sábado, 26 de setembro de 2026

Uma administração em roda livre

 No meu post anterior parti de um pequeno comentário do Laboratório de Fogos Florestais - UTAD para a crítica aos actuais mapas oficiais de Perigo de Incêndio Rural, que servem para planeamento da supressão e é a base dos avisos constantes de concelhos em perigo máximo.

Volto ao assunto, não terei sido justo e gostaria de clarificar a minha questão base: o problema é uma administração pública perdida no seu labirinto, não são as pessoas concretas que acabam assombradas por processos em que se envolveram, sem nenhuma responsabilidade nas asneiras que resultaram desses processos.

O que eu, e tantos outros, mesmo dentro da administração como se vê por esta bonecada da AGIF, pretendem é que os mapas de Perigo de Incêndio Rural sirvam para distinguir os 12 a 15 dias do ano em que arde 80% da área do ano, adequando os avisos ao perigo real associado a determinadas condições meteorológicas.

O problema é que há duas questões manifestamente diferentes, que a administração pública, em especial do IPMA (os serviços meteorológicos), que é quem produz avisos, com o apoio do ICNF (para o que aqui interessa, os serviços florestais) e da ANEPC (a estrutura que o Estado criou com base nos bombeiros para tentar contentar os bombeiros, mas dar um ar mais profissional ao assunto), resolveram juntar, sem qualquer base técnica ou de conhecimento.

Uma coisa é o risco estrutural de incêndio, que se procura espacializar através de mapas que permitam saber onde há maiores acumulações de combustível.

É um instrumento útil para planear intervenções de médio/ longo prazo e foi isso que foi trabalhado por pessoas ligadas à geomorfologia e à gestão florestal, com o objectivo de apoiar os Gabinetes Técnicos Florestais que andavam a fazer Planos Municipais de Floresta Contra Incêndios com base em instrumentos toscos de mapeamento de risco estrutural (declaração ideológica, isto é o mecanismo típico de acção do Estado, que parte de uma ideia racional, sobre a qual começa a criar regras que criam depois a sua própria dinâmica que só por acaso tem alguma relação com a realidade e alguma utilidade).

Sem surpresa, a principal origem de informação é o histórico de incêndios (onde ardeu não há acumulação de combustível), a que juntam informação sobre declives e tipo de vegetação, para afinar a coisa, mas é o histórico dos fogos que conta.

Outra coisa é o risco meteorológico de incêndio, que internacionalmente é medido por um índice canadiano, o FWI (Fire Weather Index), sujeito a calibrações locais, com certeza, mas que é um índice meteorológico, como o nome indica, servindo para saber se o risco de um fogo progredir rapidamente aumenta ou diminui em função da meteorologia, e pode ser calculado hora a hora (veja-se a tal bonecada da AGIF, por exemplo).

Para saber se amanhã há um grande risco de incêndio, e onde, as metodologias de base meteorológica é que são úteis, é bastante irrelevante saber se há muito ou pouco combustível (genericamente há muito combustível em todo o lado, com excepção de áreas de agricultura intensiva, urbanas, planos de água e áreas ardidas há pouco tempo).

Para planear a gestão de combustíveis a médio/ longo prazo, a cartografia do risco estrutural é útil.

O que não é útil é misturar as duas coisas porque ao atribuir um peso relevante do risco estrutural na definição de Perigo de Incêndio Rural, o que vai acontecer é que o risco meteorológico, que é o que verdadeiramente conta, vai perder peso, ou seja, nos dias mais ou menos normais, temos a Administração Pública a emitir avisos atrás de avisos de que 50, 60, 70 concelhos estão em risco máximo de incêndio, e nos 12 a 15 dias de condições meteorológicas verdadeiramente excepcionais, o peso do risco estrutural mascara a verdadeira excepcionalidade meteorológica.

Isto é assim, e toda a gente que estuda o assunto sabe que é assim (o jornalismo de incêndios talvez não saiba porque consiste em mandar um repórter não especializado e sem capacidade de interpretação do fogo para uma frente de fogo, conversar com as pessoas com quem se cruza, os autarcas e os chefes de bombeiros).

Mas o Senhor Presidente do IPMA (este, ou outro qualquer) dirá, racionalmente, que se fizer um aviso e não acontecer nada, ninguém lhe pede contas, mas se houver um problema e não tiver havido aviso, o seu lugar está em risco, portanto, mesmo que isso signifique descredibilizar o sistema de avisos, dar indicações erradas para a gestão do dispositivo de supressão do fogo, é mais racional manter a situação actual e queixar-se da imprevisibilidade das situações excepcionais, vivendo como habitualmente.

O problema não é de pessoas concretas, é de um sistema institucional que não avalia resultados, portanto é incapaz de estabelecer nexos de responsabilidade e, por essa via, desenhar os incentivos adequados a que os dirigentes se preocupem mais com o país e as pessoas comuns, porque os seus lugares dependeriam de ser capazes de dar respostas eficazes aos problemas existentes.

Prognósticos só no fim do jogo, mas o meu prognóstico é que isto não vai melhorar tão cedo, mesmo numa coisa simples como a porcaria dos avisos por causa do risco de incêndio.

1 comentário:

  1. Os avisos do IPMA são mesmo um porcaria e estão descredibilizados. Tanto os dos fogos como os do tempo. É tal e qual como diz, os tipos de IPMA, Proteção Civil, enfim, de todo o aparelho do Estado, preocupam-se apenas com o fundo das respectivas costas. Claro que isto não vai mudar, nem tão cedo nem tão tarde. Até porque os portugueses, em geral, têm cada vez menos sentido critico e estão mais ignorantes e alienados.

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