O boneco acima foi publicado pelo Laboratório de Fogos Florestais - UTAD (talvez a página com informação mais fiável e sólida sobre gestão do fogo em Portugal), acompanhado do seguinte texto:
"É importante saber em que se baseiam as metodologias de avaliação do perigo de incêndio, bem como o significado e utilidade operacional dos produtos resultantes.
O IPMA produz o mapa oficial de classes de Perigo de Incêndio Rural (PIR), uma combinação subjetiva entre as classes de perigo meteorológico de incêndio (FWI) e a perigosidade estrutural; as classes FWI datam de 2006 e refletem a intensidade do fogo e a correspondente dificuldade de controlo de incêndio, com base em dados escassos e limitados a pinhal-bravo, enquanto a perigosidade estrutural indica a probabilidade de arder e combina as áreas ardidas históricas (período de 20 anos), declive e tipo de vegetação. Portanto o PIR não é coerente espaçotemporalmente nem tem tradução operacional direta.
A plataforma PyroCast (um esforço conjunto VOST / UEAUF da FEPC / ISA / UTAD) inclui vários produtos, incluindo os mapas da classificação da intensidade potencial do fogo, que seguem exatamente a mesma lógica da classificação FWI. Portanto, as classes indicam objetivamente dificuldades crescentes de controlo da cabeça de um incêndio. O desenvolvimento da classificação cobriu toda a gama de variação por inclusão de dados de fogos experimentais e de incêndios (incluindo os mais rápidos e intensos que ocorreram em Portugal), há distinção – via velocidade de propagação e carga de combustível – entre floresta, matos e herbáceas e é aplicada uma máscara que exclui as áreas ardidas no ano anterior.
Comparando os dois produtos para estes dias é imediatamente perceptível a sobrestima do perigo associada ao PIR, que noutras épocas do ano se pode converter em subestima, o que do ponto de vista operacional poderá ter consequências mais graves."
Vamos esquecer os punhos de renda, e procurar traduzir o texto (a responsabilidade da tradução é inteiramente minha, naturalmente).
Há anos e anos que o Estado português publica um mapa oficial de Perigo de Incêndio Rural, no qual baseia os seus avisos e o planeamento do esforço de supressão do fogo.
Os técnicos que mais estudam o assunto, incluindo alguns no Estado, sabem que é um mapa grosseiramente impreciso.
Nada contra isso se não houvesse melhor maneira de procurar prever os riscos associados aos incêndios, mas há anos e anos que quem estuda seriamente o assunto produz mapas muito melhores, mais precisos e com resultados muito mais próximos da realidade.
A administração, acefalamente, insiste em usar um mapa que alguém inventou, sem que se perceba por que razão se teima em usar uma metodologia de produção do mapa que a realidade insiste em demonstrar que é grosseiramente (e estou a usar um eufemismo) imprecisa.
Aparentemente, um académico da área da geografia, cujo principal interesse é a geomorfologia e chega ao fogo pelo lado da avaliação de risco, desenvolve uma ferramenta assente numa probabilidade de arder que um doutorando seu leva para a sua instituição pública.
A metodologia é adoptada e a ausência de cultura de avaliação de resultados faz o resto, uma opção errada pode manter-se indefinidamente, desde que alguém com um mínimo de poder acredite nela.
O resultado prático é a inutilidade do mapa para o planeamento da supressão, a multiplicação de avisos sem tradução em risco real que descredibiliza o sistema de avisos e a fantasia de pretender usar o mapa para coisas para as quais não foi criado (esta notícia, por exemplo, é de antologia, na demonstração de que administração pública completamente perdida no seu mundo).
Uma administração que não avalia resultados, obscurantista ao ponto de ignorar a informação produzida pelos melhores do país no assunto, pretende gerir processos complexos com modelos institucionais pobres, em que se destaca a parvoíce, repetida à exaustão nos últimos dias pelos apoiantes do Governo, que o facto de arder menos este ano até 31 de Agosto que noutros anos tem alguma relação com o ministro da administração interna ser Luís Neves e não o rato Mickey.
Como ninguém avalia e ninguém é responsável, e os responsáveis políticos há muitos anos que têm o vício de pôr os seus gabinetes a educar tecnicamente os serviços, apoiados por dirigentes cuja principal qualificação para a ocupação do lugar é nunca dizerem não, está montado um modelo institucional que só por acaso pode produzir melhores resultados que este triste fado que nos calhou em sorte.

Sem comentários:
Enviar um comentário