domingo, 20 de setembro de 2026

As crianças de Gaza

 Estou farto de escrever contra o abuso de linguagem usado nas discussões sobre os conflitos na Palestina e arredores.

Deliberadamente, confunde-se o conceito canónico de criança - pessoa antes da puberdade - com o conceito administrativo usado - pessoa até aos 18 anos.

Numa zona do mundo é que o recrutamento de combatentes por parte dos grupos armados começa por volta dos doze anos (não é nenhuma especificidade local, é muito frequente em grupos insurgentes de muitas partes do mundo), a distinção do conceito canónico de criança e do conceito administrativo deveria ser uma preocupação permanente de quem quer discutir o assunto fora de um enquadramento militante.

Por causa de uma senhora que ficou muito ofendida quando escrevi que uma pessoa depois da puberdade não é uma criança, é um adolescente, demonstrando o seu nojo por mim porque a sua filha tinha 15 anos (não percebi a lógica, mas a lógica é um bem raro nas discussões sobre a Palestina, no caso, tenho a certeza absoluta de que serão muito raras as raparigas de 15 anos que acham que são crianças), resolvi olhar para a maternidade até aos 15 anos, em Gaza.

A taxa de gravidez adolescente, em Gaza, deve andar por volta dos 10% (com toda a cautela com que estes números devem ser lidos), em Portugal, para termos uma comparação, deve andar pelos 0,027%.

Quando vos falarem de crianças em Gaza, é bom lembrarem-se que inclui combatentes adolescentes, mães adolescentes e que metade da população de Gaza tem menos de 18 anos.

A menos que usem os números de Francesca Albanesi, que conseguiu calcular um número de crianças mortas em Gaza maior que o número de crianças existentes em Gaza, o que é extraordinário nesta guerra é que dos cerca de 70 a 80 mil mortos em Gaza, uns 50 mil sejam combatentes que o Hamas reconhece oficialmente como tal, a cujas famílias paga pensões de sangue, e não o número de verdadeiras crianças, pré-puberdade, que morreram nesta guerra (que as há, com certeza, como em todas as guerras, mas neste caso, numa proporção espantosamente baixa em relação a combatentes mortos).

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