quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O rei vai nu (mas usa palavras caras)

Começa sempre da mesma maneira: uma mesa de cabeceira, um candeeiro aceso e a humilhante sensação de que o nosso cérebro está a dar as últimas. Estamos na quarta leitura da mesma frase — um monstro sintáctico com sete linhas, quatro vírgulas, dois pontos e palavras que parecem saídas de um baú do século XVIII — e a única certeza que temos é que o café arrefeceu. O primeiro diagnóstico é, invariavelmente humilhante: o problema é a nossa própria ignorância. Suspiramos, culpamos a falta de um doutoramento e sentimos uma pontada de vergonha por não estarmos à altura daquela densidade intelectual onde se escondem ideias geniais. Afinal, pensamos nós, quem escreveu isto é um académico, um iluminado que habita o topo da montanha do saber, e nós somos apenas o pagode cá em baixo, a tentar decifrar os deuses.

Mas a idade e o cansaço trazem um superpoder: a perda da paciência. Um dia, munidos de um dicionário e de uma teimosia invulgar, decidimos desmontar o intrincado andaime. Retiramos e substituímos as palavras escolhidas a preceito, esprememos os adjectivos pomposos, endireitamos as orações subordinadas e, quando finalmente chegamos ao núcleo daquela charada, dá-se o clique. O rei vai nu: não havia ali nenhuma tese revolucionária; não havia sequer uma ideia. O que ali estava era o equivalente literário a uma embalagem de batatas fritas: muito volume, muito ruído ao abrir, mas lá dentro apenas ar e demasiado sal. Percebemos, numa mistura de alívio e indignação, que a erudição não passava de uma cortina de fumo, um truque de magia rasca concebido para disfarçar o mais absoluto vazio conceptual ou uma contradição lógica gritante.

Hoje, no entanto, recuso-me a aceitar que isto seja apenas incompetência de comunicação, isso seria inocência minha. Estou firmemente convencido de que esta fórmula é uma rasteira deliberada, um exercício de puro cinismo. Esta trupe de sábios obscuros escreve difícil não porque o seu pensamento seja complexo, mas porque se diverte a gozar com quem tenta encontrar um nexo na sua escrita. Imaginando-os nos corredores cinzentos das faculdades, quase consigo ouvir as gargalhadas abafadas enquanto bebem um chá aguado, congratulando-se por terem publicado mais um artigo incompreensível que ninguém ousará criticar pelo simples medo de parecer burro. É o cinismo perfeito: trancam as portas do conhecimento com uma chave que eles próprios inventaram e riem-se dos incautos que ficam a bater à porta.

Para mim, esta postura é uma subversão total do próprio acto de escrever. Sempre encarei a página em branco não como um palco de vaidades, mas como um laboratório de tradução. O meu objectivo, o mais das vezes, é conseguir entender as minhas próprias ideias — conceitos e teses complexas que muitas vezes brotam nem eu sei em de onde — e traduzi-las em algo fácil de compreender, desde logo por mim próprio. Escrever é o processo de organizar o meu próprio caos mental. Se eu não for o primeiro a conseguir ler e decifrar com clareza aquilo que pus no papel, a escrita falhou o seu propósito fundamental.

A verdadeira sofisticação intelectual caminha, por isso, no sentido oposto ao destes ilusionistas da gramática: tem a obsessão da clareza. Quem realmente sabe o que quer dizer não precisa de labirintos de espelhos; usa a linguagem como uma janela transparente através da qual se nos revela o mundo. Por isso, a esparrela acabou. Da próxima vez que tropeçar num livro ou texto que parece exigir um transplante de cérebro para ser descodificado, não vou culpar os meus neurónios cansados. Limito-me a fechar o livro, a sorrir e a deixar o autor a rir-se sozinho no espelho do seu próprio umbigo. Nem sempre abandonar uma leitura é uma derrota.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O rei vai nu (mas usa palavras caras)

Começa sempre da mesma maneira: uma mesa de cabeceira, um candeeiro aceso e a humilhante sensação de que o nosso cérebro está a dar as últim...