar uma batalha verbal com pouco compromisso com a verdade e ainda menos com a boa educação. Voltando às televisões, desconfio que os responsáveis dos programas, que se não são os primeiros responsáveis, são cúmplices activos, estão simplesmente esfregando as mãos expectativa duma cena de descontrolo ou até de pugilato que exponencie as audiências, que por um dia catapulte o seu programa para os píncaros da popularidade, como se de um radical reality show se tratasse. Veja-se o caso do “Prolongamento” na TVI de ontem em que José de Pina e Pedro Guerra despudoradamente perderam a compostura (presumo que seja habitual).
Acontece que sou um amante do futebol, que preza a rivalidade acesa dentro das quatro linhas, transposta para as bancadas dentro dos limites mínimos das salutares regras de civilidade. Não compreendo que se critiquem os jogadores ou os espectadores quando se descontrolam e se aceite passivamente que esse jogo perigoso seja extrapolado para a televisão com um discurso que toca as raias do irracional como se fosse legítimo. 


Sou do tempo em que as televisões e o jornalismo tinham pretensões pedagógicas e sabiam o seu papel na sociedade. Não me parece que a busca de audiências justifique um espectáculo tão indigno quanto aquele que se vê nos serões das segundas-feiras por essas TVs.


Publicado originalmente aqui

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Populismos e Pós-verdades

Pelo que vi em duas horas de noticiário da SIC Notícias que passei em "F. Forward", o que de mais importante que marca a agenda do país é a sova que um adolescente levou há dois meses e a (in) competência dos árbitros de futebol. Só faltou o comentário do professor Marcelo, mas com a pressa deve ter-me escapado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Vera

Vera.jpgEstes tempos de férias serviram também para conhecermos “Vera”, uma série policial britânica da ITV estreada em 2011 agora em transmissão na Fox Crime, que para quem procura descansar dos cânones estéticos da TV norte-americana constitui uma lufada de ar fresco. A boa qualidade da fotografia é pedra angular nesta série que nos surpreende e desvenda a paisagem rude e enregelada de casario cinzento, de terras áridas e o mar bravio de Northumberland, condado que faz fronteira com a Escócia no nordeste de Inglaterra. Como o nome indica, a série composta por longos episódios de cerca de 90 minutos, é protagonizada pela dedicada inspectora Vera Stanhope (Brenda Blethyn), uma solitária cinquentona de mau feitio e com uma singular aversão por crianças. Apesar disso a personalidade severa e inquieta de Vera consegue (às vezes) cativar-nos com seu olhar generoso, e tem como contraponto, o assistente Joe Ashworth (David Leon) o seu braço direito que vive dividido entre a absorvente profissão e o apelo da sua jovem família que já conta com três rebentos.
Se ao princípio estranha-se, “Vera” lentamente entranha-se-nos: trata-se de uma complexa e enigmática narrativa que decorre em ambientes tensos, plenos de humanidade e desassossego; histórias que percorrem sem pudor as margens mais sombrias do caracter humano. A cerrada pronúncia das gentes quase torna imperceptível o inglês que nos habituamos a ouvir tão elegante nas produções britânicas. Ela condiz com a paisagem agreste do norte bravio e encadeia-se bem com uma banda sonora criteriosa que acentua os inquietantes silêncios. E depois, há aquela avara beleza que se vislumbra na paisagem e nas personalidades complexas, que adquirem a espaços uma luminosidade tensa e apaixonante. Como a vida real.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tenho o estômago revirado de nojo

Informam-me que José Alberto Carvalho terminou o Telejornal da TVI em directo do novo Museu dos Coches ao lado do Landau do Rei Dom Carlos a citar o testamento do Buiça, louvando o facto de ele saber que ia dar a vida pelo futuro dos seus filhos na defesa dos "valores republicanos" ao assassinar um Chefe de Estado constitucional e o Príncipe Real (por sinal marido e filho da Rainha D. Amélia fundadora daquele Museu).
Ainda há quem acredite na evolução da humanidade. Tenho o estômago revirado.


PS.: Como seria de esparar, mais de cem anos depois ainda usufruimos (com garbo) dos nossos históricos desvarios, e Portugal é orgulhsamente um dos países mais pobres e desiguais da OCDE.


 


PS.: 2 Correio Azul 


 


 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O espírito do tempo


Se os mórbidos personagens animados "Itchy e Scratchy" da série de TV preferida pelos irmãos Lisa e Bart Simpsons por sua vez também fossem fans de desenhos animados, estou em crer que as suas séries de eleição fossem “O Incrível Mundo de Gumball” ou “Titio Avô” do Canal Cartoon Network. Parece-vos estranha esta cogitação? Façam então a experiência de ver dois ou três destes episódios no canal 47 do cabo e, se ainda tiverem capacidade para tal, espantem-se com a imbecilidade a que podem chegar os enlatados pseudo-artísticos para amestrar crianças retidas em casa.



Sabia que os antigos episódios da Rua Sésamo foram recentemente reclassificados para adultos por causa dos excessos do Monstro das Bolachas, que na sua nova encarnação “politicamente correcta” foi recriado como o "Monstro das Frutas e dos Legumes"? Agora a insolência substituiu a  irreverência como tónico para cativar a criançada: na actualíssima série americana “O Incrível Mundo de Gumball”, onde todos os personagens têm aspecto de pastilhas elásticas mastigadas, impera o multiculturalismo. A família é composta pelo pai Richard, um coelho cor-de-rosa (segundo o site oficial) absolutamente idiota e histérico que contracena com a encantadora Nicole, a mãe atenta e reflectida (como se exige na cartilha da igualdade de género) e a Anais, a irmã mais nova de Gumball, que sai à mãe e é a inteligência em pessoa. Há depois ainda o Darwin, o animal de estimação da família que tem pernas, braços e usa meias e que mais tarde vim a perceber tratar-se dum peixe, o companheiro de aventuras de Gumball, o herói da série que é suposto cativar as nossas criancinhas e cuja burrice a par com o atrevimento o atiram para os mais improváveis sarilhos. Podia-vos aborrecer mais um bocadinho a falar de outras personagens como a professora do Colégio, Lucy Símio, uma assustadora macaca velha em forma de esqueleto que reprime e atormenta os seus alunos, em especial o protagonista principal Gumball, que como vos disse atrás deve pouco à inteligência. Um perfeito "herói" à medida do espírito dos tempos. 


Sobre a série "Titio avô", digo-vos que se lá encontrarem alguma relação com algo de plausível na vida real será pura coincidência: o Titio avô apesar da cara de labrego é "amigo de toda a gente", viaja fora do tempo e do espaço numa casa enorme com rodas e de incríveis faculdades. Os seus principais companheiros de aventuras são Gus o homem Dinaussauro, o Steve que é nada menos que uma vaidosa fatia de pizza de óculos escuros e finalmente o não menos extraordinário "Tigre Realista Gigante Voador" (uma fotografia estática), o aliado deste herói para as batalhas mais surrealistas.  


Perante o fascínio que tanta fealdade e parvoíce exercem sobre a criançada, tranquiliza-me o facto de milhões delas terem dado certo apesar de criadas em ambiente de guerra ou de pobreza. Por isso desconfio que a geração do meu filhote, com mais ou menos mazelas e peripécias, irá também medrar apesar de tudo. De resto, como é evidente, aquilo que é mesmo impróprio e uma ameaça para a formação dos nossos infantes mimados é Monstro das Bolachas.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Televisão


 


Já por diversas vezes abordamos as virtudes e virtualidades das redes de media-social no âmbito da facilitada tarefa de auto-edição, seja em texto, imagem ou audiovisual, e a ameaça que essas plataformas vêm representando para os media tradicionais de quem acabam por ser concorrentes.


Um dos mais bem-sucedidos casos é sem dúvida o Youtube que, com enorme sucesso global, vem desviando público e receitas publicitárias às televisões, através de uma radical alteração de paradigma na produção e distribuição de conteúdos, que desta forma vem sendo democratizada de forma dramática.


Irónico é verificarmos como os media tradicionais, apesar de pressionados com a queda das receitas publicitárias de um modelo claramente em declínio, resistem aderir à web 2.0, agora que vivemos a web 3.0, ou “web semântica”, virada para a experiência de utilização e para os condicionalismos do meio (localização do utilizador, equipamento utilizado, design líquido, etc.).


Feita uma análise aos “players” de internet das principais operadoras de TV nacionais, para lá de não estarem devidamente adequados aos dispositivos móveis, é curioso verificar como persistem na tentação de segurar o visitante dentro dos seus pesados websites, talvez devido a alguma absurda política de branding, ou quem sabe por um inadequado modelo de exploração publicitária ou de cross selling do material neles disponibilizado numa coerência editorial própria.


Com esta estratégia de custos incalculáveis, a disseminação viral dos vídeos é reprimida, coisa que não parece fazer sentido, a partir do momento que é tão fácil reproduzir a fórmula do Youtube, em que cada “filme” é rentabilizado por um anúncio nele integrado, estando o mesmo munido de um sistema de análise estatística e de botões emissores de códigos para facilitação de partilha em diferentes contextos web externos, como blogs, sites, e toda a sorte de redes sociais. Mesmo aqueles sites como o da RTP que disponibilizam botões de partilha, exceptuando o caso do código para o Facebook, exigem a contextualização do conteúdo “dentro de portas” através de um URL.


Esta estranha política, que não sendo causada por limitações técnicas, só se explica por uma enorme dificuldade dos media tradicionais fazerem o "paradigm shift" (mudança do paradigma), fenómeno que afinal vem potenciar toda a pirataria feita pelos utilizadores das plataformas social media como o Youtube, que pelas razões já enumeradas permitem potenciar a viralidade desses conteúdos dando-lhes asas.


Certamente que o factor de custos mais pesado na indústria do audiovisual é a criação de conteúdos. Ou seja, os grandes grupos de comunicação desenvolvem e possuem a matéria-prima, para depois descurar a sua difusão, e por consequência na sua rentabilização. Fará sentido resistir assim teimosamente até à morte, ou será que ainda pretendem um dia destes reivindicar subsídios ao Estado?


 


 com Hugo Salvado


 


Publicado originalmente aqui

domingo, 8 de setembro de 2013

Pagar para ver

 


A exploração de um canal temático de televisão contém riscos e potencialidades que exigem uma gestão muito profissional, mais a mais no âmbito da indústria do futebol, tema que como sabemos “comove” milhões de adeptos e move milhões de euros.
No que diz respeito a um canal explorado por um clube “a solo” concorrendo no mercado da televisão em regime de “pagar para ver”, por muitos e bons conteúdos que se contratualize em exclusividade, os seus riscos aumentão exponencialmente, porque o sucesso estará sempre restrito ao número dos seus apoiantes com entusiasmo e meios para o subscrever. Nesse sentido, o êxito da empresa será sempre refém do sucesso desportivo do emblema. Ou seja, a somar aos exigentes desafios duma boa gestão operacional e comercial, o projecto arrisca-se a ser comprometido por uma bola no poste, um fora de jogo mal assinalado ou a má forma de um atleta. Se a vertigem da sorte é a alma de qualquer jogo, essa característica pode ser mortífera para um projecto empresarial. Também por isto temo que o Canal Benfica resulte num mau negócio. 


 


Publicado originalmente aqui.

domingo, 2 de setembro de 2012

O caso RTP ou o canto do cisne da televisão generalista

 


É curioso como o editorial de hoje do Público sobre o imbróglio da reforma da televisão pública, dedica todo o primeiro parágrafo a um exercício de sentimentalismo nostálgico, na recordação da velha televisão a preto e branco, a enternecedora mira técnica ou até as adoráveis avarias técnicas que se justificavam com o slide de pedido de “desculpas por esta interrupção”. Esta abordagem é indicadora como o tema se entorna tão facilmente e a discussão se embriaga num processo de total irracionalidade. Talvez em consequência disso não é de estranhar que os mesmos que nas redes sociais vituperam os vícios do regime, reclamando por uma nova ordem e transparência defendam o status quo duma RTP que desde da sua fundação assumiu o papel de guarda pretoriana dos regimes que se sucederam e que nos trouxeram por este caminho.
Acontece que também eu prefiro um modelo de serviço público de televisão, cujas audiências suspeito dificilmente descolariam dos 3% do canal dois, inviabilizando-se assim a sua exploração comercial. Deste modo, “a minha RTP” teria que se cingir às receitas da Taxa de Audiovisual e sem mais recursos promover na sua grelha reportagens, noticiários e debates isentos; e preencher o horário nobre as melhores produções de música, teatro e cinema mundiais. Enfim, um capricho meu, uma utopia.
Finalmente, parece-me que este debate não deveria evitar o verdadeiro busílis, que julgo esteja na origem da excitação que o assunto provoca nos principais operadores televisivos e respectivos grupos de média: o imparável declínio do actual modelo de distribuição de conteúdos, mais desastroso na televisão generalista, e a notória incapacidade deles se adaptarem às novas fórmulas de consumo. Para o bem e para o mal, a geração dos nossos filhos universitários já não se senta a ver televisão. Na internet ou nos canais temáticos, pesquisam, assinam e consomem os conteúdos, os filmes, séries e músicas que lhes apetecem a cada momento: não há mais como se lhes impingir qualquer menu pré-estabelecido, de lhes vender uma verdade. E isso é bom.


 


Publicado originalmente aqui

sábado, 20 de agosto de 2011

Más companhias

Corresponderá a promoção dos comediantes Pedro Marques Lopes, Daniel Oliveira e Pedro Adão e Silva a "comentadores políticos", como foi o caso de ontem à noite na SIC Notícias num debate sobre os primeiros dois meses do executivo PSD/CDS, à emergência duma perceção da atividade política como produto de entretenimento? Luciano Amaral estava decididamente a mais naquela florida jarra, pelo que não passou de um triste equívoco.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lie to me


 


Não me deixo de surpreender com o arrojo sedutor e a persuasiva sofisticação com que são esgalhadas as modernas séries televisivas de investigação criminal da Fox e da AXN, por exemplo as populares, "CSI", "Lie to me" ou "Bones": é tudo gente gira, elegante e charmosa, sempre trajada com as roupas mais sexys, cobrindo ou desvendando corpos e curvas esculturais de jovens ou enxutos quarentões, com personalidades enigmáticas e irresistíveis. A regra é que as suas complexas vidas privadas extravasam para o emprego e do emprego para a cama, entre colegas e uns copos num bar trendy ao som de glamour rock. O mais acirrado galanteio e a marmelada acontecem com um cadáver em decomposição em fundo deitado na bancada, ou com o vilão apanhado em pleno interrogatório. Neste fascinante mundo só se vislumbram idílicas vistas aéreas da cidade no crepúsculo ou madrugada, com fantásticas cores e brilhantes neons, e a as cenas decorrem dentro de requintados edifícios fashion, luminosos espaços assépticos cheios de design e a mais moderna tecnologia, com zumbidos agudos e luzinhas a piscar. Assim se entende a sedução que as profissões de polícia e detective exercem sobre a juventude, na descoberta de vocações e carreiras profissionais, e de caminho numa vida gira e emocionante a valer. Até um dia irem à esquadra mais próxima participar o roubo duma carteira.


 


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Telejornal

 


Há muito tempo que não assistia a um telejornal generalista e confesso que a coisa hoje me impressionou: para lá da exploração dos incêndios florestais até à exaustão, impera um formato folhetim com três ou quatro temas em episódios sem novidade, originalidade ou densidade, talvez para que o espectador não estranhe quando a telenovela começar a seguir. Tudo se adapta a este formato estupidificante: o assassino em série, a política, o futebol, mesmo que não haja “notícia” que afinal é o menos importante. Dê-se ao povo o que ele quer… consumir. Em termos internacionais, tirando algum escândalo ou tragédia, não se passa nada no Mundo e o fundamental é atiçar comedidamente os instintos da turba sem pensar muito.


Afinal, para as pessoas viverem nesta “redoma mediática”, não vejo por que não se suprimam os chumbos e o que resta do Ensino: nem saber ler é preciso.

terça-feira, 20 de março de 2007

O regicídio, a propaganda e a RTP

Soube hoje que a RTP prepara uma série de seis episódios sobre o rei D. Carlos, de cujo cruel assassinato se assinala em 2008 cem anos. Como é que a televisão vai tratar o monarca e o seu período histórico?
A leitura da História, sabemos todos, dificilmente se desliga das modas e preconceitos conjunturais relativos à época em que ela é escrita. Mais, sabemos bem como são tratados os acontecimentos e os seus protagonistas quando se pretende simplificar a mensagem, tendo em vista os grandes públicos, menos preparados. A História serve quase sempre de propaganda. Basta constatar os preconceitos e o simplismo com que é abordada a Igreja e o papel do clero medieval nos manuais escolares para o ciclo preparatório. Sinais dos tempos, herdeiros da triunfante estética marxista no século passado.
O argumento desta série “O Dia do Regicídio” está a ser escrito por Filipe Homem Fonseca e Mário Botequilha, senhores de quem não conheço obra. Antes, reconheço a dificuldade de transcrever para um guião novelesco uma realidade social e politica tão complexa. Espero o mínimo de rigor e honestidade na abordagem romanesca do trágico e decisivo evento histórico. Espero que se apresentem os factos fundamentais sem desvios ideológicos. Mesmo tendo em conta o dramático desfecho, que compromete essencialmente os percursores do inquestionável regime, da bandeira, sob a qual vivemos. Esperemos que o regime vá perdendo os complexos e a História possa ser mais assumida. Em banda larga, horário nobre e aos olhos de todos.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Tantos anos de televisão

A televisão fez ontem meio século em Portugal. Lembro-me daquela caixa de madeira escura e polida que depois de largos segundos a aquecer as “válvulas” se acendia numa brilhante paleta de tons cinzentos. Lá em casa, um histérico chamamento (que soava qualquer coisa como “DESANIMADOS!!!”) interrompia quaisquer que fossem as nossas actividades e punha-nos aos cinco irmãos numa correria para um bom lugar em frente ao aparelho. Este momento mágico decorria ao final da tarde quando a generosa RTP nos presenteava com um ou dois “cartoons” do Pica-pau, do Super Rato, ou, com sorte, do Perna Longa. Nesse tempo, quando em família assistíamos a um western na Noite de Cinema, era certa no dia seguinte a brincadeira com os "John Waynes" em correria no recreio da escola. E os festivais da canção, autênticos acontecimentos nacionais? Uns anos mais tarde, lembro-me bem da sensação de ir à mercearia durante a hora da novela, e ouvir ao longo da rua o genérico da Gabriela ecoando unânime e plurifónico, saindo de cada casa, de cada janela, a voz de Gal Costa: Eu nasci assim
Recordo também com alguma saudade as emoções das noites eleitorais, que significavam uma "directa" autorizada e garantida com direito a ceia madrugadora. Fantásticas e tensas noites longas em que se jogava o futuro da nação com os votos e as freguesias em crescendo nos placards magnéticos. E o Eládio Clímaco. E depois, lá para a frente, indignávamo-nos com as reacções unanimemente vitoriosas por parte dos partidos contendores. Ao raiar da manhã, sob a ordem do meu pai, normalmente apreensivo com os resultados, desligávamos a TV já fervente, desvanecendo-se as imagens prateadas num decrescente alvo branco, emitindo um ligeiro e agudo silvo final.
A televisão tinha o seu lugar, que nunca era maior que o nosso: não dava mais de meia hora de desenhos animados por dia; o teatro à segunda-feira, o cinema à quarta, a tourada numa quinta, ao sábado os telediscos… a fórmula 1 e o Fittipaldi ao Domingo. Uma seca, diriam os meus miúdos.
Hoje, na era dos computadores individuais e dos canais temáticos, dificilmente a família se junta toda espontaneamente em frente ao ecrã. Por vezes alugamos um DVD consensual (?!), ligamos o amplificador e fazemos um serão familiar. (Com um pouco de pressão e chantagem ainda lêem uns romances, e certamente ainda sentirão atracção pelos clássicos – espero eu.)
A única televisão cá da casa, um elegante aparelho espetado na parede da sala, perde influência real. Só a mais pequena, com os seus “canais animados”, se lhe mantém fiel. De resto, os computadores com os YouTubes e Chats da vida, remetem os miúdos para os seus recantos isolados, para os seus mundos e fascínios. Desconfio que a televisão que hoje festejamos, além de ser outra, está a acabar. No futuro, será o “audiovisual interactivo”, qualquer coisa parecida com uma mistura de YouTubes, Blogues e Chats que veremos num ecrã individual. Cada vez mais personalizado, particular e… egocêntrico. Veremos.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Totalmente desalinhado

Ontem à noite fiz mais uma tentativa de desvanecer algum pretenso "desfasamento geracional" e, em família, assisti estoicamente ao programa dos Gato Fedorento na RTP 1. Uma vez mais aquelas prestações dramáticas pareceram-me confrangedoras, e comprovadamente o seu sentido de humor minimal não me seduz - por exemplo, alguém me pode explicar a piada dos Moonspell a cantarem o genérico do Noddy?
Sei que o que estou a afirmar é um autêntico sacrilégio à opinião regulamentar. Mas insisto que, à parte de algumas caricaturas bem conseguidas do Ricardo Araújo Pereira, o espectáculo destes quatro jovens e esforçados yuppies parece-me paupérrimo e genericamente sem graça. O problema deve ser todo meu, é bom de ver, e eu serei certamente um perigoso e irrecuperável desalinhado em vias de ser desterrado.
De resto, prometo que quando tiver tempo vou alugar outra vez Um Peixe Chamado Wanda com John Cleese, Jamie Lee Curtis e Kevin Kline para, orgulhosamente e às gargalhadas, consolidar o meu “desfasamento geracional”.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

pequenos portugueses

Oiço o Dr. Santana Lopes no programa Grandes Portugueses a debitar uma série de vulgaridades e alguns disparates: por exemplo referindo-se à 1ª républica: “Antes do 25 de Abril só tínhamos tido 16 anos de liberdade”. O homem só deve ler as revistas do cabeleireiro, e depois dá nisto!

PS - Nunca o tinha visto, o programa é mesmo mau.

Justiça e povo: um divórcio perigoso

O Supremo Tribunal espanhol decretou que pessoas que atravessassem a fronteira numa zona onde não existissem «barreiras físicas» não poderia...