Imaginem que um partido de esquerda radical era impedido de participar presencialmente num debate radiofónico. Não era excluído do debate, note-se: podia intervir, mas à distância. A razão? Os seus representantes teriam, aparentemente, uma espécie de lepra política que os impedia de partilhar o estúdio com os restantes participantes.
Imaginem agora que a líder desse partido não se conformava com a discriminação e, no dia do debate, irrompia pelo estúdio, reclamando o direito de ocupar o lugar que lhe estava destinado.
Os jornalistas depressa a promoveriam a nova Pasionaria. Teria sido a mulher corajosa que não se resignava perante a injustiça e ousava derrubar barreiras. A heroína que combatia os fascismos e o patriarcado tóxico. Multiplicar-se-iam os memes com o seu rosto, acompanhados de palavras de ordem em sua homenagem. Circulariam abaixo-assinados de solidariedade. A direcção da rádio seria pressionada a demitir-se por ter permitido aquela ignomínia discriminatória.
Um cantautor comporia uma balada em louvor da guerreira que não se vergava perante a opressão. Numa manifestação de apoio à proscrita, as t-shirts com a sua fotografia conviveriam harmoniosamente com os lenços e as bandeiras da Palestina.
Os partidos que aceitassem participar no debate sem a presença física da líder seriam denunciados como cúmplices da opressão. Um jornal mais à direita que descrevesse a sua justa reivindicação como uma «invasão» seria imediatamente catalogado de nazi. E quem ousasse lembrar que a intrépida guerreira poderia vir a sofrer consequências pela sua atitude seria também acusado de fascismo.
Seria, sem dúvida, um extraordinário espectáculo de indignação cívica, solidariedade e defesa intransigente da democracia.
Agora, a sério.
Quem me conhece sabe que não nutro qualquer simpatia pelo Chega. Aliás, é precisamente de alguns dos seus simpatizantes que me chegam insultos que acabam por dizer muito mais sobre quem os profere do que sobre quem os recebe.
Mas a coerência dos princípios mede-se, sobretudo, quando a sua aplicação beneficia alguém de quem não gostamos.
No caso que opõe a Rádio Universitária de Coimbra a Rita Matias, a minha solidariedade não vai para quem invoca a democracia enquanto parece esquecer que ela também exige regras de tratamento equitativo para quem pensa de maneira diferente.
A democracia não se prova quando defendemos os nossos. Prova-se quando reconhecemos aos outros os direitos que reivindicamos para nós.
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