segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O último vencido da vida

 Estive a ouvir a entrevista que ontem Passos Coelho deu a Maria João Avillez.

Em rigor, Passos Coelho não corresponde a esta observação da wikipedia sobre os vencidos da vida "Em face do percebido insucesso desse processo modernizador, canalizaram seu desencanto e a frustração dos seus ideais revolucionários da juventude para um diletantismo elegante e irónico.".

Pelo contrário, Passos Coelho teve sucesso, e muito, na modernização do país, mas a sua atitude posterior face ao corte brusco de trajectória introduzido por António Costa e a geringonça, acabou por o ir empurrando para o diletantismo em que agora parece estar empenhado.

Primeiro, decidiu estar calado face ao desastre que Rui Rio representou para o PSD, diz Passos, com elegância, mas sem ironia, por respeito para com essa direcção do PSD, agora decide que é tempo de vir defender, consistentemente, um caminho diferente para o PSD.

Em qualquer das duas fases, sem nenhuma estratégia de poder, concentrando-se apenas no país e no longo prazo, sem a chatice de ter de se preocupar com o dia a dia a que é preciso dar resposta se se pretende ter o poder para influenciar o futuro e o país.

Passos não vê nenhuma mudança a ocorrer na gestão da saúde em Portugal, acredita que o Estado já não tem capacidade para reformar o Serviço Nacional de Saúde mas, diletantemente, não dá o passo seguinte, o de se voluntariar para resolver esse impasse, o que lhe poupa o trabalho de explicar como é que atravessava o dia a dia até chegar ao futuro e ao longo prazo.

Infelizmente, Maria João Avillez não quis deixar Passos explicar em que medida o exemplo que deu da reforma laboral fundamenta a sua tese de que é possível trazer o Chega para o campo da responsabilidade reformista, facilitando o diletantismo de se ficar sempre na discussão do longo prazo, sem a maçada de saber como se obtém e mantém o poder para fazer as reformas necessárias hoje.

Note-se que não tenho nada contra esta opção, mais, acho muito útil a existência de pessoas como Passos Coelho a dizer o que pensam no espaço público, embora tivesse gostado que ele explicasse melhor como faria para dar visibilidade ao estudo "Desbloquear o crescimento de Portugal", de Nuno Palma e James Robinson, encomendado pela CIP e Instituto Amaro da Costa que, aparentemente, o mainstream mediático considera irrelevante como base de discussão de políticas públicas.

É que, ao contrário do que é habitual dizer-se, e Maria João Avillez disse várias vezes, os bloqueios do país não resultam apenas (eu diria, nem sobretudo) de haver três blocos com expressão eleitoral equivalente que não conseguem formar coligações reformistas, antes disso o que existe é uma sociedade e uma esmagadora maioria mediática situacionista, com medo de rupturas (veja-se a evolução da Iniciativa Liberal, força política mais organizadamente assente em propostas de ruptura, que se foi rendendo, paulatinamente, ao medo da imprensa e da perda de votos, até acabar na irrelevância intelectual que é hoje).

Sem responder a este contexto social, não vejo como se possa passar do diletantismo actual de Passos Coelho para políticas públicas reformistas.

1 comentário:

  1. Onde é que Passos modernizou o país? Assim de repente lembro-me da CRESAP, da diminuição de freguesias e da felixibilização dos despedimentos.
    Quer dar-nos exemplos de "modernização"?

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O Prometeu Passos Coelho

Houve entrevista com Maria João Avillez. (Enfim, uma entrevista com uma pessoa civilizada...) E terá entendido o entrevistado, Passos Coelho...