Várias pessoas sugerem, e às vezes sugerem-me, que vá ver o filme NAZA, não porque achem um bom filme, mas porque entendem que ver o filme é um acto de resistência, como dizia um dia destes o editorial do Público.
Compreendo as pessoas que, estando convencidas de que ocorreu e ocorre um massacre em Gaza, frequentemente acreditando que está em curso um genocídio palestiniano, acabem por desvalorizar um facto essencial sobre o filme: tudo o que é dito no filme não é verificável.
Achei aliás curioso que quando fiz referência à necessidade de usar fontes verificáveis em processos complexos, me tenham respondido que sim, era preciso usar fontes credíveis, como se verificável e credível fosse a mesma coisa.
A fonte que usei ontem no post que fiz sobre a mortalidade em Gaza não tem nada de credível, é o Hamas e, na verdade, os factos também não são facilmente verificáveis.
Por que razão a uso?
Porque é plausível que os dados do Hamas sejam torturados até que digam o que o Hamas quer dizer, mas não é plausível que sejam distorcidos contra o Hamas.
Logo, se os dados do Hamas sugerem fortemente (não são os únicos) que não há massacre nenhum em Gaza, provavelmente é porque não há mesmo massacre nenhum em Gaza.
Ora o filme de que estou a falar parte do pressuposto de que existem danos colaterais na guerra que o Hamas iniciou em Gaza, e existem com certeza.
O filme vai para lá disso e tem a tese (insisto, não vi o filme, digo-o com base na informação que fui obtendo aqui e ali) de que não só esses danos colaterais são em larga escala, como são pacificamente aceites na operação militar israelita, que terá desenvolvido mecanismos sem intervenção humana que assumem esses danos colaterais.
E é aqui que a porca torce o rabo, quando se começa a comparar o trabalho burocrático de Eichman com o que faz o exército israelita.
Com a maior das latas, assume-se que liquidar dois terços dos judeus em algumas zonas da Europa, com o objectivo claro de erradicar os judeus da face da terra, prendendo-os e eliminando-os pelos simples facto de serem judeus, tem alguma comparação com o facto de ter morrido menos de 3,5% da população de Gaza (não é pouco, a Ucrânia, até agora, terá perdido 0,3% da população), numa guerra urbana em zona de elevada densidade, iniciada pelo Hamas, com 70% da mortalidade a coincidir com homens entre os 15 e os 45 anos, presumivelmente combatentes do Hamas, na sua maioria.
Os dados não permitem certezas.
Mesmo sendo os dados do Hamas, a mim parece-me impossível que os danos colaterais sejam tão baixos, mesmo considerando a assimetria militar e de informação entre o exército israelita e o Hamas, que permite ao exército israelita infiltrar profundamente o Hamas e ter informação que lhe permita fazer ataques muito precisos, como tem feito.
Mesmo que não sejam tão baixos como os dados sugerem, são com certeza muito mais baixos que noutras guerras, como na Somália, Sudão, Nigéria, Etiópia, Síria, etc., o que levanta legítimas dúvidas sobre a seriedade do que é dito no filme Naza: se as coisas são como o filme descreve, como é possível que os danos colaterais sejam tão baixos?
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